Sexta-feira, 8 de Junho de 2007

UMA MARGARIDA Á PROCURA DE KAFKA?

001g8xsd

 

Não conheço o professor Charrua. Nada sei que abone ou desabone sobre as virtudes democráticas do professor Charrua. Nomeadamente, nada me consta do que ele fez pela instauração e aprofundamento da liberdade de expressão. E do modo como ele encararia a liberdade de expressão se fosse ele o alvo em vez de ser emissor. No limite, o professor Charrua até poderá ser um típico português daqueles que, em vez da intervenção transformadora e frontal, rosnam anedotas, ditos, reditos e desopilanços num género de intervenção política saída dos sovacos ou dos sapatos.

 

Mas conheço muito bem a Margarida, a da chefia da DREN. A agora reconduzida chefa da DREN. Como o bufo, ou bufos, que informaram a Margarida da DREN sobre os hipotéticos desaforos do professor Charrua. Oh, se conheço. Não esta Margarida nem estes bufos, em particular. Mas por ter conhecido outras margaridas e outros bufos da mesma igualha. E de muitos outros ter tido conhecimento. Espalhados como piolhos de indignidade neste mundo por aí além. Com muitos a dormirem no ovo à espera da oportunidade.

 

Enquanto residuais, o professor Charrua, a Margarida e os bufos não questionam o apego histórico do PS à liberdade de expressão. Mas muito podre começa por uma pequena nódoa. E esta não é pequena, é uma grande nódoa. A nódoa da arrogância autista de Sócrates em preferir sustentar, num poleiro médio de poder, Margarida e os seus bufos, em vez de usar a oportunidade de dar uma lição de autoridade democrática, enxotando bufarias infiltradas no clientelismo do PS. Demonstrando que, para o governo e o PS, a liberdade de expressão, mesmo se usada de forma rasca, vale mais, muito mais, que todos os enxames de bufos.

 

Nada compara o que hoje vivemos por aqui e o que se passou na Checoslováquia “normalizada” após os tanques do Pacto de Varsóvia, em 1968, terem substituído a liberdade de checos e eslovacos. A menos que se projectasse o país para o património político da componente dominante (e eleita) da Fenprof e se tivesse o pesadelo que uma margarida rosa era sustituída por mil margaridas de vermelho vivo, mobilizadas e enquadradas por Mário Nogueira, com o professorado a ensinar a classe operária nas artes de acender velas no altar do poder. Mas, como assim, em limite de paralelo extremo, talvez não seja demasiado caricatural lembrar uma célebre ordem de serviço emitida em 16 de Setembro de 1969, em Praga, pelo Ministério de Educação:

 

A todos os Reitores das Escolas Superiores Checas,

A todos os Directores das Faculdades,

 

Notifico-vos a apresentarem de hoje até 12 de Outubro de 1969, o mais tardar, um relatório escrito, incluindo um resumo e uma avaliação das opiniões, declarações e actos de injustiça, sobretudo de orientação oportunista de direita, anti-socialista e anti-soviética, manifestados durante os anos de 1968 e 1969 em órgãos de escola e das faculdades, em declarações públicas dos diversos ensinos, em órgãos do movimento dos estudantes e declarações públicas dos diversos estudantes. O relatório deve incluir nomeadamente as seguintes informações:

 

1)  Participação de funcionários académicos e do conselho científico da escola, eventualmente da faculdade, em diversos actos de pressão, em resolução e declarações, em manifestações de solidariedade com as acções dos estudantes, etc. Juntem os textos e datas destas declarações, informando também se estas resoluções injustas foram anuladas e se estariam dispostos a propor a sua anulação e em que data. Caso os funcionários tenham participado pessoalmente nestas acções, peçam a cada um deles uma avaliação pessoal escrita das suas actividades respeitantes à política actual do PCC [Partido Comunista da Checoslováquia], à Frente Nacional, ao governo federal e nacional. E juntem esta avaliação pessoal ao relatório.

 

2) Que professores e docentes da vossa escola, eventualmente da vossa faculdade, se manifestaram na imprensa, pelas suas intervenções públicas, pelas suas actividades no KAN (Clube dos voluntários sem partido) ou nos diversos clubes e organizações, etc., como iniciadores e organizadores de campanhas de assinaturas por coacção: intervenções de oposição dos iniciadores e dos estudantes contra a política do PCC e da Frente Nacional, como participantes em campanhas contra os fiéis partidários do marxismo-leninismo e do internacionalismo proletário, etc.

Mencionem a sua data de nascimento, suas funções e uma breve descrição dos seus actos. Discutam-nos com eles e peçam-lhes uma declaração escrita. Juntem-na ao relatório.

 

3)  Quais os trabalhadores da escola, eventualmente da faculdade, que durante os anos de 1968 e 1969 foram molestados ou sujeitos a descriminação, pelo simples facto de respeitarem de um modo consequente, a atitude do partido, de respeitarem o seu programa internacionalista, não se intimidando pelo terror psíquico das forças anti-socialistas e de direita.

Mencionem a sua data de nascimento, as suas funções, o género de medidas de discriminação (ataques na imprensa, rádio, panfletos, campanhas de assinaturas, isenção de funções, saída da faculdade, suspensão, sequelas de terror à sua saída, etc.).

 

4)  Avaliação do comportamento de todos os membros das correntes das ciências sociais (marxismo-leninismo), mencionando se a pessoa interessada respeitou de maneira consequente a atitude do partido, durante os anos de 1968 e 1969, se respeitou o seu programa internacionalista, se não se deixou abalar pelo ataque de forças anti-socialistas e de direita.

Caso se trate de um trabalhador que tendo dado sinais de incerteza no passado, foi capaz de se libertar dos erros e das faltas do período passado, e hoje em dia está sinceramente convicto da justeza política do partido, estando decidido a aplicá-la, e para ela conquistar estudantes e docentes.

Caso se trate de um partidário e propagador de oportunismo de direita e também do sionismo, de um participante em acções anti-soviéticas e antipartidárias, de um participante em campanhas contra os fiéis partidários do marxismo-leninismo e do internacionalismo proletário, etc., exijam a cada membro da cadeira uma resposta escrita a estas perguntas, uma avaliação por escrito da sua conduta e actividade da cadeira na totalidade. Juntem-nas ao relatório.

 

5)  A lista de todos os funcionários da União dos Estudantes da Boémia e Morávia dissolvida, da assembleia dos estudantes, do Centro Municipal e de outras organizações e clubes de estudantes em 1968 e 1969 na vossa faculdade ou escola superior. Mencionem a sua data de nascimento, o seu domicílio (colégio), faculdade, ano de estudo, resultado dos estudos e uma breve caracterização.

 

Mencionem em separado a lista dos estudantes, que pelas suas declarações aos meios de informação, em reuniões ou em qualquer outra actividade, trabalharam como iniciadores e organizadores de intervenções da oposição contra a política do PCC, da Frente Nacional, dos governos federais e nacionais, que participaram em campanhas contra os fiéis partidários do marxismo-leninismo e do internacionalismo socialista, e que tenham participado em manifestações anti-socialistas e anti-soviéticas, etc. Para além das datas, apresentem uma breve nota sobre a sua actividade pervertida.

Em seguida, refiram que importância a escola, eventualmente a faculdade, desembolsou para contribuir para as despesas das organizações dos estudantes durante os anos de 1968 e na primeira metade de 1969, se e como utilizavam as máquinas de stencil, e eventualmente os centros de edição da escola para a publicação de panfletos, apelos e declarações. Ao mesmo tempo apresentem exemplares destas publicações.

Espero que os vossos relatórios e avaliações sejam precisos e completos, baseados em princípios justos e elaborados segundo critérios irrepreensíveis. Os vossos relatórios podem contribuir consideravelmente para uma análise correcta da situação nas escolas superiores, para a melhoria do trabalho político educacional e aceleração do processo de consolidação.

O reitor da escola deverá juntar a sua apreciação, eventualmente diferente, e os seus complementos aos relatórios dos directores. Informem-se também dos trabalhadores que tenham recusado juntar a sua declaração escrita pessoal. Aconselho a discussão das exposições e avaliações com os respectivos órgãos do PCC.

Chamo a atenção dos funcionários académicos das escolas e das faculdades para o facto de que o Ministério de Educação Nacional efectuará simultaneamente uma análise detalhada da situação nas diferentes escolas superiores, com a documentação que tem ao seu dispor. As conclusões serão comparadas com a vossa exposição e avaliação e as eventuais contradições julgadas e discutidas convosco.

 

Assina: Professor Jaromir Hrbek (Ministério da Educação, Praga, Checoslováquia, 1969)

 

[divulgada por “Lettres Françaises” (Paris), Outubro de 1969 / fonte: Catarina Mendes, representante do PCP junto do PCC e da Revista Internacional, 1965/1975]  

Publicado por João Tunes às 16:54
Link do post | Comentar

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO