Segunda-feira, 25 de Junho de 2007

RAIZ SOVIÉTICA NO ANTISEMITISMO DE ESQUERDA (1) - ESTALINE E OS JUDEUS

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“Nós destruiremos todos os nossos inimigos, mesmo se eles se encontrarem entre os velhos bolcheviques. Nós destruiremos todos, incluindo as suas famílias. Nós combateremos sem piedade qualquer ameaça, por acção ou por pensamento – sim, por pensamento! -, à unidade do Estado Socialista. Pela destruição total dos nossos inimigos e dos seus cúmplices!”

Estaline, discurso de 7/11/1937 (a que a assistência reagiu com grandes aclamações e aos gritos de “Viva o Grande Estaline!”)

 

“Cada judeu é um inimigo potencial a soldo dos Estados Unidos”

Estaline, discurso de 1/12/1952

 

 

Por via das simplificações adquiridas, alimentadas segundo conveniências, o antisemitismo é identificado com a extrema-direita, na sua componente racial mais radical. O Holocausto funciona como poderoso marco de memória para fazer a ponte associativa entre o nazismo e o antisemitismo. E a propaganda tem-se esforçado, com sucesso, por fixar esta associação de um modo exclusivista.

 

Entre a esquerda, sacode-se a mínima ideia de suspeita de contaminação pelo antisemitismo. Segundo a esquerda, combate-se Israel continuada e permanentemente não por se ser antisemita mas pela agressividade bélica e expansionista de Israel contra os palestinianos e os árabes em geral e pela sua aliança com os Estados Unidos. Assim, o anti-israelismo (da esquerda) seria distinto do antisemitismo (da extrema-direita). Enquanto o primeiro, o anti-israelismo da esquerda, se deve a uma análise objectiva de comportamentos e alianças (presumindo-se que podia transformar-se em apoio a Israel, se este se desmilitarizasse, abraçasse a causa da paz no Médio Oriente, fosse amigo dos seus vizinhos, cortasse o cordão umbilical com o imperialismo americano), o segundo, o antisemitismo da extrema-direita, nasce nos preconceitos raciais.

 

E, no entanto, não podem ser apagadas da tradição histórica da esquerda revolucionária (na sua construção mais efectiva e duradoira, a URSS) as gigantescas manchas de antisemitismo violento. E, na sua parte mais trágica, implicando com a existência do Estado de Israel. Um antisemitismo violento que, numa primeira análise, é um paradoxo se se tiver em conta que, antes da criação do Estado de Israel, muitos foram os judeus que militaram empenhadamente no socialismo revolucionário por todo o mundo, fornecendo diversas figuras de proa ao comunismo mundial, incluindo ao estado maior de Lenine.

 

Estaline sempre foi antisemita. Como muitos dos que ocuparam os lugares na nomenklatura soviética após a liquidação da velha guarda bolchevique. Na linha da tradição, aliás, da judiofobia dos povos eslavos e bálticos, em que a prática sistemática e periódica dos progroms estava entranhada nas práticas de exclusão étnica (particularmente violentos na Rússia, na Ucrânia e na Polónia). Enquanto muitos judeus tiveram papel de relevo no movimento socialista e operário, particularmente nas direcções dos partidos comunistas, o antisemitismo soviético manteve-se no estado larvar. O afastamento e liquidação dos líderes judeus bolcheviques que tinham sido companheiros de Lenine (Trotski, Kamenev e Zinoviev), embora sob acusações de traições que não incluíam explicitamente a da origem judaica, permitiu uma grã-russificação - no sentido de identificação hegemónica-imperial (que abrangia ucranianos, arménios, azeris e georgianos) -  quase completa da elite do Kremlin, onde só destoava Kaganovitch (judeu e da Comissão Política, um burocrata medíocre que não fazia sombra a Estaline) e Molotov que, embora sendo russo “puro”, era casado com uma judia de renome.

 

A partir do momento em que Hitler rompeu a sua aliança com Estaline e invadiu a URSS, em 1941, os sentimentos judaicos de sobrevivência e de resistência ao nazismo fundiram-se com a campanha militar do Exército Vermelho na resistência e contra-ataque perante a máquina militar da Alemanha hitleriana. E os muitos milhares de judeus exterminados nos territórios soviéticos ocupados pelos nazis, visando a liquidação total destes, particularmente violenta na Ucrânia, na Bielorússia e nos países bálticos, mobilizou os judeus soviéticos no apoio a Estaline e ao Exército Vermelho. Como por todo o mundo onde existiam comunidades judaicas (incluindo nos Estados Unidos, em que os judeus americanos foram um importante meio de pressão para o contra-ataque antinazi pela abertura da “segunda frente” a partir do ocidente europeu). E na mobilização da comunidade judaica internacional em apoio das façanhas do Exército Vermelho, teve papel de destaque a criação, por judeus com notoriedade na sociedade soviética (escritores, cientistas, artistas, professores) do “Comité Judaico Antifascista”, o qual tinha o apoio oficial do regime e desenvolveu uma considerável acção propagandista interna e na denúncia internacional dos crimes nazis e na exaltação do apoio ao Exército Vermelho, influenciando e mobilizando a diáspora judaica na ideia, simples e verdadeira, que a alternativa à derrota do nazismo era a eficácia absoluta do Holocausto. A libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho e a revelação ao mundo das atrocidades repugnantes da “solução final” perpetrada pelos nazis contra os judeus, incrementou o efeito comunicacional de que “sem os soviéticos, todos os judeus seriam exterminados”, elevando Estaline ao patamar do supremo salvador dos judeus sobreviventes.

 

O namoro de Estaline com os judeus foi breve, durou enquanto interessou ao ditador, e foi brutalmente interrompido. Os laços dos judeus soviéticos com os judeus americanos, a ideia de construção de uma pátria para o povo judaico, despertou o antisemitismo de Estaline e afigurou-se-lhe como um excelente pretexto para mais uma razia sanguinária na sociedade soviética, com relevo para os quadros comunistas, incluindo os da Comissão Política, a serem decapitados em nova purga. Que melhor capa de encenação para o novo banho de sangue “purificador” (no sentido de expelir todas as sombras ao seu poder absoluto) que acusar os judeus soviéticos de traição e má paga ao salvador dos judeus, o Pai Estaline? A primeira vaga deste vampirismo estalinista virou-se contra o prestigiado “Comité Judaico Antifascista”, depois chegando à “organização da juventude judaica soviética”, não sob a acusação de ser formado por judeus mas estar contaminado por “cosmopolitismo” e infiltrada pelos serviços secretos americanos e britânicos. Foram presos e assassinados. A ideia da construção de uma pátria judaica algures, partilhada por alguns judeus soviéticos, foi o pretexto seguinte para a acusação de “nacionalismo judaico”. Provocatoriamente, Estaline ainda propôs que os judeus se acantonassem numa futura “República Autónoma Judaica do Birobidjan” (integrada na URSS) a situar numa zona inóspita entre a Mongólia e a Sibéria. Com a ideia da criação de Israel no Médio Oriente, Estaline hesitou na sua posição, primeiro acreditando que Israel seria um Estado pró-soviético (o que valeu que a URSS fosse um dos primeiros países a reconhecerem Israel), depois, pela súbita e inesperada aliança israelo-americana, ainda em 1948, Israel passou rapidamente a inimigo de estimação e alvo a abater. O sionismo passou a ser considerada uma peste política da pior espécie. E o antisemitismo visceral de Estaline e dos dirigentes do cume soviético (revolvendo o antijudaísmo ancestral que se mantinha adormecido nas populações dos territórios soviéticos) adquiriu uma nova formulação de disfarce: o antisionismo (palavra chave que não mais saiu, até à actualidade, do léxico dos grandes ódios políticos da esquerda mundial).

Publicado por João Tunes às 18:34
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3 comentários:
De Manuel Correia a 26 de Junho de 2007
A URSS não teve a primazia no reconhecimento de Israel. Já falámos sobre isso.
<http://puxapalavra.blogspot.com/2006_07_01_archive.html>
Abraço
De João Tunes a 26 de Junho de 2007
Agradecendo o contributo, não seja por aí que o rigorismo afunila a discussão. Já procedi a uma redacção mais abrangente (embora mantenha que, na ONU, repito: na ONU, a URSS foi o primeiro Estado a reconhecer Israel) porque não quero entrar num campeonato de teimas.

Abraço.
De Jaques O. Carvalho a 17 de Junho de 2008
Muito bom esse artigo!
Vou até colocar cópias deste lá na minha faculdade!

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j.tunes@sapo.pt


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