Domingo, 10 de Junho de 2007

HERANÇA DO KOMINTERN

001gfsy1

 

Conversando há dias com o Rui Bebiano sobre um seu post sobre Ryszard Kapuscinski (famoso jornalista-escritor polaco, recentemente falecido) veio à baila a questão sombria da duplicidade recentemente revelada de Kapuscinki que, a par da sua famosa, longa e prolixa actividade de repórter, acumulava a qualidade de agente dos serviços de informação polacos (filial do KGB).

 

Para um admirador da obra de Kapuscinski, casos de Rui Bebiano e meu, não deixa de ser perturbador que, enquanto observador de realidades cruciais no mundo, obtendo acessos e cumplicidades como jornalista de referência, o jornalista-escritor polaco tivesse desempenhado um “papel duplo” de agente da espionagem polaco-soviética. E, pela minha parte, sublinhei: “Obviamente que o contrato de informador policial era condição necessária para que o regime polaco o autorizasse a viajar pelo mundo, transformando-o em caso invulgar de jornalista cosmopolita no “campo socialista”. Mas a aceitação da ignomínia por Kapuscinki comprova a natureza perversa do regime (e de um sistema) capaz de transformar qualquer talento (nos medíocres, não admira) num ser transportando uma duplicidade policial. Não deixando de arrepiar, a mim arrepia-me, que o olhar de Kapuscinki que servia o seu admirável talento de observação passada a escrito beneficiava da acumulação dos talentos de um jornalista e um polícia.”. A propósito, o Rui Bebiano lembrou o “caso Günter Grass” (aludindo às muitas décadas em que este escritor alemão, alçado a referência moral do pós-nazismo, escondeu o seu passado de SS quando era muito jovem). O paralelo é oportuno mas tem uma disparidade: Grass demorou demais mas confessou, Kapuscinki pensou levar para o túmulo o seu "segredo pessoal", confiando que os arquivos nunca falariam.

 

Passados dias sobre esta nossa conversa, o “caso Kapuscinski” volta-me à ideia. Não porque esteja na berra. Exactamente pelo contrário, pelo silêncio indiferente que mereceu e merece de quase todos. Um silêncio que contrasta com a enorme polémica e paixões à solta no rescaldo da revelação dos pecadilhos juvenis-nazistóides de Günter Grass. Interrogando(-me)(-nos) porque razão perdura esta disparidade de julgamentos. Que continua a beneficiar, sempre, o “mal vermelho” relativamente ao “mal castanho”, ou aos “agentes da CIA”. Porque, neste caso, na denúncia das infiltrações da KGB e suas filiais, provas das naturezas essencialmente policiais dos “regimes socialistas”, há uma ausência de manifestação de indignação, quando não piscadelas de complacência. E imagine-se o sururu que haveria por Portugal fora se descobrissem que um qualquer celebrado escritor português tinha sido, comprovadamente, bufo da PIDE. Falando-se até de “caça às bruxas” na Polónia (a governada pelos "gémeos de extrema-direita", procurando-se, assim, diminuir o valor da soberania polaca através do refrão induzido do “fascismo nunca mais”) pelo levantamento impiedoso das colaborações de polacos com a polícia política durante o regime comunista. Resta-me, pois, tirar o chapéu perante o talento dos efeitos duradoiros da propaganda do Komintern na divisão internacional entre “bons” e “maus”.

Publicado por João Tunes às 00:07
Link do post | Comentar
7 comentários:
De Rui P. Bebiano a 10 de Junho de 2007
Caro João

Poderá talvez argumentar que não existem bons completamente bons nem maus completamente maus. Mas ao criticar a dualidade de critérios acaba também por enfermar da mesma.

Ainda que sem disso se aperceber, emprega vocábulos como "ignomínia" para descrever o comportamento de Kapuscinki enquanto que para Grass reserva termos claramente desculpabilizantes como "pecadilhos".

Também não deixa de ser preocupante que se minimize a "caça à bruxas" e se afirme a mesma como um imperativo patriótico polaco, quando comparado com a classificação de "sururu" dada a um eventual "levantar de pedra" sobre uma colaboração com a polícia politica do Estado Novo.

O João interroga(-se)(-nos) e eu tomo a liberdade de (tentar) responder(-lhe). Obviamente tendemos a dar maior relevo àquilo que nos seja mais próximo e que de uma forma directa ou indirecta tenhamos sentida na pele. Assim, as perseguições que hoje se verificam nos antigos países socialistas contra antigos e actuais comunistas, terão raízes no "mal vermelho". Noutros lados, como por exemplo na Europa do Sul, onde (ainda) é recente a memória de regimes fascistas, é perfeitamente natural que se valore mais o "mal castanho". Independendo de juízos de valor é isso que faz sentido

Infrlizmente, em Portugal, muitos acham que essa coisa de ter sido da PIDE são coisas de passado que não justificam sequer uma inquietação, quanto mais um "sururu".
De João Tunes a 10 de Junho de 2007
Assumo uma certa "dualidade de prioridades" nas minhas posições (que não passa, nem pouco, por apagar a frente do combate à essência e permanência do "mal castanho" e da sua componente salazarenta). Porquê? Porque a mediatização do "mal castanho", além da notável eficácia com que os judeus souberam evidenciar e revoltar o crime do Holocausto, tudo envolto no embrulho do antifascismo, magistralmente mitificado, permitiu esse passe de mágica de esconder o "mal vermelho" e até inseri-lo, como custo, no combate ao "mal castanho" [anacronismo maior: Stalin assassinou mais comunistas que Hitler!] Outra herança do Komintern tardio é a persistência da diabolização americana e de Israel, de que a russofilia pós-soviética é caricatura maior. E um anti-capitalismo anti-imperialista serôdio que continua a suscitar suspiros românticos em benefício de Fidel e Chavez. E, penso eu, os maiores mitos e aberrações das mentiras e silêncios históricos, os difusos, os escondidos na duplicidade democrática/revolucionária, merecem prioridade no combate. Discutível? Claro. Mas eu, aqui, atendo à minha "agenda". "Bengale" vc com a bengala de seu gosto.

Penúltima nota para a do "pecadilho" de Grass. Claro que foi isso mesmo (como a do Bento XVI). Tem comparação uma incorporação militar com 17 anos num país mobilizado e fanatizado na guerra com a gestão adulta, e sempre escondida, de informador policial com um sistema totalitário coberta pela figura de grande repórter?

Finalmente, a Europa do Sul, incluindo Portugal, esteve (e está) assim tão longe do "mal vermelho"? Ou (ainda) não reconhece que a felicidade democrática maior dos portugueses foi livrarem-se do salazarismo-marcelismo e, à beira do abismo, evitarem a queda numa ditadura mil vezes mais terrível, a ditadura comunista, em que a PIDE seria recordada como um rancho de meninos do coro? Vc tem uma capacidade enorme de vender ingenuidades. E eu não tenho meios, nem eles me interessam, de verificar ou confirmar a sua sinceridade. Mas acredito na sua alma bem formada, sinceramente acredito. Por isso o saúdo e agradeço os contributos. Até à próxima.
De Rui P. Bebiano a 11 de Junho de 2007
É que eu não desato a diabolizar tudo quanto cheira a "vermelho" - ou "castanho", ou "verde"- só pela cor. Você defende, e lá terá as sua razões, que o "vermelho" é pior que o "preto" ( ou, já agora, o "branco"). Isso para mim, e chame-lhe ingenuidade se quiser, não é de forma alguma evidente. É que me incomoda quando nós, "à esquerda", desatamos a querer ser (parecer) mais honestos do que uma virgem.

Eu assuma a herança de todas as patifarias que a "esquerda" fez em nome da liberdade e da justiça. Mas não admito que me venham dizer que foram piores que as malfeitorias feitas do outro lado da barricada. Porque não foram!
De João Tunes a 13 de Junho de 2007
Duas notinhas: 1) Não acredito em virgens honestas, acho é que elas se tornam mais humanas depois, após se libertarem de uma peça anatómica que ainda não houve ser que explicasse a sua serventia que não fosse a alegria simbólica de a largar (mutatis, é o que sempre tem feito o comunismo com a "liberdade" e a "justiça"); 2) Vc tem uma data de blogues seus para se entreter, será neles que vc dirá "não admito", aqui acabei de lho permitir uma vez sem exemplo, porque não se entra em casa alheia e desata-se a mudar a mobília.
De Rui P. Bebiano a 14 de Junho de 2007
Touché! Tenho que admitir que tem razão. Fica de lição para a próxima...
De Paulo Santiago a 10 de Junho de 2007
Não esquecer o autor de"Cem Anos de Solidão"e a
Ingrid que continua prisioneira
Abraço
De Rui Bebiano a 11 de Junho de 2007
Completamente de acordo. Tenho também, quase sempre com limitado feedback, chamado a atenção para essa parcialidade, que, no fundo, revela o fundo de intolerância que, como um vírus, o leninismo introduziu na tradição da esquerda. Ainda há anos, quando saiu o Livro Negro do Comunismo, observei como muita gente - incluindo nela historiadores e adeptos de uma tal de "esquerda de confiança" - se escandalizaram e, sem sequer procederem a uma leitura crítica, trataram de tentar descredibilizar a obra e de negar o inegável.

Comentar post

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO