Terça-feira, 11 de Abril de 2006

NEVES, este NEVES

 

Os e as melhores, mais simpáticos e simpáticas e com quem se tem com gosto uma conversa de jeito, entre os católicos e as católicas que conheço, são todos “semi-praticantes”. São daqueles e daquelas que se recusam a rezar terço ao centralismo democrático. Juntam uma moralidade evangélica “qb” com uma iconoclastia igualmente “qb” e, na mistura, sai malta com princípios, meios e fins. Catitas, pois. São, numa religião que é muito mais de obediência ao Vaticano que ao exemplo de Cristo, um derivativo fascinante desses fumígenos, esfalfados e decrépitos “chapas” que vi circular em Maputo e em Luanda, semi-carrinhas a abarrotar de gente, substituindo carência de machibombos municipalistas, privadíssimos e com cobrador de molho de notas a aquecer-lhes as mãos e a cobrar as corridas (tantas vezes sem destino certo mas muitos destinos inventados), e que o pessoal crismou e consagrou com essa alcunha fabulosa, criativa e de compromisso marxista-liberal de “transportes semi-colectivos”. Quer-se dizer: “colectivos” são (pelo peso enorme da quantidade de pessoal e haveres acumulados no vai-vem entre a cidade e os subúrbios), mas também “semi” porque ali o povo paga e não recebe, sem que perca a alegria de circular. E qual é a alma que goste de estar quieta e não vadiar um pouquinho e consoante as posses reais ou inventadas?

 

Pois, com os católicos “semi-praticantes” não tenho eu pruridos conviviais, até mesmo de tertúlia, porque de amizade não se fala pois que, entre eles, muitos amigos cultivo no meu canteiro. Gosto mesmo deles. Prefiro-os, de longe, aos racionalistas neo-liberais que querem programar o progresso com a régua das OPA’s e o esquadro da precaridade como janela de oportunidade ou aos “jerónimo-estalinistas” que querem levantar o mundo até à justiça perfeita a espalharem um colectivo de “pides” em cada quarteirão para que as “amplas liberdades” nunca minguem na caderneta da devoção.

Tanto dito para apenas desabafar que vi e ouvi, ontem, na TV, uma vez mais, o inefável Professor João César das Neves (ena, levou claque!), um católico que, problema dele e sobretudo dos seus alunos, é católico “integral”. Ouvi-o e vi-o com a sua repetitiva e indomável retórica, género “talliban” saído direitinho da “última ceia” e remetendo o parceiro de bancada - que até é cardeal e fabricante de beatos e santos - ao papel humilhante de seminarista caloiro. Ouvi-o e vi-o. Topei-o, como costume. Disse ele que falava em nome da vida, não da religião. Pelos fetos mais que por Cristo, porque de Alá e Maomé ele também gosta, de Judas também, de rabinos nem se fala, mais toda a molhada dos sacerdotes indús, budistas, cucos, codornizes, patos e milharufos. Desde que haja religião, o Neves está feliz. Venha ela aos molhos. E vida, sobretudo vida, com fetos fresquinhos a despontar, amados ou não amados, desejados ou acidentais, bem formados ou mal formados, frutos do amor ou vítimas de violação ou descuido, com direito futuro ao amor pelo fruto desejado ou à violência da lide com a frieza da contrariedade. O Neves, este Neves, cultiva adoração por fetos, estejam ou não à direita, ao centro ou à esquerda do seu Cristo e do seu Papa entronado no Vaticano opulento e nomeado segundo a ditadura mais obscena que o tempo histórico retém em lembrança viva. Só um problema sobra para o Neves, este Neves, o de mil fetos a florirem: quando se souber quantos filhos tem, sabemos todos quantas “quecas” deu na vida. E, então, lá se vai o resguardo da sua casta intimidade. Ficando o aviso: se houve punhetas pelo meio, o Neves, este Neves, vai ter de, por coerência, confessar publicamente quanto fetos falhou no turbilhão insano do autoclismo, dando-nos o gozo da exibição das suas católicas fraquezas. Promovendo-se a "semi-praticante", passando do religioso ao humano, aqueles de quem gosto. E, a partir daí, ele que apareça quantas vezes quiser na televisão, pois terá este ateu como seu telespectador atento, até na claque "dele" eu entro, se disso a eminência laico-católica necessitar.

Publicado por João Tunes às 15:21
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3 comentários:
De M. Conceição a 12 de Abril de 2006
João
discordo um bocadinho de si. Eu, só vi um bocadinho do programa, porque o enfado falou mais alto...nem sabia que a claque de betinhos eram do das Neves, pensei que fossem do cardeal. Vi, foi por lá uns padres empunhando o livro do cardeal e as câmaras muito oportunamente a filmar, obsceno...
eu só me pergunto se a RTP, não tem uns jornalistas melhores que a FCF...
O programa parece que era sobre a vida, mas com aqueles comentadores? E de que vida é que lá se falou? O tema é vastíssimo, daria bons debates, não moderados pela FCF, que parece que últimamente anda demasiado frequentadora de sacristias...
Eu que me assumo, o que normalmente se chama de "católica praticante" sei distinguir (presunção ;)) o que é o cristianismo e a frequência das sacristias. Não são coincidentes.

O das Neves apresenta uma religião que parece que anula os problemas dos homens. Não anula. Não há nenhuma religião que o consiga. Enquanto vivermos esta vida que temos, vamos errar, vamos pecar. Não há nenhuma fé ou deus que nos livre disso. Se aceitarmos essa verdade, então sim, sabemos viver a vida que temos. Vamos perder menos tempo a arranjar leis para nos condenarmos uns aos outros e vamos aceitar a vida tal qual é. Não paraísos terrestres como o das Neves e outros parece que descobriram. E os santos que o Vaticano vai arranjando foram pessoas que sabiam isso muito bem. O paraíso não é aqui.
Ter fé, não é ter asas e sermos imediatamente transformados em anjinhos. É viver a vida tal qual ela se nos apresenta.

João, desculpe mais este desabafo. De vez em quando transformo o seu blogue em "confessionário" ;)

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