Segunda-feira, 25 de Junho de 2007

RAIZ SOVIÉTICA NO ANTISEMITISMO DE ESQUERDA (2) - A "CONSPIRAÇÃO DAS BATAS BRANCAS"

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Com o “perigo sionista” (aliado do imperialismo norte-americano) na ordem do dia, faltava “descobrir”, inventando-a e tecendo-a, uma conjura dos judeus soviéticos para derrubarem Estaline e o governo soviético, liquidando os seus dirigentes. Naturalmente que, na conjura a inventar, se ela implicava a perseguição e liquidação de grande parte da comunidade judaica soviética, pois o ódio aos judeus era a chama que alimentaria a fogueira da carnificina programada, os judeus funcionariam como bode expiatório mas não eram os alvos mais importantes a abater. Estes estavam no Kremlin sentados ao lado de Estaline ou cumprindo-lhe directamente as ordens. Eram os membros da Comissão Política do PCUS (Jdanov, o “número dois” do regime, Molotov, Mikoian, Malenkov, Kouznetsov e Voznessenski) e a cúpula do aparelho policial (então designado como MGB, antes chamado de NKVD e mais tarde como KGB), incluindo o ministro da Segurança (Abakoumov), um antisemita notório que antes tinha dirigido a liquidação dos judeus do “Comité Judaico Antifascista”. A ponte “contaminadora” entre judeus e dirigentes comunistas de topo seria estabelecida pela “infiltração” de ambos os sectores pelos serviços secretos ocidentais.

 

Jdanov morreu por doença ainda em 1948, a mulher de Molotov foi presa e enviada para o Gulag, Kouznetsov e Voznessenski foram presos e fuzilados, prendendo e torturando Abakoumov, a razia estalinista contra a cúpula comunista iniciou a sua marcha, prenunciando o retorno ao período 1937-39 [em que, só em 1937, foram presos um milhão de comunistas soviéticos (membros ou candidatos a membros do PCUS), dos quais 353.074 foram fuzilados e os restantes enviados para o Gulag], a que, provavelmente, não escapariam, pelo menos, os destacados dirigentes estalinistas Molotov, Mikoian, Malenkov e, numa segunda vaga, o próprio Beria. Assim, em cima dos esqueletos dos seus parceiros proeminentes do supremo poder comunista soviético, Estaline podia reconstruir toda a pirâmide do poder soviético a partir de novos e promovidos quadros tolhidos pela fidelidade do terror e, com ele, iniciar o “grande confronto” com o Inimigo Ocidental, Estados Unidos e Israel à cabeça. Para a operação, Estaline não só enfiou na prisão Abakoumov, o chefe dos carrascos com as mãos encharcadas de sangue, passando repentinamente de policia-mor a espião-mor, como o substituiu por um assassino em ascensão (Rioumine) [ambos escapariam com vida ao estalinismo pelo falecimento do ditador, vindo os dois a serem fuzilados já com Kroutchev no poder, assim como Beria].

 

Mas se o fio condutor era a “conspiração sionista” havia que encontrar os “judeus assassinos”. O flash que iluminou a teia “conspirativa” foi encontrada nos médicos do Kremlin (os que assistiam, com cuidados médicos especiais, os dirigentes soviéticos e do movimento comunista internacional de primeira grandeza, que eram recrutados nas sumidades científicas e nas várias especialidades da medicina soviética). Entre estes, contavam-se alguns judeus (embora fossem uma minoria) e bastava encontrar um traço de contumácia de práticas criminosas dos “médicos soviéticos” contra dirigentes e altas personalidades soviéticas para estabelecer o panorama da conjura que, pelo seu traço peculiar, ficou conhecida como a “conspiração das batas brancas”. Uma médica que fizera electrocardiogramas a Jdanov, em 1948, Drª Timachouk, era agente do MGB e fizera uma denúncia de negligência médica contra os médicos que assistiam Jdanov na sua doença cardíaca. A denúncia ficou adormecida durante três anos (apesar de ter ido ao conhecimento de Estaline que lhe meteu despacho de envio “para arquivo”) até que se verificou a sua “utilidade”. Utilidade esta que funcionava nos dois sentidos pretendidos: 1) o aparelho do MGB, incluindo os oficiais e agentes judeus, estava “contaminado” porque não tinha dado seguimento à denúncia da Drª Timachouk, omitindo-se que o MGB não o fez porque Estaline mandou “arquivar” a delação; 2) os médicos judeus estavam apostados em assassinar os dirigentes soviéticos, a soldo dos mesmos serviços secretos que se infiltrara no MGB. A passagem da limpeza no MGB para a liquidação dos membros mais destacados da Comissão Política do PCUS (Molotov, Malenkov, Mikoian) seria feita numa associação posterior. Para já, Jdanov, aquele que tinha um prestígio mais aproximado ao de Estaline, tinha morrido (poupando vir a ser um alvo da purga, servindo agora de vítima da conjura), Kouznetsov e Voznessenski, protegidos de Jdanov, mais novos e ambiciosos, com grande prestígio e influência em Leninegrado, foram rapidamente presos e fuzilados. Dos que restavam com algum peso, além do medíocre burocrata Kaganovitch (o judeu sobrevivente), restavam Beria e Kroutchov no Olimpo do Kremlin. Logo que surgisse a hora de se desembaraçar de Beria, Kaganovitch não fazia qualquer sombra e Kroutchov, sempre servil e cúmplice com Estaline, faria bem o papel de putativo delfim (como, por ironia da história, semi-desmascarando Estaline, fuzilando Beria, acabaria por se consagrar no XX Congresso do PCUS como o sucessor no poder supremo do Kremlin). 

 

Mas a encenação mais importante na “conjura” dizia respeito à sua componente judaica, para se ir ter a Israel e, depois, aos Estados Unidos. Se Abakoumov não era judeu, era-o um dos seus adjuntos, Schwartzman, logo, na hierarquia da “conjura”, o adjunto mandava no chefe. E por aí abaixo, passando pelos vários generais e coronéis judeus que trabalhavam no MGB. Quanto aos médicos, aos terríveis “assassinos de bata branca”, os que velavam pela boa saúde dos dirigentes soviéticos, uma das eminências da medicina soviética, Dr. Etinguer, era judeu e foi promovido a cérebro da “conjura”. E na equipa que havia assistido Jdanov, uma médica que executara electrocardiogramas antes da Drª Timachouk, a Drª Karpai, também era judia. Dois judeus chegavam para provar que a sede do crime estava no judaísmo e na sua componente moderna, o sionismo. Quanto aos médicos não judeus da equipa do Kremlin (Dr. Iegorov, Dr. Volkogronov, Dr. Rijikov e Dr. Vinagradov, este o médico pessoal de Estaline), bastava “demonstrar” que estavam a soldo do Dr. Etinguer. Todos foram presos e torturados (o Dr. Etinguer morreu durante as sessões de tortura na prisão de Lefortovo). Enquanto a apagada Drª Timachouk, a agente denunciante, foi glorificada como heroína soviética (o “Pravda” chamava-lhe a Joana D’Arc soviética) e condecorada com três (!) Ordens de Lenine. Mas se a “negligência médica” com Jdanov era curta para tamanha conspiração, foi pesquisado que outros dirigentes e personalidades soviéticas haviam sido tratados pelos “médicos assassinos” e tinham morrido de crise cardíaca. E foram encontradas outros. O escritor Máximo Gorki, o dirigente Chtcherbakov, falecido em 1945 e Dimitrov (dirigente comunista búlgaro que havia dirigido o Komintern), falecido em 1949, juntaram-se a Jdanov no rol das vítimas das “batas brancas” que, segundo se depreendia, culminaria no assassinato de Estaline e na entrega da URSS aos judeus e aos Estados Unidos. Para que a "conjura" assumisse uma dimensão extra-soviética, havia que fabricar "sucursais" nos restantes países sob regime comunista com tutela soviética. Assim se encenaram réplicas da "caça aos judeus", de que o exemplo mais terrível foi a decapitação da liderança do Partido Comunista da Checoslováquia, incluindo o enforcamento público, em Praga, em 3/12/1952, juntamente com outros camaradas dirigentes comunistas, do próprio Secretário Geral do PCC, o judeu checo Slansky, um estalinista com provas dadas.   

 

A morte de Estaline, em Março de 1953, interrompeu a tecelagem da “conjura” e, com ela, a orgia de sangue, de prisões e de torturas que ameaçava a liberdade e a vida de centenas de milhar de cidadãos soviéticos, sobretudo de judeus (ameaçados de extermínio) e de comunistas aclamantes de Estaline. Com Krutchov, demonstrada a falsidade de todas as “provas”, os presos foram libertados e reabilitados (excepto Abakoumov que foi mandado fuzilar por Kroutchov por outros crimes anteriores); Molotov (e a mulher), Mikoian e Malenkov salvaram a pele; o carrasco (Rioumine) que dirigiu a “investigação” sobre a “conjura das batas brancas” foi fuzilado por ordem de Kroutchev. Como as vítimas libertadas fizeram, entre si (por sugestão de quem? por pressão de quem?), um “pacto de silêncio” sobre as suas odisseias, o caso das “batas brancas” foi assumido pelo poder soviético sucedâneo de Estaline como “uma nuvem negra que passou”, a dos “últimos crimes de Estaline”. Até porque Israel se mantinha como “inimigo dos soviéticos” e a soldo dos Estados Unidos e o antisemitismo/antisionismo continuaria, como continua hoje, a ser uma peça importante na propaganda da esquerda “contra o imperialismo norte-americano e os seus lacaios em Israel”. Sem Estaline, sem Kroutchov, sem URSS, o “perigo judaico” é filão inesgotável para qualquer propaganda da esquerda anti-imperialista. O antisemitismo entranhado na esquerda garante o sucesso na alimentação de um velho e persistente ódio político em que Israel apanha por tabela, mas apanha. O que Hitler fez com as câmaras de gás e Estaline com as torturas e os fuzilamentos, a esquerda anti-sionista continua a imitar pela via da propaganda herdada da "guerra fria", repetindo subentendidamente o que Estaline disse, preto no branco, em 1952: “Cada judeu é um inimigo potencial a soldo dos Estados Unidos”.  

 

[Sobre a “conjura das batas brancas”, ler: “Le dernier crime de Staline”, Jonathan Brent e Vladimir Naumov, Ed. Calmann-Lévy, obra baseada em documentos secretos do poder soviético, recentemente acessíveis]

Publicado por João Tunes às 18:36
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1 comentário:
De Rui P. Bebiano a 25 de Junho de 2007
Palavras para quê? Seria da sífilis?

O que mais espanta em toda estas histórias sórdidas é a orgia autofágica com que o georgiano foi pouco a pouco decapitando toda a mais válida elite soviética. Até ficar como o nosso Botas diria "orgulhosamente só".

Não foi ele o principal responsável pelo monstro criado e pela vitória do campo capitalista na guerra fria?

Já quanto aos judeus não creio que seja só isto a justificar a sanha anti-judaica ( e não digo anti_semita por achar que isso é bem mais abrangente ). Séculos de doutrinação católica contribuiriam também, em especial na Europa do Sul, para olhar para esse povo que recusou e matou o "Filho de Deus", como uma raça de párias a varrer do cimo da terra e da memória da história.

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