Quinta-feira, 31 de Maio de 2007

DA GREVE

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Seria crítico para a democracia portuguesa que se verificasse um qualquer retrocesso nas garantias para o pleno exercício dos direitos sindicais, incluindo o sacro direito à greve. Felizmente, não está no horizonte político visível qualquer panorama que condicione o princípio destas conquistas democráticas basilares no nosso regime.

 

Mas a qualidade do exercício destes direitos, até pela autonomia que é apanágio teórico-estruturante da prática sindical, para além dos efeitos das dinâmicas que contrariam a afirmação dos direitos dos trabalhadores (pelo patronato, pelo Estado, pelas forças retrógradas que gostariam de domesticar o mundo laboral), depende da forma como o sindicalismo realiza a praxis dos direitos sindicais. Porque nem todo o anti-sindicalismo é exógeno ao movimento sindical e este pode ser tentado a actos suicidários.

 

Esta última greve geral, este monumental fiasco de greve geral, pode ter representado um forte contributo da CGTP não só para o descrédito da significância da componente sindical na sociedade civil como, desqualificando o uso do direito à greve, uma oferta de bandeja aos que pretendem rebaixar o exercício dos direitos sindicais. Adicionando ainda, para os trabalhadores, um ónus de pessimismo acrescentado quando às possibilidades de, por via colectiva e de classe, sindicalmente, protegerem os seus direitos e melhorar as degradadas condições de trabalho. Provavelmente, se a democracia sindical funcionasse no seio dos Sindicatos (em vez do contumaz centralismo democrático), os dirigentes da CGTP estariam agora de cabeça baixa a suportar a forte crítica dos sindicalizados pelo mal que fez ao sindicalismo português esta acção voluntarista mal amanhada e cujas justificações, objectivas e subjectivas, se resumiram a pouco mais que cumprir a agenda política do PCP. Também pelo bónus oferecido ao governo PS/Sócrates na forma de descrédito da contestação.

 

A fusão acelerada PCP/CGTP, em marcha desde que Jerónimo de Sousa é SG do PCP, veio, como era previsível, plantar eucaliptos na mata em crise, por envelhecimento e pela reprodução de chavões de dogmatismo social, do sindicalismo português, secando-a. Foi mais que visível que a greve geral foi imposta pelo PCP à CGTP e que toda a dinâmica de mobilização para a greve se processou num quadro de militância partidária (como o “Avante” e os discursos de Jerónimo fartamente ilustraram), tentando substituir a realidade pelos desejos de alimentar uma dinâmica revolucionária que contrarie as opções resultantes do voto popular (ainda e sempre o mesmo conflito nunca resolvido pelo PCP entre a dinâmica revolucionário e a dinâmica eleitoral e que vem das mitologias teorizadas por Cunhal durante o PREC). E só na última semana antes da greve, em disfarce de última hora e por desespero face ao fracasso á vista, se viu o PCP recolher-se um pouco para bastidores, enquanto fazia o “trabalho de casa” nas suas células, dando a ribalta da propaganda e da mobilização aos dirigentes da CGTP, tentando pintar a greve de acto sindicalista.

 

Dramático e patético foi o papel de Carvalho da Silva, quase de merecer pena. A sua energia mobilizadora e lutadora da ponta final, ele que foi obrigado contrariado a alinhar na greve imposta, foi uma triste representação de quem tenta salvar a face perante o inelutável e inevitável, esgravatando energias de sublimação, numa patética “fuga para a frente”. Dramático ainda porque sabendo-se que o PCP espreita a hora para o afastar da liderança da CGTP, este fracasso, que debalde tentou evitar e depois foi forçado a ter de representar o papel de seu mobilizador mor, e assim ser o principal responsável quanto aos resultados, este mesmo fiasco pode ser um motivo extra para consumar e acelerar o seu afastamento, numa espécie de “25 de Novembro sindical”.

 

Finalmente, uma última ilação incontornável: a CGTP está perante um paradoxo na sua natureza sindical. Definindo-se pelo sindicalismo de classe, com uma componente directiva e discursiva fortemente obreirista, dogmática no vanguardismo proletário, acaba por se ver reduzida a uma federação congregadora de trabalhadores de serviços públicos, em que a maioria do operariado do país lhe passa ao lado. Vivendo do Estado, o Estado-patrão, o Estado capitalista, na exacta medida em que o seu poder de mobilização se esgota em parte da área dos assalariados dos serviços das administrações públicas central e local.   

Publicado por João Tunes às 16:03
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