Sexta-feira, 8 de Junho de 2007

OS GALEGOS

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Como vão longe os tempos em que galegos aos molhos se enfiavam nas tabernas, mercearias, carvoarias e pequenos restaurantes de Lisboa para fugirem à míngua natal (numa "segunda vaga", julgando eu que a primeira foi essencialmente constituída por "aguadeiros" - venda de água pelas casas antes de ela chegar canalizada - e como estivadores e no carregamento de mobílias nas mudanças de casa). Eram sempre discretos, próximo do bisonho, esforçando-se por falar o menos possível para não se notar a fala aportuguesada carregada de “x”. E trabalhavam, trabalhavam, a amealharem para cumprirem o sonho de passarem de empregados a donos dos estabelecimentos. E quando se queria dizer de alguém que era escravo do trabalho, totalmente alienado nele, exclamava-se “trabalha que nem um galego”. Nunca foram nem compreendidos nem muito apreciados entre nós. Apesar da nossa cultura e origens comuns que só um capricho histórico separou metendo-nos o rio Minho como fronteira. Apesar de nos terem emprestado um dos seus capitalistas mais engenhosos e mais ricos (Bullosa), esse espertalhaço no negócio do petróleo que iniciou a fortuna na venda ambulante de petróleo iluminante acartado por uma mula e depois se expandiu nos teres a fornecer combustível às tropas franquistas na guerra civil dos nossos vizinhos. Apesar de terem parido não só Franco como o pai de Fidel Castro. Apesar de Santiago de Compostela. Apesar da “pescada de Vigo” e das mariscadas. Apesar do 7-0 do Celta ao Benfica. Ou por causa disso tudo.

 

Mas os galegos de hoje já não são os antigos galegos. Agora, comparativamente connosco, são assim:

 

o salário médio galego já vai nos 1240 euros, o dobro da Região Norte [de Portugal], que se fica pelos 635 euros. A taxa de desemprego da Galiza desceu para o nível mais baixo dos últimos 25 anos, enquanto no Norte [de Portugal] continua a subir e a bater recordes pela negativa.

 

Hoje, muito portugueses pobres e sem qualificação demandam ocupação e euros na Galiza, oferecendo-se para "trabalhar como um português". E um dia destes ainda nos vamos encontrar, reduzindo as águas do Minho a um rio de cultura interior. Sobretudo agora, em que era bom sermos galegos. Se eles não nos retribuirem em ressentimento as tantas décadas em que os menosprezámos.

Publicado por João Tunes às 12:34
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