Segunda-feira, 17 de Abril de 2006

AINDA SOBRE AS VELAS NO ROSSIO

A ideia do Nuno Guerreiro de se comemorar em celebração pública a matança de judeus de 1506 e que aqui comentámos, acabou por ter eco e alvoroço sobretudo quando o Lutz resolveu lançar de uma assentada, e a propósito, um package de seminário, work-shop, debate e mesa-redonda. Foi tamanho o reboliço que o assunto saltou para a comunicação social escrita (por exemplo, no Público de sábado e no DN de domingo). Só por isso, mesmo que agarrados a uns tantos preconceitos despidos em praça pública, a “vergonha”, uma das maiores vergonhas da nossa história, acabando por ser lembrada e menos coberta pelo pó do esquecimento, valeu a pena a ideia do Nuno e a acção de “agit-prop” em que o Lutz se revelou, confirmando esse talento, mestre inspirado. Verificando-se que enquanto o anti-semitismo continuar entranhado, como se demonstrou em vários comentários no post do Lutz, a “vergonha” resiste e persiste. E, por mim, as velas até já nem acrescentam muito mais. Ou serão, vá lá, reduzindo-se sobretudo a um exercício de remate ritualista e de duvidoso alcance de aproveitamento político-religioso. Embora admita que, sem essa “dramatização” (a das “velinhas”), a efeméride tivesse passado praticamente despercebida, ficando, pelo menos, com o crédito desse mérito.

Diz agora o Lutz:

“há um (…) problema que agrava a resistência à homenagem: Que uns se sintam convocados pelos representantes das vítimas para participar nela como representantes dos assassinos.”

”Para que os descendentes das vítimas e os descendentes dos assassinos consigam lembrar conjuntamente os mortos de 1506, é preciso construir um “nós” que abrange todos da mesma forma, e em que cada participante se assume tanto como representante dos perpetradores como das vitimas.”

Concordo com ele neste ponto. Tanto que a formulação do apelo-desafio do Nuno Guerreiro suscitou algum “lavar de mãos” (o meu caso, por exemplo). E a gravidade do crime lembrado não o merecerá. Mas, nisso, os “patrocinadores” terão tido alguma responsabilidade – ao deslocarem-no de crime histórico de uma intolerância, uma monstruosa intolerância, para uma afirmação de vitimização de uma fé religiosa perante outra, num contexto de exclusivismo de domínio religioso. E esta “apropriação”, evidentemente só podendo ser destinada a exaltação no presente, sabendo como sabemos dos excessos, abusos e crimes (claro que falo dos cometidos contra os palestinianos) que o hábito e vício de vitimização judaica tem conduzido. Um crime não absolve outros crimes, é certo, mas suponha-se que alguém da comunidade palestiniana decidia apelar a que, no exacto momento da cerimónia das velas no Rossio, se acendessem velas (ou se fizessem montinhos de pedras, homenageando a intifada) frente à sinagoga de Lisboa em lembrança dos crimes israelitas (e aí, de certo, teriam de ser bem mais que quatro mil velas ou quatro mil pedras) e que seria um rotundo disparate. Ou, para estragar ainda mais a festa, mais uns bons milhares de velas na Mouraria em lembrança dos muitos mouros chacinados na conquista cristã da Península?

Ao fim e ao cabo, o reduccionismo vítimo-religioso da iniciativa, acabou por afunilar o poder exemplar da efeméride. Não lhe beliscando - porque história é história - a importância da sua lembrança e do equivalente repúdio. E, assim, só podemos estar todos agradecidos ao Nuno e ao Lutz. Por mim, com velas à parte.

Publicado por João Tunes às 11:52
Link do post | Comentar
5 comentários:
De Evaristo Ferreira a 17 de Abril de 2006
Ora aqui está um post luminoso de lucidez. No caso dos palestinianos, diria eu que não deve ser esquecido o massacre de Chatila, no Liabno, da responsabilidade de Ariel Sharon... Mas até parece que Deus existe: o frágil homem está a pagar, e mostra-nos, com isso,, que somos nós quem determina o nosso destino final...
De pepe a 17 de Abril de 2006
Não tenho acompanhado a polémica, só pelas leituras de alguns blogs e, naturalmente, a rua da Judiaria. Mas não fiquei com a ideia do "reducionismo vitimo-religioso". seja como for, concordo consigo que a iniciativa vale pela "sua lembrança e do equivalente repúdio". Até porque uma das virtudes das efemérides é fazer a leitura do presente à luz dos ensinamentos do passado, principalmente numa época em que o discurso do ódio perdeu as vergonhas que durante algumas décadas parecia o inibir.
E por ter falado nos mouros, fez-me recordar as passagens no D.Quixote referentes a mouriscos, onde Cervantes, apesar de justificar a medida de expulsão, retrata com humanidade o sofrimento daqueles que eram obrigados a abandonar a sua Andaluzia natal.
Um abraço.
De João Tunes a 17 de Abril de 2006
Caro Pepe,

Se a iniciativa o motivou, sei que sim pelo seu blogue e por este comentário, aconselho-o a dar uma vista de olhos aos comentários nos posts do Lutz, encontrará lá muito, de tudo ou quase tudo. No meu modesto entender, a iniciativa pecou, circunstancialmente, pelo facto de ter sido proposta por quem se assume como representante, ou descendente, das “vítimas”, diminuindo-a na dimensão de juízo histórico partilhado (do “nós” de que falou o Lutz). Sabemos todos, e como isso nos dói como membros da humanidade, o que os judeus sofreram de perseguição, ódio, mal querença, rejeição, desejo de morte e genocídio. Foi muito, foi demais. Para mais, porque é miserável o pretexto recorrente para odiar e perseguir os judeus – a vingança do pretenso deicídio. E, no meu entender, o pior mal que se fez aos judeus foi a sua transformação em bodes expiatórios, em vítimas, com a conexa interiorização cultural, pelos próprios, deste sentimento. E a persistência das perseguições aos judeus acabou por gerar, em parte importante destes, uma reacção de ressentimento redentor – levando-os a imporem-se pela violência, como se o tanto que sofreram atenuasse a ignomínia do que, quando dominadores (Israel), fizeram e fazem sofrer, implantando um Estado com espírito de Gueto e prática étnico-teocrática de domínio e de frieza liquidacionista de outros direitos de outros a estarem e a viverem. E a longa prática da violência anti-judaica (antisemita), ainda não irradicada, funciona como álibi para a crueldade violenta do estado de Israel, o que é uma tragédia e uma cornucópia infinitamente “justificada”. Resumindo, eu acuso o antisemitismo dos muitos crimes que cometeu, principalmente o de dar abrigo ao alimento e prolongamento da vitimização judaica - pretexto e desculpa de absolvição à violência israelita. Em consciência, recuso-me a acender velas que alimentem esta vitimização, mãe de outros crimes de vítimas contra outras vítimas. Terei sido mais claro?
De Anónimo a 17 de Abril de 2006
Não compreendo onde poderá residir a vitimização de uma fé religiosa perante outra, como diz. Será porque o autor da iniciativa é judeu praticante?
Do que se trata, segundo me apercebo, é de relembrar uma data trágica e vergonhosa, para nós, portugueses, prestando homenagem às vítimas (ou não houve vítimas e carrascos?) e, assim, manter viva a memória de tais actos, para que seja mais difícil a sua repetição (de que não estamos livres).
Que comparação poderá haver entre o massacre de portugueses judeus por portugueses cristãos, com os crimes de judeus contra muçulmanos (e de muçulmanos contra judeus, ou só há terroristas num dos lados?) na Palestina?
O anti-semitismo tem de facto muitas formas, umas mais rudes e outras mais subtis, que acabam por se revelar na dificuldade de encararmos a História, ainda que sob o pretexto de não gostarmos do cheiro das velas.
Eu vou ao Rossio. Não levo velas. Levo a lembrança, para reforçar a memória. Não sou judeu, apenas português; não represento mais ninguém, apenas a mim próprio. Ir ou não ir é um acto de liberdade. Mas ir é, além disso, um acto de justiça.
macsilva.

De Fokas a 18 de Abril de 2006
Caro João,

Entendo os seus argumentos... mas existe alguma observação independente do observado? Claro que o Nuno é português e judeu e escreve como tal. E o Lutz é super inteligente e alemão! Voilá!
Acho que só devo agradeçer aos três pelo que tem ensinado. Recusar o Esquecimento, mas também a culpa colectiva...
Aquele abraço

Comentar post

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO