Segunda-feira, 25 de Junho de 2007

POLÓNIA NA EUROPA

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Vindos dos púlpitos dos euro-cócoras, ouviram-se coisas repugnantes, por tresandar a xenofobia eslavófoba anti-polaca, sobre a forma dura como os orgãos de soberania polaca negociaram os últimos acordos europeus, fazendo valer o peso da sua dimensão de média potência europeia e que terminou num acordo político suado com os viciados no hábito de determinarem, por si sós, em passadas de rinoceronte, as decisões da União Europeia.

 

Como era previsível, entre os países conversos do Leste integrados na UE, o “caso polaco” acabaria por desencadear, mais tarde ou mais cedo, fortes repulsas fóbicas. Pela sua dimensão e história, porque na Polónia se concentram “culpas europeias” graúdas, porque os rearranjos das suas fronteiras foram cozinhadas sem e contra os polacos, porque, por muito que se massacre a Polónia, o “orgulho polaco” encontra sempre formas de renascer. A direita não gosta da Polónia porque ela lembra que foi lá que o Holocausto se fez indústria da morte. A esquerda não gosta da Polónia porque ela lembra que foi lá, em 1921, que o Exército Vermelho, cavalgando a mando de Lenine para alastrar a revolução mundial, levou no coco e debandou para penates e nos anos 80 espetou a espinha do “Solidariedade” na garganta de Brejnev e sucessores. A direita e a esquerda não gostam da Polónia porque ela lembra como, em 1939, mercê do miserável pacto Hitler-Estaline (conhecido como Molotov-Ribbentrop), a Alemanha e a URSS dividiram o país entre si, incorporando-a nos seus impérios. Os eslavos ortodoxos não gostam da Polónia porque ela é um bastião do catolicismo. Os fundamentalistas islâmicos não esquecem que foi da Polónia que veio o penúltimo Papa. Os velhos democratas europeus não admitem à Polónia que ela não se comporte como um membro subalterno, venerando e obrigado, na União Europeia. Muitos europeus ricos e remediados detestam os imigrantes polacos que enxameiam a procura de trabalho na Europa rica e remediada. Os herdeiros espirituais do KGB não perdoam que na Polónia, caso único entre os países ex-comunistas, se levem a sério os ficheiros dos agentes e informadores da polícia polaca que serviu a repressão comunista. Os russófilos pós-soviéticos não perdoam ao governo polaco que, como país membro da NATO, integre o sistema anti-misseis. Os anormais da laracha fácil não evitam o riso perante o exotismo de, na chefia do governo e na Presidência da República da Polónia, estarem dois irmãos gémeos. Estas e muitas outras são razões amontoadas para que muitos europeus, e proto-europeus, tenham fortes preconceitos sobre a Polónia e os polacos. A maioria destes, os da xenofobia anti-polaca, são os mesmo que se mostram impacientes pela entrada da Turquia na UE, esses sim - os turcos - verdadeiros europeus e dos sete costados.

 

E, no entanto, por muito que se queira humilhar a Polónia, a Polónia não verga, negoceia duro, não agacha, depois assina quando o acordo é feito em regime de tratamento entre iguais, abrindo-se então, só então, ao consenso. Consenso este que só pode ser entendido como afirmação da soberania polaca no quadro da cidadania europeia. Se os euro-cócoras não gostam, paciência. Eu, europeu, não esqueço que também sou polaco.

Publicado por João Tunes às 00:56
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