Segunda-feira, 7 de Maio de 2007

OS ANTI-HERÓIS PELA TORTURA (RE-POST COM DEDICATÓRIA)

001c0ax7

 

Sobre este post, em que alvitrei a importância de se historiar, no contexto da resistência antifascista, o capítulo dos que não suportaram a prisão e a tortura aplicadas pela PIDE, a fim de permitir que também os anti-heróis entrem na galeria da realidade dos tempos do salazarismo porque dela fazem parte, recebi um simpático comentário de Joana Lopes (*) que deu conta de um seu projecto de trabalho neste sentido. Dedico-lhe, como retribuição à sua simpatia companheira e com os votos de sucesso ao seu trabalho, este meu velho post, editado há mais de três anos, que agora republico (com ligeiros retoques):

 

 

O João Oliveira (**) era o líder incontestado da acção política antifascista no Porto ao nível do movimento associativo estudantil e das actividades culturais. No último ano de Engenharia, excelente aluno, aparentava mais idade do que a real, corpulento, rosto sulcado por rugas fundas, cabelo cortado quase rente, eriçado e com muitas brancas precoces, enorme coragem física, descuidado no vestuário e com uma calma a toda a prova perante as situações mais difíceis. Tinha sempre um sorriso sincero, os olhos brilhavam-lhe quando ouvia uma boa estória, transpirava energia e afectuosidade disponível, determinação e vontade de viver. Gostava mais de ouvir que de sentenciar, incentivava a discussão e depois guardava uma opinião lá para o fim que quase sempre era adoptada como a síntese perfeita dos nossos debates.

Originário de Aveiro, tinha andado no Técnico onde semeara uma série de discípulos. Depois foi forçado a transferir-se para o Porto e ali tornou-se rapidamente o dirigente aceite dos estudantes antifascistas. De uma maneira informal porque convinha que o João não aparecesse com responsabilidades publicamente assumidas. Formava uma dupla bipolar com o Edgar, também estudante de Engenharia e também activíssimo, mas que era o seu oposto pelos tiques e pela antipatia sentenciosa. No Porto, tal como já tinha acontecido no Técnico, o João era a referência e o guia.

No final de 1968, eu estava em Mafra e no meu segundo trimestre militar, já a tirar a especialidade de transmissões de infantaria, quando o João Oliveira entra como recruta cadete para oficial miliciano. Rapidamente juntámos as pontas da malta do associativismo estudantil que andava por Mafra e formámos um grupo de agitação contra a guerra colonial que reunia em Lisboa aos fins de semana a preparar as nossas acções. Saídos de Mafra, cada um do grupo foi para o seu lado. O João foi parar ao quartel de Bragança e rapidamente mobilizado para bater com os costados em Moçambique. Antes de eu embarcar para a Guiné, soube que o João tinha desertado e passado à clandestinidade. Perdi-lhe o rasto, é claro.

Passados uns tempos após ter voltado da Guiné, em 1971, um sujeito que não reconheci de imediato, vestido tipo empregado bancário, usando óculos com lentes muito grossas e com cabelo preto intenso e bem penteado, bate-me à porta da minha casa em Benfica. Não lhe reconheci o rosto, mas identifiquei facilmente o sorriso sereno e aberto e o modo de falar calmo e arrastado. Os sorrisos não têm disfarce. Pois era o João Oliveira a perguntar se podia entrar. Porta fechada, um abraço demorado e comovido. Apresentei-lhe a minha companheira e a minha filha Catarina, então com os seus dois anos de idade. Conversámos pela noite dentro, sem agenda e sem perguntas indiscretas e desnecessárias da minha parte. Falei-lhe da minha experiência na Guiné, ouviu atentamente e pediu-me que passasse a escrito um ou outro aspecto que lhe pareceu mais relevante. Sabia praticamente tudo sobre a minha vida particular e profissional e as actividades que eu desenvolvia ligado ao cinema. Quis saber quais eram as minhas leituras. Falei-lhe que andava à volta do Lukacs e dos seus conceitos sobre a estética realista, ele desaprovou com um ligeiro abanar de cabeça, o tipo não se tinha portado bem na Hungria em 1956, em que se deixara embeiçar pela "contra-revolução". Ofereceu-me, para "reeducação", um exemplar clandestino do "Rumo à Vitória" do Cunhal e recomendou-me o seu estudo, ao mesmo tempo que me entregava um maço de "Avantes" para distribuir. Pediu para dormir em minha casa, arranjou-se um remedeio e ele partiu manhã cedo sem deixar rasto. Voltou várias vezes a minha casa e os convívios e dormidas foram-se repetindo, passando a contar, como hóspede ocasional na minha casa, um perigoso e procurado "revolucionário clandestino e desertor". A Catarina deixou de o estranhar. Cedo percebi que ele não subia de elevador até ao meu andar. Ficava dois andares acima ou abaixo do meu e depois completava o resto do trajecto pelas escadas. Fui mantendo com ele a relação que alguém tem com a sua referência maior, a figura de um ídolo.

No princípio de 1974, a notícia corre célere por Lisboa. A Pide tinha apanhado o João Oliveira. Tomam-se algumas precauções da praxe. Nada de especial que o João Oliveira era dos que não rachavam. Sabe-se que está a ser selvaticamente torturado. Organizam-se protestos a exigir a sua libertação. O martírio do João Oliveira ajudava a completar a santidade de um mito da minha geração estudantil. Dentro de pouco tempo, uma vaga de prisões assola Lisboa. O João Oliveira tinha "rachado". O mito não era santo. Faltava, mais ou menos, uma semana para o 25 de Abril.

Foi uma tristeza funda ver João Oliveira sair de Caxias, a seguir ao 25 de Abril, cabeça baixa e lágrimas nos olhos, ao lado dos camaradas que ele tinha denunciado e agora eram tratados como (os) heróis, enquanto lhe cabia entrar, quando consumado o essencial do objectivo a que tinha entregue a vida, o melhor da sua vida, na marcha da ala da vergonha maior, a dos "traidores", esses que foram os maiores derrotados de Abril (em muitos julgamentos sumários dos revolucionários radicalizados pela cheiro da tinta fresca da opção comunista, atrás mesmo da fila fedorenta dos bufos e pides).

Andou por aí, na Revolução, a curtir a sua vergonha. Arranjaram-lhe, porque fizera um relato preciso e circunstanciado sobre o que falara quando saíu da sala de torturas, um lugar na assessoria do grupo parlamentar do MDP/CDE. Soube que consumia as noites pelos bares da Praça das Flores. Ainda o encontrei uma vez num bar ao pé da Assembleia da República. Tinha as rugas mais fundas, o sorriso e o brilho nos olhos eram frouxos, o vestir era ainda mais desleixado que nos tempos do Porto e acompanhava um rancho de jovens companheiras desinibidas e apetitosas. Dei-lhe um abraço e tentei oferecer-lhe um sinal de olhar discreto a querer dizer “amigos como dantes”. Mas senti que gostou e não gostou de me ver. Disse-me repentinamente adeus com um gesto brusco e imperativo. Não insisti. Respeitei-lhe o direito a fazer o seu luto. Ainda hoje respeito. Nas epopeias de libertação, também cabem os não heróis, mesmo os anti-heróis, aqueles que cairam engolidos pelas frinchas abertas entre as tábuas da ditadura, da luta e da libertação.

 

(*) Joana Lopes tem um excelente blogue a que recomendo uma visita e é autora do livro “Entre as brumas da memória – Os Católicos portugueses e a ditadura”, Edições Âmbar.

 

(**) – Nome alterado.

Publicado por João Tunes às 12:16
Link do post | Comentar
4 comentários:
De vasco morais a 7 de Maio de 2007 às 15:14
Apenas duas informações que julgo fazerem falta a este «post» :

1. A notícia de que «João Oliveira» tinha prestado declarações à Policia, embora tivesse sido algo tardia em relação à sua ocorrência, soube-se pelo menos dois ou três meses antes do 25 de Abril e tanto assim é que os denunciados o sabiam e estavam ao corrente da possibilidade da sua iminente prisão, a qual só viria a ocorrer no dia 18 de Abril. A verdade é que a PIDE não teve pressa em os prender, certamente na esperança de apanhar mais gente na rede.

2. João Tunes pode não o saber mas o facto tem significado e desmente certas caricaturas em que J.Tunes por vezes é reincidente: é que, para aí talvez há 10 anos ou mais, o «João Oliveira» foi novamente aceite como membro do PCP.
De marcelo ribeiro a 8 de Maio de 2007 às 21:50
Também conheci gente que se foi abaixo. Nem todos aguentavam, claro e isso não é tanto culpa do que confessa mas mais de quem o atraiu e o controlou.
Agora, entre a confissão (com indicação de outros) e a denuncia, a colaboração activa vai um abismo. E aqui queira-se ou não há um juizo de valor a fazer. O que condena a traição consciente e assumida.
Eu tambem conheci um joão mas R. e sempre pensei que se lhe tinha exigido demasiado. A corda foi demasiado tensada e partiu, Mas este joão não se tornou um denunciante e muito menos um bufo. essa é toda a diferença.
De Anónimo a 8 de Maio de 2007 às 21:51
Comentário apagado.
De leonor simões a 9 de Maio de 2007 às 17:01

João Tunes e Vasco Morais não sairam deliberadamente do «João Oliveira». Mas tinha de vir o Marcelo Ribeiro dizer que conheceu um João mas que era R. Como dizia o Herman , «não havia nexessidade ». Se a parvoíce e a irresponsabilidade pegam, letra a letra, ainda vamos ter estampado no blogue o que, com inteligência e sensibilidade, o seu autor não quis fazer.
Depois, Marcelo Ribeiro deixa ainda a espantosa sentença que a culpa não é tanto de quem confessa mas «de quem o atraiu e controlou».
De facto, como os mais velhos sabemos, já na altura havia um aparelhinho que se dava a soprar aos comunistas para avaliar o seu futuro grau de resistência à prisão e à tortura. Creio que se chamava não sacanómetro (que não vem a este caso) mas torturómetro .
De JMC a 9 de Maio de 2007 às 18:23
Felizardos os revolucionários que à fé num ideal, por mais estapafúrdio como é o comunismo, juntavam a coragem física para enfrentar os esbirros da polícia política.
Nunca compreendi muito bem, nem aceitei, o opróbrio com que o PC tratou os seus "fracos". Fruto, parece-me, da idealização do partido como vanguarda da classe e como casta de heróis predestinados (alguns, certamente, fabricados).
Semelhante humilhação não era se não reveladora de quão pouco conhecia o PC a natureza humana. Afinal, mais um mito a juntar ao outro, bem mais grave, de se arrogar conhecer a realidade social e o seu devir.
Mas quem por lá andou e não foi posto à prova não deveria atirar qualquer pedra, porque imperfeito é o homem e múltiplas as suas fraquezas.

Comentar post

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO