Segunda-feira, 4 de Junho de 2007

VOLTARAM AO NEO-REALISMO DAS SOCIEDADES RECREATIVAS

001fk0wh

 

O PCP, na resistência ao fascismo e na fase imediata após o 25 de Abril, exerceu um enorme fascínio nos intelectuais portugueses. Alturas houve, e não foram poucas, que em todos os domínios das artes e das letras, eram inúmeros os intelectuais comunistas. O fenómeno da atracção dos intelectuais europeus (e, numa certa fase, da intelectualidade americana) pelo comunismo está exaustivamente tratado, sobretudo em França (país democrático, a par da Itália, em que este fascínio foi mais intenso e até dominante). A estes períodos de “ilusão”, sucedeu o do chamado “fim da ilusão”. E, hoje, sabendo-se o que foram as monstruosidades dos regimes comunistas, a sua intrínseca desumanidade perversa em que os melhores sonhos da humanidade serviram de fonte de energia e propaganda de disfarce a sistemas policiais, com a escolástica a substituir a dialéctica, numa constante manipulação do labor intelectual e artístico ao serviço dos interesses tácticos de cliques partidárias auto-intituladas de vanguardas operárias mas, no fundo, sedentas de poder bárbaro, por toda a parte ocorreu um desmoronar dessa ligação contra-natura entre criadores e estetas e o maquiavelismo das máquinas comunistas. Hoje, entre os criadores de relevo merecedores desse nome, são raros os exemplos dos intelectuais que persistem na militância comunista. Incluindo em Portugal, onde a maioria da intelectualidade virou costas, com estrondo ou silenciosamente, à direcção do PCP que, entretanto, regrediu para o primarismo do populismo recuperado das catacumbas do anarco-sindicalismo, sem sequer lhe restar uma pincelada viva do saber marxista que, enfim, e nos tempos de Cunhal, sempre decorava uma qualquer boa tirada cultural. Neste quadro de deserção dos intelectuais, o que faz o PCP? O melhor que sabe fazer: mitifica o passado e pinta paisagens, num mundo em vertiginosa mudança e acesso múltiplo ao saber e à criação, que correspondem ao imaginário dos anos quarenta do século passado, em que intelectuais devotos à causa peregrinavam por vilas e aldeias, em serões para autodidactas em sociedades recreativas e em colóquios de iniciação ao marxismo, para regressarem aos seus escritório e ateliers, romanceando, versejando, musicando ou pintando operários em greve, camponesas na ceifa, homens que nunca foram meninos e a GNR a assassinar Catarina Eufémia. Tudo numa dogmática de sentido único e descendente – eram os "que sabiam" que deviam descer, com baraço ao pescoço feito de expiação da afronta burguesa de terem acumulado saberes em ruptura com os laços de fraternidade proletária devida ao analfabetismo popular, simplificando-se e transformando-se em vulgatas volantes (mais com pernas e coração que com as cabeças), junto dos deserdados da cultura, pouco se pedindo como troca em esforço aos que pouco sabiam para que se esforçassem por aprender mais, chegando ao saber pelo trabalho do estudo (alguns, poucos, fizeram-no e em condições de tremendas dificuldades familiares e sociais, mas o grosso do "povo" estava amarrado à fatalidade inimputável da trilogia trabalho-taberna-luta e a que só sobrava tempo para se deitar com a companheira e com ela brincar). E o resultado sistemático foi o nivelamento por baixo, rente ao povo, debitando no intelectual um complexo de classe bem expresso no terrível ónus de ter estudado e criado obra, como se de um crime de condição social se tratasse.

 

Lendo-se no “Avante” a reportagem sobre o último Encontro Nacional do PCP sobre Cultura”, ressalta quer a indigência das intervenções e propostas, hiper politizadas e instrumentalizadas ao sabor da agenda política partidária, como do tão pouco que o PCP tem a dizer ao mundo da cultura de hoje (e tanto que há dizer, questionar e inventar sobre tamanha e tão complexa realidade), de que é exemplar a intervenção de Jerónimo de Sousa, de que se transcrevem estes nacos de “mensagem cultural” (autêntico regresso formal à fase da cultura como “engenharia de almas”):

 

 

uma confirmação da concepção que temos da Cultura enquanto terreno de emancipação individual, social e nacional, enquanto terreno de intervenção e combate essencial para todos aqueles que, como nós, lutam pela superação, radicalmente transformadora, democrática e de progresso do estado das coisas actual. Julgamos, até, que a luta de massas contém necessariamente em si elementos de importante valor cultural e que – incluindo, como tantas vezes sucede, a criatividade nas suas formas de se organizar e de se exprimir - multiplica o seu impacto, o seu poder mobilizador e a sua repercussão transformadora.

(…)

Um dos traços que marcam historicamente a actividade do nosso Partido, sobretudo nos períodos de maior crescimento da sua implantação, afirmação e influência, é o esforço para estimular iniciativas e movimentos de ordem cultural que, com as suas formas e autonomia próprias, acompanhassem, partilhassem e contribuíssem para a luta emancipadora dos trabalhadores e do povo. É, sem dúvida, essa uma das razões que favoreceram uma tão significativa aproximação e integração no Partido de muitas das maiores figuras da intelectualidade portuguesa, a sua participação activa na resistência ao fascismo, a sua intervenção criadora no Portugal democrático, a persistência no presente, embora crescentemente dificultada, de componentes de orientação progressista em diversas áreas da actividade cultural.

----

Nota final: Como o Encontro Nacional de Cultura do PCP foi realizado em vésperas da "greve geral", imagine-se a quantidade de romances, poemas, sinfonias e telas que, sobre ela, vão enfeitar a "Festa do Avante" deste ano, fruto do empenho cultural dos delegados ao Encontro após o Guia lhes ensinar o caminho da realização estético-política.

Publicado por João Tunes às 17:18
Link do post | Comentar
3 comentários:
De mikasmokas a 16 de Junho de 2008
não leu a minha intervenção no Encontro Nacional e muito menos se apercebe das mudanças que alguns militante como eu que com autoridade de saber e de prática têm um ideia de vanguarda alternativa à cristalização de algumas preconceitos
De João Tunes a 16 de Junho de 2008
Não encontrei nenhuma intervenção da camarada Mikas das Mocas. E até procurei entre eventuais informes das células cultural-recreativas de Rio Maior e Pirescoxe. Debalde, Kaput. Tão vanguarda-alternativa era que lhe deram sumiço, foi o que foi.
De mikasmokas a 28 de Julho de 2008
se procurar no blog Cultura e Socialismo vai encontra-lo. E não me venhas armado em paternalista porque além de teoria estou no terreno, na prática há muitos anos. Portanto, quando se fala de coisas que não se sabe, o melhor é mostrar alguma humildade.

Comentar post

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO