Quarta-feira, 25 de Abril de 2007

HÁ 33

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Estava de vigília nessa noite. Não porque sonhasse que o regime ia dar o berro ou sequer abanar mas porque a Catarina, então com três anos e porque de tão afeiçoada aos micróbios volta e meia emprestava-lhes a garganta como abrigo, teimava em não deixar que a febre baixasse. Ainda o sol não tinha rasgado pela manhã, um meu vizinho e amigo desatou aos murros à minha porta e, muito pálido e cheio de tremuras, deu-me as novas e ligámos o rádio. “Estamos lixados, o Kaulza saltou!”, concluímos rápido. Mas qualquer coisa nos comunicados dos militares não condizia com o susto. Os comunicados e as canções.

 

Tudo voltou a piorar nas expectativas com o aparecimento sinistro da figura patibular do Spínola na televisão e como comandante da coisa. Ao Kaulza não o conhecia, só sabia que era um ultra. Ao general do monóculo tinha-o aturado como comandante na Guiné e sabia bem demais da sua catadura militarista prussiana a puxar para o nazistóide. “Estamos fritos, e a mim só me faltava apanhar com o Spínola outra vez”, foi a análise política mais completa que consegui fazer.

 

Como andava metido nas coisas do cinema, cineclubismo e crítica de cinema, telefonaram-me para ir urgentemente ajudar a ocupar a sede da Censura em São Pedro de Alcântara. Foi a minha primeira tarefa revolucionária. Fui, com gosto, para mais os tipos daquele covil apalaçado não falhavam semana em que não me cortassem ou retalhassem as minhas escrevinhadelas para o semanário em que colaborava. Escadas subidas de roldão, misturado com cineclubistas, realizadores, malta da câmara e do som, jornalistas, escritores, críticos, dou de frente com o comandante militar da ocupação, um capitão novito. O nosso cumprimento descambou de imediato num abraço forte. Ele havia sido, ainda tenente, meu instrutor militar em Mafra. Então, seis anos antes, tínhamos enturmado bem – ele ensinava-me as tretas marciais e eu pagava-lhe a minha militarização forçada com umas noções de marxismo e tentava explicar-lhe as lutas dos estudantes, mais as dos operários e dos camponeses. Ali, na sala solene onde na véspera se dirigia a Censura, agora deserta de censores, abraçado ao jovem capitão meu antigo aluno de rudimentos de marxismo explicado a militares, percebi que Spínola não era tudo. Até podia dar numa revolução. A acreditar no exemplo dos meus méritos pedagógico-doutrinários a que estava abraçado, dava de certeza, convenci-me a mim próprio, cheio de vaidades revolucionárias.

Publicado por João Tunes às 00:48
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