Segunda-feira, 18 de Junho de 2007

CRUELDADE COM CRUELDADE SE PAGA (2)

001hp37r

 

Conversando, o Manuel Correia fez um inteligente render de guarda entre perguntas. Desta: “Que papel assumirá o PS agora?” passou, com deslocação em pantufas, para esta outra: Não haverá mesmo socialistas preocupados com o rumo que as coisas estão a tomar?”. E entre um e outro questionar vai a distância de um jogging do nosso Primeiro.

 

A primeira (sobre o PS) metia instituições, organismos, nomenklaturas, congressos, secretariados, comissões políticas, comissões de controlo de quadros, mecenas, mordomias, militantes com quotas pagas e outros com quotas por pagar, filhos e enteados, internacionais a telefonarem, tudo ao barulho. Sentadinhos em mesas de reuniões, com assessores e seguranças, estenógrafas armadas de PC portátil, actas escritas mais as não transcritas, além dos protocolos secretos. O Manuel Correia sabe, eu sei, todos sabemos, que, por esta via sacra, nunca (jamais!, como diria o nosso comum amigo Mário Lino) o PS se vai entender à esquerda, sendo de esquerda. E cada vez menos vai para aí virar-se. Da mesma forma que as forças organizadas "à esquerda" do PS. O mesmíssimo nojo do PS de olhar à esquerda é partilhado por essa esquerda de olhar para a variante social-democrata como sendo parte da esquerda (a ala da esquerda desmaiada, mas ainda esquerda), fixada que está na etapa (vinda do kominternismo esquerdista e pré-Dimitrof) da “classe contra classe” e que quando fala de "política de esquerda" sabe que está a colocar no tabuleiro uma praxis que colide com princípios basilares do PS. E não me julgo como atrevido dizendo que estes nojos repulsivos são réplicas simétricas, prolongadas por egoísmos parasitários, da velha querela abrilista entre vias eleitoral e revolucionária para nos resolver, resolvendo-nos. E, em termos orgânicos, conservando uma tradição partidocrata inalterável pela fixação das influências sócio-políticas (agravadas pelo definhamento da democracia participativa), tanto tendo mudado os tempos e os modos, é o mesmíssimo do aceite pela Junta de Salvação Nacional das noites sem sono do ano longínquo (mas tão perto) de 1974. Portanto, nada ou pouco a fazer. E se o Manuel Correia concorda comigo e perguntou “Que papel assumirá o PS agora?”, então perguntou por perguntar ou apenas quis concentrar responsabilidades no PS e dar um capote molhado à restante esquerda para esta sacudir a sua (muita) água, poupando-a à necessidade de se expor à chuva.

 

A modalidade interrogativa substituta adoptada pelo Manuel Correia (Não haverá mesmo socialistas preocupados com o rumo que as coisas estão a tomar?”) é feita de outra loiça. Direi mesmo que de porcelana fina, mais valiosa mas mais frágil. Embora a insatisfação inorgânica seja difícil de medir, excepto quando há dissidências (as quais estão fora de moda), é evidente que há muitos socialistas descontentes, outros apenas desconsolados, uns tantos rendidos ao fatalismo do tem que ser assim, outros saltando quando Alegre e Roseta descompõem o pai e fogem de casa até voltarem quando a última mesada política se esgota. Julgo até que a maioria dos socialistas, excepto os que comem e os que querem comer à mesa do clientelismo, gostariam de uma outra governação (mais à esquerda, pois claro). Num partido como o PS, em que a militância é volátil e intermitente, a disciplina partidária é frágil (defeito que é a sua qualidade maior), as distâncias entre o militante, o simpatizante e o eleitor são ténues, a ideologia substancial com aparência de domínio é escolhida pela ementa do dia, onde as personalidades são assumidamente as bússulas orientadoras não quanto a norte e sul mas quanto a ventos e marés, onde não se distinguem as pequenas e as grandes rebeldias, efectivas ou potenciais, na enorme calda do seu conformismo endógeno que torna o PS num eterno namorado disponível para o flirt com o centro e o centro-direita. Mas parecendo um paradoxo, num partido tão algemado na inconsequência e na castração da clarificação, os bem soldados valores do apego á democracia e à liberdade, sobrepondo o efeito do voto sobre a afirmação do esclarecimento autoritário de vanguardas iluminadas, mais o hábito entranhado de conviver com a pluralidade e a alternância, pesem embora os tiques autoritários dos clientes zelosos e carreiristas que pululam no rebanho do poder, tornam a massa crítica de mudança no PS uma constante. Inclusive, para virar à esquerda. Com a mesma facilidade com que se aninha ao centro, é certo, mas disponível para virar, mudar, inflectindo por ciclos, em que, por genética da matriz, a esquerda é sempre uma possibilidade e uma oportunidade.

 

Naturalmente, por sabedoria acumulada de gato escaldado, a massa crítica de socialistas disponível para rumar à esquerda está prevenida para servir de celeiro de “companheiros de jornada”, funcionando a vacina de um trauma vindo da luta antifascista em que esta era feita por “comunistas e outros democratas” e que se procurou transportar como cimento de hegemonia para o domínio do poder revolucionário. Os caminhos terão de ser outros. Como também é evidente que ninguém abraça um amigo, companheiro ou comparsa, abraçando o vácuo. Diz-me tu, caro amigo Manuel Correia, se permites que um socialista directamente interessado na epopeia da esquerda te lance este inocente repto, “que companhias e caminhos propões aos «socialistas preocupados com o rumo que as coisas estão a tomar»”? Escuto. Interessado. Muito interessado.

Publicado por João Tunes às 23:29
Link do post | Comentar
2 comentários:
De Manuel Correia a 19 de Junho de 2007
João,
andamos desencontrados. Escrevi um poste há pouco, antes de ter lido este teu mais recente.
Gosto da 2ª parte do teu e, pasme-se!, acho que não perdeste muito em não teres lido previamente o meu.
Bom. Como deves ter reparado, espanto-me sempre um pouco quando as coisas vão mal e ninguém ousa mostrar discordância.
A questão que agora colocas, porventura mais interessante e mais prática do que a minha 1ª e 2ª interpelações, remete para um outro exercício.
De certo modo, fiquei entalado.
Enquanto reflicto, deixo-te uma outra questão correlacionada: como atrair, influenciar e fixar gentes da esquerda com estas políticas? As alianças, se as houver, para alguma coisa hão-de servir.
De João Tunes a 19 de Junho de 2007
Caro Manuel, fico à espera da tua reflexão. Enquanto aguardo e pensando no desafio que aqui deixaste, digo-te que é bom que estudemos o "caso alemão" com suas últimas novidades (a fusão na banda esquerda). Talvez por cá, depois do tempo de fermentação, após um qualquer drama, a coisa vá.

Comentar post

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO