Sexta-feira, 1 de Junho de 2007

A RAIVA AZEDA DO JÓ

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Se em Portugal se quiser encontrar um operariado qualificado e bem remunerado (relativamente ao padrão nacional), num patamar à parte da habitual competitividade nacional - em decadência - da baixa qualificação e baixo salário, a Auto Europa (no “deserto” de Palmela) é a grande referência incontornável.

 

Na rede global da Volkswagen, se a Auto Europa continua a laborar, isso deve-se a que esta não só pratica custos de produção competitivos como os níveis de qualidade e produtividade ali atingidos satisfazem plenamente os padrões de exigência da marca. Perfeitamente inserida no universo da globalização, a Volkswagen decide em permanência onde localiza e deslocaliza as suas unidades espalhadas por todo o mundo. Desde que aqui se instalou, a Auto Europa ganhou todas as batalhas da manutenção da sua localização. Sendo um dos principais contribuintes para as exportações, continua a ser um dos pilares da sustentabilidade da economia nacional. Ao mesmo tempo que suporta boa parte da subsistência do nível de vida na península de Setúbal, pelo rendimento distribuído e pelo consumo induzido, garantindo ainda muitos postos de trabalho de nível qualificado.

 

Se a gestão e a qualificação da Auto Europa são chaves importantes para a sua continuidade, em igual importância se coloca a condução das relações laborais entre patronato e representantes dos trabalhadores. A organização dos trabalhadores da Auto Europa não só se move bem na estrutura em rede das representações sindicais mundiais da Volkswagen, conseguindo consensos de fraternidade operária internacional difíceis de obter num universo de permanente problematização das localizações, como sabe pesar, caso a caso, dinâmicas de rendimentos e regalias com os limites reivindicativos que podem romper o suporte da competitividade da unidade face às congéneres da VW, numa percepção clara que não há conquista reivindicativa tangível que tenha como reverso o desemprego no caso de encerramento da Auto Europa. Esta gestão crítica em equilíbrio de permanente peso de vectores contraditórios nos interesses laborais, exige aos trabalhadores uma competente liderança de representação. António Chora, coordenador da CT da Auto Europa, sucessivamente eleito, líder prestigiado, incontestado e carismático dos trabalhadores da empresa é, desde a origem da unidade em Palmela, o representante operário que completa o tripé em que assenta o sucesso da Auto Europa.

 

Falando de economia portuguesa, a Auto Europa surge como a peça mais forte (e mais qualificada) do que resta da força industrial portuguesa, sendo contribuinte chave para as exportações. Falando em operários e classe operária, da clássica vanguarda consagrada dos operários metalúrgicos, cabem lá os trabalhadores da Auto Europa. Falando em operariado moderno e de vanguarda, informado e qualificado, em contínua adaptação ás modernas tecnologias e novos métodos produtivos, temos os trabalhadores da Auto Europa. Falando da sustentabilidade de vida na península de Setúbal, temos de referir a Auto Europa à cabeça. Falando em modernidade sindical e sua capacidade adaptativa à globalização, é inevitável salientar o exemplo maior da estrutura reivindicativa da Auto Europa. Falando de liderança operária do nosso tempo, encontramos António Chora, da Auto Europa. Assim, naturalmente, quem fala em classe operária, quem fala em economia nacional, quem fala em defesa do aparelho produtivo, quem fala da vitalização das condições de vida das populações da península de Setúbal, quem fala em responder à globalização, quem fala em sindicalismo, quem fala em qualificação profissional, quem fala em internacionalismo das organizações operárias, devia falar em Auto Europa, nos seus trabalhadores, em António Chora. Provavelmente, aprendendo ali antes de sacar cartilhas do bolso conservadas desde o PREC e inevitavelmente gastas. Tendo à cabeça o PCP, que se quer vanguarda da classe operária (para isso se tendo guarnecido de um metalúrgico de gema como seu dirigente maior como guia para realizar a revolução socialista com que sonha), controla a CGTP e tem uma das suas maiores implantações na península de Setúbal, dominando a maioria das suas autarquias.

 

Desgraçadamente, a Auto Europa tem dois problemas graves para o PCP: não é uma fábrica de conflitos laborais permanentes que alimentem a massa crítica insurreccional necessária para substituir a democracia pela revolução e … António Chora (tendo militado no PCP é agora apoiante do Bloco de Esquerda e, por esse trajecto, deixou de receber instruções dos controleiros comunistas de Setúbal). Ora, como se sabe, sem controlo não há revolução que se consiga. E a revolução e o controlo, para um partido revolucionário como o PCP, estão acima da economia, das exportações, da classe operária, das tecnologias e métodos produtivos, da sustentabilidade da vida das populações, do sindicalismo. A revolução e o controlo podem ser mitos ou quimeras, mas são as essências. Como nos ensina esse líder sub-máximo do PCP, membro acumulativo da Comissão Política e do Secretariado do PCP, Jorge Cordeiro (o mesmo que respondeu com prova de miséria intelectual ao último livro de Raimundo Narciso), vanguardista operário nunca tendo sido operário na vida e provavelmente nunca tendo entrado numa fábrica, numa peça insultuosa para com os trabalhadores da Auto Europa e para o seu líder representativo dada à estampa no último “Avante” e com o título jocoso de “O Tó faz falta”. Assim:

 

Mas como que fazendo juz ao significado inerente ao próprio conceito há sempre, mesmo quando se julga nada poder já constituir surpresa, algo capaz de nos surpreender. É o caso de António Chora – membro da CT da Autoeuropa e exemplo maior da montra do trabalho do BE – e da sua entrevista a um matutino. Diz António, posto perante o congelamento dos salários durante dois anos na empresa que «vale a pena fazer agora alguns sacrifícios para manter amanhã os postos de trabalho» tanto mais que, segundo ele, tem «uma administração a lutar por novos produtos». Empolgado, porventura, com a comunhão de interesses que o une à administração, não hesita mesmo em sentenciar que outras empresas deveriam seguir-lhe o exemplo. Num quadro em que a chantagem sobre salários e direitos constitui, face às programadas ameaças de deslocalização, o principal instrumento para acentuar os níveis de exploração e fazer crescer os lucros dos principais grupos e empresas multinacionais, a Administração registará o gesto e o capital da empresa, em particular, agradecerá reconhecido tanta dedicação.

 

Para o camarada Jó, a Auto Europa podia fechar amanhã. Questão de umas tantas bandeiras negras e a luta continuava. Sem o , o transfuga Tó, esse pesadelo do .

Publicado por João Tunes às 23:49
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6 comentários:
De jabmadeira@hotmail.com a 2 de Junho de 2007
Percorri os campos onde se estendem hoje os pavilhões da autoeuropa, e as autoestradas à procura de aves que designávamos por passarinhos. Subiamos árvores e encontravamos, eu e os outros amigos crianças, ninhos de aves com ovos a que chamávamos pedrinhas, com ingénua inocência evitando pronunciar o termo ovo para os proteger de escutas de cobras argutas que porventura nos observassem as brincadeiras. Eu ficava deliciado a ouvir chilrear ou rouxinóis e os pintassilgos ao fim das tardes de verão, e viamos lagartos enormes lindíssimos de todas as cores como o dinheiro do Isaias (regionalismo pamelão que significa muito colorido), que por vezes com ignorante violência acabava por matar sem motivo justificado, apenas por medo deles. Coitados dos lagartos, mas não matei muitos, e mais tarde passei a ter coragem para os apanhar á mão e tornei-me seu amigo. Isto não é ficção é mesmo uma recordação de criança.
Mais tarde veio a autoestrada do sul, e depois a Autoeuropa, o caminho de ferro e tudo o mais que se lhe seguiu. A natureza foi submergida pela civilização. A fabrica deu trabalho a muitas familias e também trouxe infelicidade aqueles que tem falecido em acidentes de viação a caminho do ganha pão, nas péssimas estradas que lhe dão acesso, feitas à pressa pela gananciosa e Câmara de Palmela, por acaso também do partido do JO, que poupou uns dinheiritos naquelas infraestruturas. O saldo foi contudo positivo e a fábrica tem sido a garantia do pão a muitos milhares de pessoas na margem sul. Por fim concluo agradecendo-lhe a sua lucidez e denuncia desta jovem vanguarda da classe operária, igualmente ignorante mas menos ingénua que as crianças de que falei, e de que é um bom exemplo o Grande Camarada JO.
Que não lhe falte a pena a tinta, e já agora também a saúde.


De João Tunes a 4 de Junho de 2007
Muito obrigado por nos enriquecer com esta evocação sentida em que a memória de infância se fecha com a marca transformadora (e, em parte, aniquiladora) do progresso. Mas, concordamos, antes assim. O progresso, mesmo cobrando preço, é vital. O Jó é que não.
De odete pinto a 2 de Junho de 2007
Pena que na Bombardier e na Opel os do costume tenham preferido a receita habitual. Será que só mudam quando tivermos sido ultrapassados pela Albânia?
De João Tunes a 4 de Junho de 2007
Mas acha mesmo que vamos ser ultrapassados pela Albânia? Com Sócrates e o PS ao leme? Não creio, acho que vamos ficar um bocadinho à frente e a Albânia não vai ser sempre o que já foi, tanto mais que se livros dos Jós.
De RN a 3 de Junho de 2007
"Quanto pior melhor " continua a ser, e hoje de forma ainda mais absurda que ontem, a orientação geral. Centenas, milhares de trabalhadores seguindo a orientação do PCP recusaram acordos com o patronato e acabaram na rua sem as compensações/indemnizações que outros trabalhadores "traidores" tinham obtido. Naturalmente vieram depois pedir o apoio do partido. E o apoio era "lutemos com mais força". Carne para canhão. Quanto pior melhor foi sempre uma orientação injusta e penalizadora em primeiro lugar dos trabalhadores imolados. Mas ainda se podia admitir que haveria alguma lógica para quem acreditava que assim se fazia ruir o capitalismo para a vitória do socialismo já triunfante a Leste.
Era um erro e um "martírio", supostamente ao serviço do "socialismo", do "homem novo" mas agora é o mesmo mas com maior evidência ao serviço de uma clique.
De João Tunes a 4 de Junho de 2007
No currículo oficial do PCP, o Jó, seu eminente dirigente, vem classificado como "empregado". Livrem-nos, pois, dos "empregados" encarregados de serem luz e vanguarda da classe operária.

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