Sábado, 21 de Julho de 2007

MEMÓRIA COM DÉFICE NO OLHAR

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Não há hipótese de uma arrumação da memória colectiva sem o concurso dos especialistas que se dedicam à sua recolha, registo, sistematização e percepção projectiva. Sem eles, a forma como ligamos passado, presente e futuro, é uma dança de mosquitos à volta de uma lanterna. Eles dão-nos as bengalas com que, a par dos poetas, podemos encontrar chão para assentar os pés e perceber onde bebem as nossas raízes e por onde os nossos ramos se podem estender. Mas têm, também, uma terrível capacidade de manipulação. Porque, confiando neles, alguns podem aproveitar esse poder (e que imenso poder é o poder sobre a memória) para nos taparem um olho.

 

Uma investigadora cheia de pergaminhos editoriais, Margarida Calafate Ribeiro (*), escreve assim sobre o século XX:

 

“O imaginário histórico, político e cultural do Ocidente está dominado por um legado de violência e conflito. Só no século XX, assistimos a duas Guerras Mundiais, ao Holocausto, à Guerra Civil de Espanha, à Guerra do Vietname, às pouco narradas Guerras Coloniais europeias no Sul, seja na Ásia, seja em África, e à mais recente Guerra na ex-Jugoslávia. Guerras, massacres, genocídios, deportações, violações, violências.” (**)

 

Repare-se como a investigadora referida sintetiza as mais marcantes tragédias do século XX: as duas guerras mundiais, o Holocausto, a guerra civil de Espanha, a guerra do Vietname, as guerras coloniais, a guerra na ex-Jugoslávia. E nem uma referência, apenas uma, aos milhões de vítimas do comunismo integradas no genocídio social das lutas de classes e das suas degenerescências patológicas, bem como pelas purgas internas. Um olho de síntese histórica de Margarida Calafate Ribeiro não captou os milhões de camponeses ucranianos vítimas da fome provocada na luta contra os “kulaks”, as centenas de milhar de liquidados em Lubianka, os caídos no massacre de Katin, os milhões que se arrastaram no Gulag com muitos corpos despidos de alma que lá deixaram ou de lá trouxeram os ossos, os milhões de vítimas de Mao, os tantos milhões de cadáveres empilhados por Pol Pot. E o outro olho de síntese deve ter uma lente para que continuemos a olhar, apenas, através dos filtros selectivos das desgraças politicamente consagradas em que a "ilusão comunista" não é beliscada. Não desvenda, não ajuda a desvendar, estereotipa, dando-nos uma bengala de papel.

--------

(*) - Margarida Calafate Ribeiro, com uma eclética carreira académica em Literatura, é investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

 

(**) Da introdução de “África no Feminino”, Margarida Calafate Ribeiro, Ed. Afrontamento.

Publicado por João Tunes às 16:03
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7 comentários:
De Anónimo a 21 de Julho de 2007
"Os historiadores, os que nos dão as bengalas, a par dos poetas, podem-nos dar chão para assentar os pés e perceber onde bebem as nossas raízes. Mas têm um terrível poder de manipulação. Porque, confiando neles, podem aproveitar a confiança para nos taparem um olho."

Ainda bem que você não é historiador!
De pepe a 21 de Julho de 2007
Concordo com tudo o que diz, além de apreciar o naco de boa prosa sobre os historiadores. Porém, não conhecendo livro, nem autora, e só me ficando pela citação, talvez a perceba se entender o tal "imaginário histórico, político e cultural do Ocidente" como a expressão do cidadão médio europeu se lhe perguntarem quais as guerras/massacres do século XX mais significativas.

De facto, os exemplos que o João cita parece ainda estarem pouco evidentes na memória selectiva e colectiva que é a nossa. Por muitas e más razões, certamente.

Porém, mesmo esse hipotético"europeu médio" será o resultado duma outra visão selectiva, pois se for um polaco ou um ucraniano a responder à mesma questão, certamente citará algum dos exemplos que o seu post acrescenta à lista. Só que esses europeus recém-chegaram ao mítico Ocidente e ainda não têm peso no imaginário social de muitos historiadores, poetas e outros bengaleiros do nosso meio.
De João Tunes a 21 de Julho de 2007
De acordo, caro Pepe. Mas se os que se dedicam ao tratamento académico e público da memória alinham na reprodução do senso comum na percepção "média" difundida e reificada, então reduzem-se ao papel de burocratas do estabelecido e do esperado. Digam-se burocratas reprodutores do senso comum, não se intitulem "investigadores".

Abraço.
De batuta a 22 de Julho de 2007
Eu já desisti de fazer o que Você faz neste post.
Definitivamente, existe em Portugal um manto sobre o genocídios soviéticos (numericamente muito superiores ao holocausto da segunda guerra) que bem atesta o estado de aculturação das pessoas, bem como a capacidade e o poder de manipulação que o ridículo PCP ainda tem na sociedade portuguesa.
De Eu mesmo a 22 de Julho de 2007
Caro senhor, e os milhões e milhões de vítimas do capitalismo selvagem ( desemprego, exclusão, pobreza, fome, etc, etc, etc ,etc... que a lista é infinita, passando pela criação de conflitos/guerras só para vender armas e toda a panóplia de produtos que fazem falta aos exércitos)???
E olhe que eu não sou comunista, nem nada que se pareça, antes pelo contrário.

Eu mesmo
De batuta a 22 de Julho de 2007
Caríssimo,

Não vejo qualquer contradição entre o que escrevi e o que Você escreveu, como resposta.
De paulo santiago a 22 de Julho de 2007
João
Deverias aconselhar a Doutora Margarida a ler
ESTALINE-Na Corte do Csar Vermelho
Abraço

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