Sexta-feira, 1 de Junho de 2007

UM INCRÉU (quase só) ENTRE CATÓLICOS

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Não podia faltar ontem à noite em Coimbra na Livraria Almedina-Estádio na apresentação pública do livro de Joana Lopes editado pela Âmbar (sobre o qual já escrevera assim). Pela importância do livro e para transformar num pouquinho de real a amizade virtual germinada na blogosfera com a Joana Lopes e o Rui Bebiano, autor de um dos meus blogues de culto e que foi um dos apresentadores da obra. É que, decerto pela idade, faz-me impressão e comichão estimar pessoas sem lhe espreitar o olhar.

 

A sessão, para um incréu quase de nascença, foi a modos que estranha. Insólita, pelo menos. O livro trata da luta dos “católicos progressistas” contra o católico-fascismo português e que, então, me passou ao lado, a maioria dos assistentes eram católicos ou ex-católicos altamente motivados para darem testemunho sobre como andaram e andam pela Igreja sem perderem cidadania e procurando depurar a sua fé, ligando-a à sociedade e procurando, assim, que nem toda seja encarreirada para capa de poderosos e pompa para rituais. E até um padre vindo expressamente da “minha Vila Real” explicou como se amanha nos tempos de hoje e, com humildade, pediu conselho aos presentes sobre formas de fazer melhor. Mas a informalidade e vivacidade do debate, muito se devendo isso à viva e coloquial intervenção de José Dias que espalhou calor humano e desinibições pela sala, transformou uma sessão de “marketing livreiro” (e como são formais e quando não autênticas feiras de vaidades, a maior parte destas “apresentações”!) numa riquíssima troca de impressões e testemunhos cruzados que tiveram o condão de transformar aquele livro num agitador de opiniões, pistas e testemunhos, passando de objecto de leitura a vida vivida e com vontade de viver (o que é a máxima homenagem que se pode render a um livro), fazendo suceder a partilha à leitura reflexiva em que cada leitor gere a sua solidão com o papel escrito. E o que este incréu se fartou de aprender com tanto e tão católico entusiasmo… (no mesmo dia e na mesma cidade em que foi inaugurado o Museu da ex-pastorinha Irmã Lúcia)

 

Com o seu rigor próprio de historiador refinado e exigente que não brinca em serviço nem fora dele, Rui Bebiano situou a importância histórico-testemunhal do excelente livro de Joana Lopes, chamando a atenção sobre a importância que tem completar-se o painel da luta antifascista (em que a exclusividade da centralidade da luta dos comunistas por vezes leva à falsa noção de que só estes lutaram contra o Estado Novo), em que esta narrativa sobre a gesta dos “católicos progressistas” preenche um dos “buracos da história”, faltando fazê-lo para mais, nomeadamente a referente à luta da “esquerda radical” na fase terminal do salazarismo e durante o consulado marcelista (em que Rui Bebiano participou, pelo campo maoísta, e a própria Joana Lopes também, depois de abandonar o catolicismo, colaborando primeiro com a LUAR e depois militando nas Brigadas Revolucionárias).

 

Ida ganha a Coimbra. Pelo acto de cultura e de cidadania informal que representou a sessão e pelo prazer confirmado em ter metido tijolos reais na estima pelo Rui Bebiano e pela Joana Lopes (esta a confirmar, em extra, que só uma mulher muito bonita podia escrever aquele excelente livro). A que acresceu o prazer de também ter podido conhecer o Miguel Cardina (o talentoso “puto” do “Passado/Presente”) e a Manuela Cruzeiro (de que sou velho admirador da sua já vasta obra de recolhas testemunhais de figuras marcantes da história recente portuguesa), simpatiquíssima e com quem me fartei de dar à língua, conspirando à volta de um esboço de projecto. No regresso, lutando contra a noite no asfalto, confirmei que Coimbra não tem mais encanto na hora da despedida, nada mau para quem ainda não se tinha “encaixado” naquela cidade, um velho preconceito meu que tardava a desaparecer.

 

Imagens:

 

Foto de cima – Rui Bebiano e Joana Lopes, durante a apresentação do livro.

 

Foto de baixo: Uma nova trindade de “amigos ex-virtuais” – João Tunes, Joana Lopes e Rui Bebiano. 

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Publicado por João Tunes às 13:45
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15 comentários:
De CRISTINA a 1 de Junho de 2007 às 15:35
belo retratinho....
"faz-me impressão e comichão estimar pessoas sem lhe espreitar o olhar"
a mim também, é uma das coisas que mais tento imaginar nas pessoas que vou conhecendo melhor por aqui...
De MC a 1 de Junho de 2007 às 16:40
Que belíssima reportagem!!!

Fica-me a inveja, de ter estado longe.

Abraço, mano.
De MC a 1 de Junho de 2007 às 16:44
O Zé Dias será do blogue Fé e Compromisso, tenho as melhores referâncias dele através dum amigo comum.
De João Tunes a 1 de Junho de 2007 às 17:11
??? (não faço a mínima ideia) (conheço poucos católicos, actuais ou antigos) (é que eu, desde miúdo, nunca me esquecia daquela (+/-): "Não entres na Igreja ó cavador / lá manda quem te oprime / e os santos até são de pau / não têm qualquer valor")

Beijo amigo.
De Joana Lopes a 2 de Junho de 2007 às 00:09
Creio que este Zé Dias não é de nenhum blogue mas vou perguntar-lhe. Não deve ser o mesmo.
De MC a 1 de Junho de 2007 às 17:38
:)

eu, como não era cavadora, deixavam-me entrar...qualquer dia, não sei...
De marcelo ribeiro a 1 de Junho de 2007 às 18:37
Pois é! já temos um amigo em comum: ainda há dias estive com o Bebiano (pela 2ª vez!) por via das crises universitárias coimbrãs. A ver vamos quando é que temos possibilidade de nos encontrarmos.
Os católicos progressistas (dois pensamentos para Luis Bagulho e Orlando de Carvalho) não eram muitos, mas eram bons. às vezes até um bocado radicais na ansia de se demarcarem da fascistagem integrista. Outras vezes exageravam como quando recebi um padre em minha casa que à vista da Origem da Família do engels declarou que aquele era um livro imprescindivel na casa de um verdadeiro católico!
Um abraço
De João Tunes a 4 de Junho de 2007 às 15:39
O padre exagerava? Na parte referente à "família" acho que não. Só se fôr pela banda da "propriedade privada"... Mas Engels, esse inspirador menor, o escriturário alter ego da desgraça marxista, pelo seu pendor escolástico não ficava nada mal nas casas dos verdadeiros católicos... (podia ser que desistissem de decorar a Bíblia e se inclinassem, contra Engels e os Apóstolos, para literatura mais interessante e mais útil à vida)
De marcelo ribeiro a 1 de Junho de 2007 às 18:43
E outra amiga comum: A Manuela Cruzeiro! Pena não ter conhecido também o marido, o Zé Barata, um encanto de uma pessoa, um sólido lente de Coimbra, e um tipo desalinhado com o conformismo dominante.
Coimbra é melhor do que pensa(va) mas não está isenta de pecados. Bem pelo contrário. Há todavia uma velha tradição de camaradagem que dura para o resto da vida. Ao fim e ao cabo, eramos todos uns putos longe da família e isso, essa lonjura, foi saudavel, muito saudavel. Cinco, seis ou mais anos neste caldo cultural deixam marcas poderosas (e ás vezes impiedosas).
De João Tunes a 4 de Junho de 2007 às 15:50
Não sei se lá estava o marido ou não. E, pelo que me diz, terei todo o gosto em o vir a conhecer. Mas não dou por má ocasião ter tido um "papo" com a Manuela Cruzeiro sem o marido à ilharga. Uma sedutora como ela merece um primeiro conhecimento a "solo". É que, não sei porquê, ela trouxe-me o bom e velho cinema italiano à tona, numa mistura entre Magnani e Vitti, nessa espécie imaginada de alegria estética equilibrada numa meia distância entre Visconti e Antonioni.
De Joana Lopes a 2 de Junho de 2007 às 00:12
João,
Já referi este texto no meu blogue. MUITO OBRIGADA - por ter escrito isto e, sobretudo, por ter estado em Coimbra.
Foi, de facto, um serão muito agradável e diferente dos lançamentos de livros típicos...
Estou à espera do texto que o Rui B. leu e me vai mandar para o pôr no blogue com mais algumas considerações.
De marcelo ribeiro a 2 de Junho de 2007 às 22:33
Esqueci-me de referir que o Zé Dias é outro de Coimbra, da geração de 69, grevista, claro com quem andei a distribuir numa vinda ao Porto panfletos coimbrãos. Depois foi a aventura do MES e tudo o resto. V., João Tunes, mais dia menos dia, fica a conhecer todos estes velhos velhíssimos amigos. E a coimbra que eles representam, uma coimbra onde V. se sentiria bem, tenho a certeza.
De João Tunes a 4 de Junho de 2007 às 15:31
Tem, ainda hoje, um discurso torrencial, com humor, e envolvente. Um entusiasta que conservou o entusiasmo. Imagino o que seria quando activista estudantil com todo o sangue na guelra. Demonstrou, na sessão, ser um excelente animador de tertúlias, desmontou a formalidade da "apresentação" e meteu todo o mundo a falar (até eu botei faladura!). E gostei de o conhecer pessoalmente. E, agora, que me conciliei com Coimbra, por favor, ó coimbrões, não me deitem mais em cara o meu preconceito ultrapassado que, em má hora, tive o azar de publicamente confessar.
De RN a 3 de Junho de 2007 às 00:22
Boa aposta. Só tenho pena de não me teres convidado para dividirmos a gasolina e as portagens:))
Abraço. Ficava a conhecer o segundo Rui Bebiano.
De João Tunes a 4 de Junho de 2007 às 15:25
Por ordem de chegada (ao mundo e à blogosfera), este não é o "segundo" RB mas sim o "primeiro". Não te convidei porque ainda não tinha reparado que eras um dos muitos milhões de admiradores do livro da Joana Lopes...

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