Sexta-feira, 11 de Maio de 2007

25 E O EUROCENTRISMO

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Mia Couto explica o que muitos, por cá, ainda não entenderam e dificilmente lá irão chegar:

 

Um mês depois de iniciar o meu estágio sucedeu o 25 de Abril. As pessoas festejaram com alegria profunda e muita perplexidade. Aquela não era ainda a festa dos moçambicanos. Era a festa do povo português. Nós éramos apenas convidados em casa alheia. A nossa festa, o nosso 25, estava ainda por vir. E veio, um ano mais tarde, com a proclamação da Independência, a 25 de Junho de 1975.

O período que se seguiu ao golpe de Estado em Portugal foi marcado por conflitos de enevoados contornos. É preciso dizer que a tenebrosa polícia secreta portuguesa, a PIDE-DGS, não foi logo dissolvida em Moçambique. Os agentes mais repressivos do regime continuavam no activo, mesmo após o golpe em Portugal. As tropas coloniais mantinham a sua presença. Se houve desarmamento foi por iniciativas isoladas das próprias companhias que estavam espalhadas no interior de Moçambique. A Paz foi acontecendo por decisão directa dos soldados e oficiais que negociavam com os guerrilheiros e abriam bolsas libertas da irracionalidade da guerra.


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Mas a apreensão dos moçambicanos não se dirigia apenas contra os aproveitamentos que a direita portuguesa podia fazer do novo clima político em Portugal. Havia também uma certa reserva contra recuperações mais subtis que pudessem inverter a relação de causa e efeito entre a queda do regime e a libertação dos povos africanos. Para um largo sector de opinião em Portugal (incluindo uma certa esquerda portuguesa) as independências de Moçambique, Angola, São Tomé, Cabo Verde e Guiné-Bissau foram o resultado do 25 de Abril. Não foi a luta armada dos movimentos de libertação que, junto com a luta do povo português, fez acontecer o 25 de Abril. Não, o que aconteceu, para essa leitura da História, foi que os portugueses libertaram os africanos. Essa interpretação sedimentou-se naquilo que hoje é designado em Portugal por “descolonização”. A palavra esconde uma briga em volta da definição do sujeito: quem descoloniza quem? Os africanos resolveram o assunto cirurgicamente: expulsaram a palavra do vocabulário.

Foi apenas em Setembro de 1974 que tomou posse um governo de transição com presença maioritária moçambicana. A grande maioria dos 250 mil portugueses que vivia em Moçambique tinha sido profundamente alienada do sentimento da História e da inevitabilidade das mudanças. Por isso, para eles o que se passou foi uma “traição”. Nos meses que se seguiram essa incompreensão geraram-se movimentos sociais violentos, revoltas que só por milagre não redundaram em banhos de sangue.

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A maior parte desses portugueses apontou a sua revolta contra os progressistas e revolucionários que em Portugal lideravam o movimento anti-fascista e anti-colonial. Mário Soares concentrou em si os maiores ódios. “Esse homem está-nos a vender aos pretos” – era assim que essa ignorância dava explicação ao processo de negociação do fim da guerra. O acordo de Paz, deve ser dito, só aconteceu formalmente no dia 7 de Setembro de 1974. O fim da guerra colonial só ocorria, assim, cerca de 5 meses depois da chamada Revolução dos Cravos. Em tempo de guerra, cada dia conta como um vida inteira.

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Em 1994, a minha editora em Portugal quis comemorar os vinte anos do 25 de Abril. Pediram-me um texto. Eu resisti. E expliquei-me: o nosso 25 era outro, a nossa festa maior era a Independência nacional. E tive que repetir a explicação para vários órgãos de informação portugueses. Nem sempre fui bem entendido. Havia aqueles que ficavam magoados e levavam a peito. Acreditavam que havia no meu relativo distanciamento uma ponta de ressentimento. Mas não. Não se pode pretender que os povos africanos reajam da mesma que os portugueses à celebração do 25 de Abril. Aquela festa também é nossa, é verdade. E celebramo-la. Mas com o respeito de quem não é dono da festa mas convidado. Também nós não esperamos que os portugueses celebrem a festa da Independência do mesmo modo como nós o fazemos.

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Imagens (da guerra até à independência) intercaladas no texto : guerrilheiros da Frelimo colocam uma mina contra a circulação da tropa colonial; coluna militar portuguesa conduz uma leva de prisioneiros moçambicanos suspeitos de pertencerem à Frelimo ou apoiarem os guerrilheiros; após o 25 de Abril, militares portugueses e guerrilheiros da Frelimo confraternizam e misturam-se em acções comuns; Samora Machel proclama a independência de Moçambique.

Publicado por João Tunes às 16:48
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1 comentário:
De IO a 13 de Maio de 2007
Obrigada por este 'post'!
IO

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