Terça-feira, 26 de Junho de 2007

ÁFRICA E UM SALTO NAS EFEMÉRIDES

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Entalado por me ter esquecido ontem de celebrar os 32 anos da independência de Moçambique, mais uma vez me penduro no Marcelo Ribeiro, usando-lhe um naco de prosa corrida para me desenrascar do aperto da amnésia. Vai além de Moçambique, mas assim ainda melhor. É sobre África, europeus, África. Só lendo.

 

Salto para um programa onde vejo o Mia Couto. O programa agora é sobre África. Sobre os estereótipos sobre África. De vez em quando encontro pessoas que foram até lá. Para a praia! Não se lhes peça opinião, muito menos descrição. Foram tomar banho. Os pretos são todos iguais. Iguais e pretos. Descobri, sem surpresa, devo dizer, que ninguém vem com qualquer ideia sobre a realidade vista, visitada. Encerrados num resort, num grande hotel, aquilo que os deveria surpreender não surpreende, tanto lhes fazia África ou a Dominicana, desde que haja praia e um moleque para trazer o daiquiri ou whisky, preto ou mulato é igual, um criado é um criado, pode até ser branco mas isso é mais difícil nos trópicos ou adjacências similares.
O Mia, coitado, bem que se esforça mas o peso de uma África tecnicolor, muito Rainha Africana, torna surda toda a gente. E, todavia, ao que parece, viemos todos de lá, em levas sucessivas, ao azar dos caminhos, perdendo a cor e a melanina ao mesmo tempo. Em trinta, quarenta, cinquenta mil anos, a longa marcha do sapiens sapiens deu isto. E lembro a Ana, na nossa única bicada (a dois) africana, Senegal, ela ia em trabalho, estarrecida: ao fim de meia dúzia de dias, dizia-me: mas eles são tão diferentes fisicamente! Deliciada! E obrigou-me a comer umas coisas à mão em casa de um Abdul simpatiquíssimo, cinco filhos que às tantas estavam todos ao colo da holandesa loira e grande e lhe diziam coisas em uolof disse-me, Vou aprender uolof, há-de ser menos difícil que o português e o Abdul ria como um perdido e jurava que não, português é canja ao pé do uolof, mas a Ana insistia, vou aprender, ai isso é como ginjas, enfim ela não disse como ginjas era o que faltava, mesmo sabendo uns rudimentos de português, português de cama, dizíamos, tontos e felizes, não dá para estas idiomáticas. A Ana nem a morrer aprendeu, aquilo foi tiro e queda, coisa de semanas, puta que pariu isto tudo, um gajo apaixona-se, pensa que afinal a vida pode começar aos trinta e muitos e vem a porra da maligna e zás!, a andar violeta!

Publicado por João Tunes às 22:48
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