Domingo, 3 de Junho de 2007

AS SIMPLIFICAÇÕES PROSPERAM MAS TAMBÉM SE ABATEM

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Como se explica aqui, num texto escrito e lido por Rui Bebiano:

 

Todas as revoluções mostram o tempo que as antecedeu como um tempo de combate directo entre o bem e o mal, e a nossa historiografia do imediato pós-Abril não constituiu uma excepção. Durante um colóquio sobre o fascismo em Portugal organizado em Março de 1980, diversos intervenientes destacaram o conteúdo de classe e o carácter monolítico do regime salazarista. A oposição, pelo seu lado, surgia também essencialmente como um bloco, constituído, refiro a expressão tantas vezes repetida, pelos «comunistas e outros democratas». Num país retratado a preto e branco, parecia fácil distinguir os bons e dos maus.

Hoje sabemos que não era tanto assim. A partir do final da 2ª. Guerra Mundial, o poder passou a sofrer diversas clivagens, algumas delas irreversíveis, ao mesmo tempo que a oposição, após o desaparecimento dos «republicanos» da primeira geração, ia integrando grupos crescentemente diversificados. O PCP permanecia, sem sombra de dúvida, o mais activo, o mais organizado, e aquele em relação ao qual a repressão se mostrava menos condescendente, mas outros sectores de opinião iam ganhando autonomia e capacidade de intervenção. A sociedade, essa também se tornava cada vez mais complexa, particularmente no que respeita à definição da classe média em crescimento, de uma cultura juvenil que rejeitava os valores e a estética do regime, de um número crescente de trabalhadores que desprezavam o discurso corporativista, e de estudantes e intelectuais, muitos deles sem partido ou sequer militância, que em comum tendiam a demonstrar uma rejeição visceral do modelo político e cultural do Estado Novo.

A partir dos inícios da década de 1990, começou, todavia, a conhecer-se um pouco melhor esse país que se ia erguendo à margem do Portugal de Salazar e dos chamados «valores de Braga». Esse «outro Portugal» para o qual Deus, a Pátria, a Família, a Autoridade, o Trabalho, não constituíam valores absolutos, mas estavam condicionados a um tempo de mudança que transcendia até próprias fronteiras do país. A fase de decadência do Estado Novo, afirmada ao longo do período que mediou sensivelmente entre os anos de 1958 e de 1974, teve como pano de fundo o cenário complexo e em permanente construção que se afastava de uma vez por todas desse «doce viver habitualmente» que Salazar ambicionara instalar para todo o sempre.

 

Por estas e outras, é que há quem embirre com a história e os historiadores e tanto goste dos arquivos fechados a sete chaves. Para que a propaganda nunca perca a favor da história, mantendo pedestais de heróis únicos e intocáveis, os dos mitos e lendas, ou seja, que josés hermanos saraivas, nas várias cores, sejam imperturbavelmente felizes a ensinar, ensinar, a encantar, encantar.

Publicado por João Tunes às 13:17
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2 comentários:
De carlosfreitas a 4 de Junho de 2007
As palavras não são minhas, mas sim do que na realidade sou, um caçador furtivo, espécie de aprendiz de feiticeiro, desses, sim, historiadores. dava a entender Arlette Farge,nos seus escritos "Lugares para a História, deduzia a "investigação histórica como um gesto mais, não separado dos outros, que procura ligar os mortos aos vivos". Ser historiador é, embora alguns pensem que a historia pouco valor terá num mundo de "homo economicus" ou "tecnicus" percorrer o caminho dificil de amarrar o tempo, para o tornar compreensível.
De João Tunes a 4 de Junho de 2007
Eu sou aprendiz dos aprendizes de feiticeiro, acima disso não me leva o chinelo. Mas gostei deste seu comentário.

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