Sábado, 14 de Julho de 2007

O LIVRO INCOMUM INEVITÁVEL

001qa8b7

 

O volumoso (e trabalhoso) livro de memórias do anarquista académico João Freire (*) é um acontecimento invulgar e insólito no memorialismo português. Pelo menos, nada comum. A sensação que se fica, após a sua leitura (que exige disciplina e persistência), é que se acabou de ler uma “tese de doutoramento autobiográfico”, tal o rigor, o pormenor do registo, a fundamentação, as notas e a demonstração. E como registo pessoal de vivência e trajectória, autêntica obra de maníaco sobredotado e escrupuloso com uma memória prodigiosa e absolutamente sistematizada.

 

Desde logo, ressalta a invulgaridade do autobiografado. Nascido em 1942, oriundo da classe média lisboeta, em cuja família pontificavam os militares de carreira, JF fez o trajecto típico do varão vindo das famílias militares: aluno do Colégio Militar, curso da Escola Naval, oficial da Armada. Na sua comissão militar na guerra colonial em Moçambique, JF rompe com a carreira militar e com o regime (desamparado pela morte do pai, general de destaque na guerra em Angola, por acidente aéreo, não suporta o papel de instrumento profissional na guerra colonial). Deserta e exila-se em França onde apanha com o Maio 68. Vive os acontecimentos, torna-se operário na Renault, enquanto faz a licenciatura em Ciências Políticas e Sociais (pelo Institut d'Etudes Politiques de l'Université de Paris) e transforma-se num activíssimo militante anarquista. Após 74, regressa amnistiado a Portugal onde prossegue a militância anarquista enquanto dá aulas de sociologia no ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa). Obtido o seu doutoramento, passa a professor catedrático e ocupa lugares da maior responsabilidade naquele instituto universitário até se reformar (publicando inúmera bibliografia científica). Da sua juventude consta ainda uma bem sucedida carreira desportiva como esgrimista de alta competição.

 

A somar ao trajecto insólito e polifacetado do autor, acresce a riqueza pormenorizada dos seus registos de experiências e que transformam o livro num documento de consulta incontornável em vários domínios – na percepção da Lisboa burguesa da segunda metade do século XX, no panorama dinâmico da evolução desportiva em Portugal, no conhecimento da cultura militar e do efeito nela das guerras coloniais, no militantismo anarquista (tão pouco e mal conhecido) e uma interessante revisita ao Maio de 68 em Paris e o seu efeito nos exilados portugueses (os políticos e os económicos).

 

Os pontos mais irrelevantes (e de leitura cansativa) do livro são a inicial, longa e pormenorizada rede genealógica (de interesse restrito para os seus familiares) e o fecho com a sua carreira académica no ISCTE (de interesse óbvio apenas para as pessoas ligadas a esta instituição académica). Mas cumpridos (ou dispensados) o início e o final da obra, os recheios intermédios são de interesse excepcional para o conhecimento de uma época e uma forma peculiar de a viver, constituindo uma referência testemunhal obrigatória para qualquer estudo sobre a realidade social e política portuguesa da segunda metade do século XX português.

 

Resumindo: um livro absolutamente incomum de uma personagem nada comum. Se a evidente modéstia monástica e aristocrática do autor permite que uma pessoa mesmo comum assim fale do seu livro.

  

(*) “Pessoa comum no seu tempo, memórias de um médio burguês de Lisboa na segunda metade do século XX”, João Freire, Edições Afrontamento

Publicado por João Tunes às 23:55
Link do post | Comentar

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO