Quinta-feira, 19 de Julho de 2007

A DOR E O SANGUE DE UMA INDEPENDÊNCIA EM FORMA DE LIVRO

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Cheguei atrasado ao livrinho de Ryszard Kapuscinski (*) com os seus registos sobre a independência de Angola, porque só agora me dei conta dele e o li, quando a segunda edição está pendurada nos escaparates. Entre a primeira edição, em 1997, e esta reedição, muita coisa aconteceu. Em Angola, que passou da guerra à paz, mas com a cleptocracia do MPLA inamovível no poder, embora agora esteja decorada pelos impacientes neo-cleptocratas da UNITA “política”, ora reunida em congresso a que João Soares dá patrocínio de civilidade de alternância democrática, fazendo um jogo de complementariedade com o pai, Mário Soares (enquanto o pai assegura a autenticidade democrática de Chavez na Venezuela, o filho trata de carimbar os pergaminhos democráticos dos herdeiros de Savimbi, impávidos a continuarem a venerá-lo como “irmão mais velho”). Entretanto, Kapuscinski morreu e recolheu as loas merecidas e devidas a um dos maiores repórteres-escritores de todos os tempos, ameaçando destronar Hemingway do seu trono merecido, mas mitificado até dizer basta. E como se a perda de Kapuscinski fosse dor para doer muito, os arquivos polacos revelaram há pouco, após o seu falecimento, que o genial repórter-escritor foi-o pelo seu talento único mas também porque se prestou a ser agente da filial polaca do KGB, misturando espionagem com jornalismo, deixando-nos agora, quando lemos os seus livros admiráveis, um sabor “mix” de admiração e repulsa.

 

Pelo tema tratado, este livrinho (**) de Kapuscinski sobre os dias de brasa da independência de Angola representam prosa inevitável para lembrar o ponto mais dramático da descolonização. A vivência de Luanda nas vésperas de uma independência em que poucos apostavam como possível (incluindo no MPLA, onde só os teimosos mais fanáticos do orgulho africano, como Agostinho Neto e poucos mais), defrontando uma panóplia adversa poderosíssima que jamais se voltou a reunir num arco tão amplo (FNLA, UNITA, MPLA-Chipenda, colonos portugueses, mercenários, Mário Soares e PS, Spínola e spinolistas, maoístas portugueses, reaccionários portugueses, África do Sul dos tempos do apartheid poderoso, Zaire, Estados Unidos, China). Um arco tão poderoso mas tão desacreditado em causas que foi rechaçado por tropas mandadas por Fidel Castro, com armas soviéticas e mais um punhado de angolanos, uns fanáticos e outros arrebanhados, imberbes mas orgulhosos, permitindo a Agostinho Neto mandar arrear a bandeira portuguesa e declarar a independência de Angola em 11 de Novembro de 1975, tirando a coroa do império português da cabeça teimosa do mito português da ilusão africana que nos construiu como povo negreiro para teimar em nos deixarmos andar por ali, armados em colonialistas fatalistas, até sermos corridos a pontapé com os caixotes às costas (***).

 

Dois momentos de reportagem, neste livrinho, são de antologia no enorme poder literário de Kapuscinski – o que dá a atmosfera dos colonos de Angola em debandada e a viagem à frente sul junto à linha da ofensiva da UNITA/África do Sul. O que é imenso no quadro de um tão pequeno livro, dando-nos a dimensão do génio concentrado de Kapuscinski.       

 

(*)“Mais um dia de vida, Angola 1975”, Ryszard Kapuscinski, Ed. Campo das Letras

 

(**)Excelente desafio que lanço para o lerem como “livro de férias”. Lê-se bem, pelo estilo empolgante e pela dimensão diminuta (91 páginas), e é baratinho (menos de 10 euro).

 

(***)Um dos escritos literários mais extraordinários sobre a debandada dos colonos portugueses encontra-se nas páginas sobre a “cidade dos caixotes” que, quem viveu o tempo da chegada dos “retornados”, bem se lembra como chegou, acampou e decorou o porto de Lisboa. Acho que merece uma transcrição parcial, por isso a farei no post seguinte.

Publicado por João Tunes às 23:44
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