Quinta-feira, 19 de Julho de 2007

QUANDO LUANDA (encaixotada) SE FEZ AO MAR (*)

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Toda a gente se afadigava a construir caixotes. Mandavam vir montanhas de tábuas e de contraplacado. O preço dos martelos e dos pregos subiu vertiginosamente. Os caixotes eram o principal tópico das conversas – como os construir, qual o melhor material para os tornar mais resistentes. Apareceram subitamente especialistas autoproclamados, especialistas de caixotes, arquitectos caseiros de caixotaria, mestres de estilos de caixotes, escolas de caixotes e modas de caixotes. Dentro de Luanda de cimento armado e tijolos, erguia-se uma nova cidade de madeira. As ruas por onde eu andava pareciam-se com uma enorme carpintaria. Tropeçava em pranchas de madeira deixadas ao acaso, pregos despontando das vigas rasgavam-me a camisa. Alguns caixotes eram tão grandes como casas de férias, porque se tinha estabelecido, de um momento para o outro, uma escala social dos caixotes. Quanto mais ricas eram as pessoas, tanto maiores os caixotes que faziam. (…)

(…)

A construção da cidade de madeira, da cidade dos caixotes, continua dia após dia, do amanhecer até ao fim da tarde. Toda a gente trabalha, encharcada pela chuva, queimada pelo sol; até os milionários em boas condições físicas metem mãos ao trabalho. O entusiasmo dos adultos contagia as crianças. Também elas constroem caixotes para as suas bonecas e outros brinquedos.

(…)

Gradualmente, noite após noite, a cidade de pedra transferiu o seu valor para a cidade de madeira. Gradualmente, também, as pessoas alteraram a sua estimativa da cidade de pedra. Deixaram de pensar em termos de casas e apartamentos e falavam somente de caixotes. Em vez de dizerem: - Tenho de ir ver o que tenho em casa – diziam: - Tenho de ir passar revista ao meu caixote. (…)

Nunca vira uma cidade assim em nenhuma parte do mundo, e talvez não volte a ver nada que se assemelhe. Existiu durante meses e, de súbito, começou a desaparecer. Ou melhor, bairro após bairro, foi levada de camião para o porto. Agora, espalhava-se à beira-mar, iluminada à noite pelas lanternas do porto e o clarão das luzes dos navios ancorados. De dia, as pessoas deambulavam pelas ruas caóticas, a pintarem o nome a morada em pequenas placas, tal como qualquer pessoa em qualquer parte do mundo constrói uma casa. (…)

Mais tarde, quando as coisas na cidade de pedra tinham piorado muito e nós, o seu punhado de habitantes, esperávamos como fatalistas pelo dia da sua destruição, a cidade de madeira fez-se ao mar. Foi levado por uma grande frota e, ao fim de várias horas, desapareceu com ela para lá da linha do horizonte. Isto aconteceu subitamente, como se embarcações de piratas tivessem aportado, pilhado um tesouro valioso e escapado com ele.

(…)

Não sei se alguma vez se deu a deslocação de uma cidade inteira pelo oceano, mas foi exactamente isso que aconteceu. A cidade navegou pelo mundo à procura dos seus habitantes. (…)

(…)

(…) Depois de sair de Luanda, fiz paragem em Lisboa. Um amigo levou-me de carro ao longo de uma rua larga na foz do Tejo, perto do porto. E vi montanhas fantásticas de caixotes, empilhados até alturas perigosas, sem nenhuns sinais de movimento, abandonados, como se não pertencessem a ninguém. Esta era a parte maior da Luanda de madeira, a que tinha chegado à costa da Europa.

 

(*) – Transcrição parcial de “Mais um dia de vida, Angola 1975”, Ryszard Kapuscinski, Ed. Campo das Letras

Publicado por João Tunes às 23:52
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3 comentários:
De C.Almeida a 20 de Julho de 2007
Pergunta ingénua.
Tanto trabalho para quê?
O que fizeram a Angola e da maneira como fizeram foi uma infâmia e um ultraje ao povo Angolano.
Quem lucrou com tudo aquilo?
Onde está a alegria daquele povo que um dia aprendi a amar?
De Miguel a 20 de Julho de 2007
Nasci em Lisboa e quando tudo isto aconteceu eu tinha 8 anos. Lembro-me de todos esses caixotes espalhados pela foz do Tejo. Impressionou-me bastante. Não compreendi na altura o que era tudo aquilo, hoje sei. Ao contrário do comentário anterior, não julgo ninguém. Devia ter sido quase impossível os "retornados" terem ficado na terra que os viu nascer e estou certo que todos deixaram Angola com uma enorme mágoa na alma.
De RENATO PEREIRA a 12 de Outubro de 2007
Os caixotes... Pior do que isso foi a alma...
Alguém lucrou com a descolonização? Esses n
ão foram certamente os Angolanos..que continuam pobres e miseráveis!

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