Quinta-feira, 12 de Julho de 2007

NUVEM SEM CHUVA

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Embora a sua publicação não deixe de representar um acto de enorme coragem face ao contexto angolano, o livro de Miguel Francisco (“Michel”) (*) é um contributo e uma semi-decepção para o melhor conhecimento e esclarecimento dos traumáticos e sangrentos acontecimentos em Angola em 27 de Maio de 1977 (**).

 

Sendo, então, um dos jovens militares da famosa 9ª Brigada de Infantaria Blindada (a numerosa força de elite das FAPLA e que constituiu o grosso das forças que saíram em apoio dos golpistas), “Michel” foi um dos muitos milhares de reprimidos na resposta brutal dos serviços de segurança da fracção triunfante do MPLA aglutinada à volta do Presidente Neto, tendo sido internado num campo de concentração criado no leste angolano para albergar os revoltosos ou disso apenas suspeitos, suportando violências e condições infra-humanas. Se a narrativa da sua odisseia é impressiva e interessante, pouco ou nada esclarece quer sobre o seu envolvimento no golpe fracassado e nas motivações deste. Pretextando que, no dia do golpe, estava em casa por doença, “Michel” apresenta-se como “vítima inocente”. E talvez assim tenha sido. Ou pelo menos, o seu envolvimento não tenha passado da motivação ingénua por uma “purificação marxista” do MPLA. No entanto, está por saber qual o grau do seu envolvimento na preparação e mobilização para que a 9ª Brigada funcionasse como o motor militar do golpe “nitista” (e a agitação prévia nesta unidade já se arrastava há tempos). Alguns indícios motivadores dão a entender que tenha sido assim, na medida em que, pelo menos, comunga do ódio dirigido contra os mestiços dirigentes do MPLA (em que os ódios maiores eram dirigidos a Lúcio Lara e Iko Carreira, ambos mestiços claros) e que acusa de todos os males e de influências manipuladoras sobre Agostinho Neto. E sobre as motivações do golpe não ultrapassa a caracterização dos conflitos rácicos e tribais. E uma complacência perpassa na forma como tenta desvalorizar a sangrenta repressão inicial dos revoltosos quando, no Bairro de Sanbizanga, queimaram vivos oito comandantes e heróis do MPLA que estavam ao lado de Neto (atribuindo o “incidente” a um acto provocatório de um “infiltrado”), o que foi um negro indício do que seria a matança e a vingança caso Nito Alves tivesse conseguido a vitória, com o apoio dos soviéticos e se conseguissem a neutralidade das tropas cubanas.

 

O testemunho de “Michel”, no quadro do pesado silêncio do medo que ainda obscurece este acontecimento de enormes dimensões na memória angolana, continuando a dividir a sociedade em múltiplas feridas por cicatrizar, é um pequeno, mas muito insuficiente passo, para que a história fale e a memória angolana se recomponha do seu trauma maior. E, nessa dimensão, deve o livro ser saudado.

 

(*) – “Nuvem Negra, o drama do 27 de Maio de 1977”, Miguel Francisco “Michel” (na foto), Clássica Editora

 

(**) – Também o último livro de Zita Seabra (“Foi Assim”) se refere a estes acontecimentos na evocação de Sita Valles (que foi sua adjunta na UEC), embora não adiante além da evocação sentimental e afectiva relativamente à amizade entre as duas. Politicamente, esta referência de Zita a Sita nada adianta nem é sequer credível quanto ao efectivo esforço da direcção do PCP para que Sita Valles não regressasse a Angola (mesmo que os factos se tenham passado como Zita relata, não é de excluir, caso Sita tivesse de facto uma “missão soviética” para Angola usando a via PCP, que Cunhal tenha encenado um simulacro de tentativa de impedir Sita de voltar a Angola para que Zita Seabra e Carlos Brito não o soubessem e pensassem exactamente o contrário). E quanto à forma como o PCP alinhou com Agostinho Neto e cubanos, nada fazendo para salvarem Sita (que só foi assassinada alguns meses depois da derrota do golpe), a “flexibilidade táctica” da casa não permitia outra coisa que o encosto aos vencedores. E, infelizmente para o apuramento da verdade, os arquivos soviéticos mantêm-se expressamente fechados relativamente a este período.

Publicado por João Tunes às 19:05
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De meireles a 14 de Novembro de 2007
O PERCURSO De DR HUGO JOSÉ AZANCOT DE MENEZES

Hugo de Menezes nasceu na cidade de São Tomé a 09 de fevereiro de 1928, filho do Dr Ayres Sacramento de Menezes.

Aos três anos de idade chegou a Angola onde fez o ensino primário.
Nos anos 40, fez o estudo secundário e superior em Lisboa, onde concluiu o curso de medicina pela faculdade de Lisboa.
Neste pais, participou na fundação e direcção de associações estudantis, como a casa dos estudantes do império juntamente com Mário Pinto de Andrade ,Jacob Azancot de Menezes, Manuel Pedro Azancot de Menezes, Marcelino dos Santos e outros.
Em janeiro de 1959 parte de Lisboa para Londres com objectivo de fazer uma especialidade, e contactar nacionalistas das colónias de expressão inglesa como Joshua Nkomo( então presidente da Zapu, e mais tarde vice-presidente do Zimbabué),George Houser ( director executivo do Américan Commitee on África),Alão Bashorun ( defensor de Naby Yola ,na Nigéria e bastonário da ordem dos advogados no mesmo pais9, Felix Moumié ( presidente da UPC, União das populações dos Camarões),Bem Barka (na altura secretário da UMT- União Marroquina do trabalho), e outros, os quais se tornou amigo e confidente das suas ideias revolucionárias.
Uns meses depois vai para Paris, onde se junta a nacionalistas da Fianfe ( políticos nacionalistas das ex. colónias Francesas ) como por exemplo Henry Lopez( actualmente embaixador do Congo em Paris),o então embaixador da Guiné-Conacry em Paris( Naby Yola).
A este último pediu para ir para Conacry, não só com objectivo de exercer a sua profissão de médico como também para prosseguir as actividades políticas iniciadas em lisboa.
Desta forma ,Hugo de Menezes chega ao já independente pais africano a 05-de agosto de 1959 por decisão do próprio presidente Sekou -Touré.
Em fevereiro de 1960 apresenta-se em Tunes na 2ª conferência dos povos africanos, como membro do MAC , com ele encontram-se Amilcar Cabral, Viriato da Cruz, Mario Pinto de Andrade , e outros.
Encontram-se igualmente presente o nacionalista Gilmore ,hoje Holden Roberto , com o qual a partir desta data iniciou correspondência e diálogo assíduos.
De regresso ao pais que o acolheu, Hugo utiliza da sua influência junto do presidente Sekou-touré a fim de permitir a entrada de alguns camaradas seus que então pudessem lançar o grito da liberdade.

Lúcio Lara e sua família foram os primeiros, seguindo-lhe Viriato da Cruz, Mário de Andrade , Amílcar Cabral e dr Eduardo Macedo dos Santos.

Na residência de Hugo, noites e dias árduos ,passados em discussões e trabalho… nasce o MPLA ( movimento popular de libertação de Angola).
Desta forma é criado o 1º comité director do MPLA ,possuindo Menezes o cartão nº 6,sendo na realidade Membro fundador nº5 do MPLA .
De todos ,é o único que possui uma actividade remunerada, utilizando o seu rendimento e meio de transporte pessoal para que o movimento desse os seus primeiros passos.
Dr Hugo de Menezes e Dr Eduardo Macedo dos Santos fazem os primeiros contactos com os refugiados angolanos existentes no Congo de forma clandestina.

A 5 de agosto de 1961 parte com a família para o Congo Leopoldina ,aí forma com outros jovens médicos angolanos recém chegados o CVAAR ( centro voluntário de assistência aos Angolanos refugiados).

Participou na aquisição clandestina de armas de um paiol do governo congolês.
Em 1962 representa o MPLA em Accra(Ghana ) como Freedom Fighters.

Em Accra , contando unicamente com os seus próprios meios, redigiu e editou o primeiro jornal do MPLA , Faúlha.

Em 1964 entrevistou Ernesto Che Guevara como repórter do mesmo jornal, na residência do embaixador de Cuba em Ghana , Armando Entralgo Gonzales.
Ainda em Accra, emprega-se na rádio Ghana juntamente com a sua esposa nas emissões de língua portuguesa onde fazem um trabalho excepcional. Enviam para todo mundo mensagens sobre atrocidades do colonialismo português ,e convida os angolanos a reagirem e lutarem pela sua liberdade.

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