Terça-feira, 15 de Maio de 2007

CONSTANTINOPLA E ATATURK, OLÉ!

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Quem diria que José Pacheco Pereira marchava na legião anti-Sarkozy. Não por Sarkozy ser de direita, não podia ser por isso, mas por ser húngaro e turcófobo. E sendo duas coisas horríveis, segundo uma moda europeia, leva com o labéu de que um sujeito chamado Nicolas Paul Stéphane Sarközy de Nagy-Bocsa é mais húngaro que francês (nada que Le Pen não se tenha lembrado nos seus ódios eleitorais):

 

Eu gosto dos turcos, sou um turcófilo perplexo, consciente de que se pode ser coisas bem piores. Por isso me arrepia a turcofobia de Sarkozy. Quando diz que a Turquia não é coisa da Europa mas da Ásia, ele é mais húngaro do que francês, ou, se se quiser para os mais sofisticados, é mais franco do que francês.

Eu não sei o que de húngaro ficou em Sarkozy, cujo nome completo é Nicolas Paul Stéphane Sarközy de Nagy-Bocsa, três nomes de santos, um dos quais o fundador da Hungria, mas há coisas que se colam à memória como se de sentimentos vagos se tratasse. Ora, na Hungria, mesquitas que hoje são igrejas católicas fazem parte da paisagem, como em Pécs. Nós, cá no nosso canto da Reconquista, só ficámos com as "mouras encantadas" e de há muito que os espanhóis substituíram a moirama no papel de inimigo principal, mas os húngaros estiveram bem dentro do Império Otomano, o suficiente para não se esquecerem.

Quanto aos francos, a história ainda é mais complicada. É verdade que os "francos" são para todos os muçulmanos que têm memória das cruzadas - e para muitos este é um factor de identidade entre Istambul e Meca - o inimigo que está ainda presente nas ruas da velha Jerusalém, nos portos do Levante, nas ilhas de fronteira como Rodes e Chipre. Mas também é verdade que, durante muito tempo, já em pleno declínio do Império Otomano, a França foi a entrada para a Porta, através de portos como Marselha. Foi também a França que forneceu alguns dos mais influentes orientalistas como Pierre Loti, que transformaram as veladas mulheres muçulmanas em ideais eróticos e tornaram o harém do Topkapi num destino turístico de primeira. Por isso, Sarkozy pode ter a "sua" história, mas a história tem sempre mais do que um caminho quando deixa de ser história e se torna presente.

 

Aliás, a turcofilia de Pacheco Pereira é bem partilhada por muito boa gente opinativa nos vários quadrantes lusitanos. Como não ser assim se os turcos não costumam emigrar para cá? Para admirar seria se a vaga fosse de ucranofilia, cruzes canhoto. Ucrânia na Europa? Deus nos livre, que esses são eslavos e encostem-se lá aos russos. Europeus mesmo, até de raiz, são os turcos que bem merecem inundar a endinheirada Alemanha com gentes, mesquitas e véus. Para mais, Constantinopla não mora neles?

 

Na “banda progressista”, aí começa a despontar uma neo-turcofilia, a espantada e entusiasmada com a maré de massas vibrando pela laicidade e pelo legado modernizador de Ataturk (na foto essa espécie de Spínola com bigode e sem monóculo), espreitando-se aí a onda humana capaz de estancar a tempestade do islamismo fundamentalista. Varrendo para baixo do tapete a evidência mal escondida que esse mesmo “movimento laico”, bem longe da inocência e mais ainda da espontaneidade, traz agarrado o militarismo tutelar (em permanente disputa de supremacia de casta com os imans locais) e o silêncio imposto sobre as opressões e genocídios para com arménios, curdos e cipriotas.  

Publicado por João Tunes às 15:54
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