Sexta-feira, 8 de Junho de 2007

COIMBRICE

001g7c56

 

Como foi contada com dedicatória de suspeita infundada de careta, só posso contrariar a aleivosa suspeita do M.C.R. de que não tenho forma de me libertar do ónus de um confessado (e ultrapassado) preconceito, transcrevendo este delicioso escarafuncho de memória de uma “velha Coimbra” a merecer entrada directa numa antologia dedicada à vetusta (e nem sempre composta) cidade:

 

 

A coisa conta-se em três palavras: cenário finais de cinquenta, princípios de 60, largo dos Arcos do Jardim. Meio da tarde. Duas animosas equipas de estudantes vagamente universitários disputam uma renhida partida de futebol naquele largo que raros carros, um eléctrico – o 1 Universidade – e um trolley, o 5, atravessam. Dois polícias de giro, pouco dados ao desporto universitário, interrompem a partida e dão voz de prisão à bola. Protestos dos mancebos. Voz de prisão aos mesmos.
2º acto: forma-se um cortejo composto de dois polícias devidamente fardados, uma bola, e dez rapazolas vestidos de calça preta, camisa branca ou quase, gravata preta desapertada. Uns trazem o colete da capa e batina mas a maioria veste sobre a camisa um casaco de pijama. Naquele tempo era assim, não tenho culpa.
Para evitar escândalo, a autoridade resolve tomar a rua que fica entre a pensão
Antunes e a republica Ay-ó-Linda. Mau começo porque destes dois locais sai mais uma dúzia de estúrdios que, solidariamente se consideram presos. No fim da rua, já também se aprestavam os do Ninho dos Matulões, a malta da Julinha, com o João Amaral à frente, enquanto se ouvia vindos do ACM os gritos do Chico Brito
e mais irmãos que juravam que também estavam no jogo de futebol e por isso exigiam que lhes fosse dada voz de prisão.
A coluna obliquou para a praça da República para tomar a Avenida Sá da Bandeira. Péssima ideia porque do
Mandarim, do Tropical, do Fontes e do Moçambique (capital de Angola, Fontes dixit)
acorriam dezenas de fregueses que sem cuidar de pagar a conta ou guardar as sebentas entendiam ser seu direito “ir dentro”.
Nesta altura, a confusão é grande, há mais dois polícias e um bombeiro nas fileiras da repressão à juventude e de todos os lados, desde a Alta até aos arredores do Liceu acorrem rapazes que não sabendo bem o que se passa não querem perder a oportunidade de marchar entre as forças repressivas. Dos
Corsários das Ilhas (Bretão, Germano de Sousa & compinchas vem pedido para se andar mais devagar. Os tipos da Pra-Kis-Tão resolvem vir de táxi, dada a urgência. Os dos Mil-y-onarius e do Palácio da Loucura
, com muitos cabides à volta correm que nem gamos para não perderem o comboio.
Cerca do Avenida são centenas os estudantes que se declaram presos. A polícia entretanto reforça-se com um piquete da guarda republicana enquanto um par de agentes da pide embiocados em gabardinas segue o cortejo e tenta fixar caras. Em frente à Marques, a multidão recebe ordens de parar enquanto as autoridades parlamentam sabe-se o quê. As meninas do lar em frente estão todas à janela, fazem adeus, batem palmas. A Academia (
quando em Coimbra se juntavam mais de trezentos tipos havia sempre um que aproveitava para urrar em tom trágico qualquer coisa sobre a ACADEMIA. Em maiúsculas e voz cava.
)
Antes de avançar velozmente para o 3º e definitivo acto, convém aqui esclarecer que a polícia coimbrã, coitada!, tinha uma banda. E que essa banda, em dia mal inspirado (ou dias que a polícia é assim chata até dizer chega!) percorreu a cidade a horas mortas e durante uns feriados tocando com a afinação que se reconhece aos agentes da autoridade, a “
marcha da Rio Kway”. Quem ouviu nunca mais deixará de lembrar a sanfona policial a atroar as ladeiras da “cidade de lavados ares” com a sua, deles, peculiar e cele(b)
rada versão.
E agora, asinha, asinha, ao terceiro acto. Situação: embaraçosa. Ou sai carga de pau, coisa de criar bicho, com possível retorsão da mocidade estudiosa, ou as coisas resolvem-se sem desprimor para qualquer das partes. Da parte desportista, alguém tem a ideia grandiosa de começar a assobiar a marcha do rio Kway. Quem ouviu jura que era uma versão serbo-croata na voz passiva. Não interessa. Foi assobiada, isso sim, com muito sentimento e igual dose de desafinação. Quem não assobiava dizia
from fom frrom
na parte do estribilho. Palmas das meninas do lar, das vendedeiras do mercado, de vários “futricas” uma vez sem exemplo irmanados na luta contra a repressão. E da parte da “bófia”, quid júris?
Pois da parte da psp, um oficial inteligente, também os há, resolveu mandar apitar qualquer coisa e em voz estentórea, intimou a multidão a dispersar sob, pasme-se, pena de libertação à chanfalhada. Perante o argumento da autoridade, a população estudantil deu meia volta e perdeu-se por cafés e tascos da cidade para beber qualquer coisinha que aquilo de assobiar a marcha do rio qualquer coisa em coro dá cá um
secâo das Antígonas, como diria Esquilo (Jorge Bretão, sic).

 

E obrigado. Muito obrigado.

Publicado por João Tunes às 12:58
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