Terça-feira, 24 de Abril de 2007

COIMBRA E O HUMOR

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Confesso-me um não agradado, desde sempre, com Coimbra. Ali, o ar citadino pesa-me, o tédio chega-me mais depressa que noutra nossa cidade e desconfio qualquer coisa de canibalesco próprio de uma urbe tão virada para dentro de si que empunha a ameaça de se auto-devorar, engolindo-nos por arrastamento. É um preconceito, claro. Então, que a confissão me sirva de atenuante.

 

Mas o contraditório vem de, em paralelo com a aversão preconceituosa revelada, os três autores actualmente expostos na blogosfera cujo humor crítico, elaborado e requintado mais aprecio são três “coimbrões”: Rui Bebiano, Marcelo Ribeiro (M.C.R.) e Luís Januário. E de cada vez que, deliciado, os leio, pergunto-me: como é possível?

Publicado por João Tunes às 00:22
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8 comentários:
De carlos freitas a 24 de Abril de 2007
É sempre possível, em Coimbra, não existem sombras e as árvores vivem de pé. A autofagia é coisa que desconhecemos, mais dadas lá para a capital. Autofagia é sempre possível, ainda estamos na fase de nos compreendermos a nós mesmos, para melhor entender o mundo que nos rodeia.
Mas volte sempre, nunca se fique apenas por impressões, mesmo que essas sejam de anos. Coimbra, não tem ar citadino, esse é rarefeito, suba ao monte e veja os moinhos de Mestre Vitorino Nemésio e veja que Coimbra não é uma cidade é um mundo, se o conseguir ver.
De João Tunes a 26 de Abril de 2007
Não leia com muita severidade o meu apontamento. Um passante nunca conhece onde está. Gostando ou não, nunca passa além do preconceito. Se eu confessei falar pela voz do preconceito, não tenho direito a perdão? E esse "lá para a capital" não é um preconceito provinciano? Para mais, com destinatário errado que eu ... sou transmontano. A sua visita e comentário foi um prazer.
De carlos freitas a 26 de Abril de 2007
Claro, também só "refilei" e sem carácter severo. Quando me referi à capital, não foi por provincianismo - eu que até sou "alfacinha de gema" nascido em Alfredo da Costa e morador no velho Bairro de Alvalade, antes de ter marchado até à Parede.
Ora, quando me referi à capital do reino e ao termo autofagia pretendi liga-lo a uma certa elite, habitualmente conotada com a capital, a qual deixa entrever os alicerces do curioso edifício de conceitos confusos e preconceitos difusos que é a mentalidade de uma inteligenzia cujo discurso supostamente cosmopolita reduz o país a uma pequenez mais mesquinha e auto cêntrica que a sua capital (onde, em geral residem), de onde nunca se deslocam, a não ser a Nova Iorque.
Nesta minha explicação não o incluo a si, que o leio há muito tempo. Considero-me, se tal me é permitido, filho de boa gente e como tal, vivendo em Coimbra, desde que me conheço como gente, sou hoje gente do mundo e deste mundo onde habito e resolvi terçar armas pela cidade. Talvez não me tenha explicado convenientemente, e por tal peço desculpa, mas perante a bela descoberta que o João Tunes, anunciado ter feito cá em Coimbra, quanto a Rui Bebiano, Luís Januário e ao Marcelo Ribeiro e dos seus mais que excelentes blogs, a cidade merecia, só por isso, só por essa descoberta, uma outra fotografia.
O seu post dizia tudo. Claro está.
Até a fotografia que colocou me fez rir, quando me lembrei das palavras de Ramalho Ortigão, que também não gostava do "ar de Coimbra", e que apelidava os "lentes" como criadores de "uma atmosfera especial de pedanteria , de rigor e de troça", num local - A Universidade - onde se "aspirava vagamente o cheiro dos sapatos (imagine ao que ele se referia!) e das velhas batinas gordurosas".
Era só isso, agora com mais tempo e discernimento. Espero que eu igualmente esteja perdoado.
Um Abraço.
Carlos Freitas

De João Tunes a 28 de Abril de 2007
Bom, parece que percebeu, pela foto, que este post era, sobretudo, uma provocação amiga aos três referidos "coimbrões" do bloganço com quem sinto afinidades e lhes admiro a escrita, sobretudo pelo uso do humor (esse mesmo humor que tanto falta a um outro ilustre blogger coimbrão, este um intrépido defensor da cidade e visceral anti-alfacinhas, e que sendo um admirável observador da realidade que muito estimo enquanto tal, não perde a solenidade de "lente", talvez por dar aulas na UC). Assim, os "lentes" saltaram para a imagem por galhofa com 3 e alfinetada num quarto. Como já fizemos as pazes, permita que lhe confesse um episódio que muito me liga a Coimbra (afinal...). Altura houve (talvez 23 anos atrás) em que dispondo-me a dar uma facada no matrimónio com uma apetitosa senhora casada que me achava sexy, dispondo-se esta a partilhar alegrias de cama, propôs que nos encontrassemos algures fora de Lisboa mas na condição de irmos uns dias em "lua-de-mel" para um sítio em que não houvesse alma que conhecesse um e outro e combinando-se lá iríamos ter separadamente. O local saltou-me logo: em Coimbra (era, provavelmente, a única cidade portuguesa onde não corria o risco de encontrarmos alguém conhecido)! E assim foi, cada qual por sua vez e seu meio, lá estivemos dois dias e duas noites enfiados num quarto de um Hotel de Coimbra ao lado da Estação perto do centro. Concluindo: Coimbra não me é tão estranha como aparentei, até já foi cidade de excelente e proveitosa alcova. O problema é fora de alcova e sobre isso peço-lhe que leia a resposta que coloquei ao comentário do Marcelo Ribeiro. Grande abraço (e já vão quatro blogo-"coimbrões" bacanos).
De carlos freitas a 28 de Abril de 2007
Como deixa escrito Coimbra, é um mundo...onde até podemos estar e passar completamente despercebidos. Olhe e para rematar, já que se dispôs a relatar, conto-lhe esta, a última vez que pretendi fazer o mesmo...em Lisboa, saí de casa e para meu espanto no local, onde havia estacionado, estava outro veículo, que não o meu, por sinal até de categoria superior, ainda pensei que a troca tivesse algum carácter benévolo, mas chaves que tinha na mão não serviam naquele. Chegado à conclusão que me haviam roubado o carro, fiquei como imagina! Mas o mais interessante é a parte final, não é que recuperei o carro, ao fim de um par de horas, e num domingo! Coisa verdadeiramente escandalosa! Por essas e por outras é, que agora, quando vou a Lisboa, vou sempre acompanhado!
Um Abraço
De marcelo ribeiro a 24 de Abril de 2007
Meu Caro João

A gente vai ter de conversar sobre isso e eu até já ando a pensar num texto sobre o assunto.
Coimbra foi em meus tempos multipla. E por isso conservo dela alguns agravos e fartas memórias da alegria. E de luta. E de camaradagem frente ao Portugal espesso e inntolerante. A gente há-de conversar sobre isso. eu nem sabia que o Luis
Carlos Januário tinha um blogue mas vou já espreitar. Idem quanto ao rui Bebiano que só há pouco conheci. em Coimbra. E a falar das grandes crises dos anos 60.
Um abraço
De João Tunes a 26 de Abril de 2007
Caro Marcelo,

Claro que tenho um "défice" de Coimbra, enquanto, ao contrário, vivi em Lisboa e no Porto. Talvez porque as academias nestas cidades, anos sessenta, fossem mais espalhadas sobre as cidades e mais nelas impregnadas, a capacidade do forasteiro "entrar, beber e sentar-se" fosse mais acessível. Em Coimbra, por razões próprias, a vida académica era mais concentrada e em maior corte com o "mundo futrica". E depois, a pose, os rituais e as praxes, espantavam e intimidavam (por vezes, gerando repugnância) a caça estranha. Mas entendo perfeitamente que, para os de "dentro", o resultado fosse uma ligação e camaradagem muito mais intensas e totais, em que a mistura da luta com os afectos fosse muito mais íntima. Assim, é com fascínio que leio sobre 62 e 69 em Coimbra, sobretudo os depoimentos soberbos recolhidos em livro pela Manuela Cruzeiro e pelo Rui Bebiano. E se falo do meu desencontro com Coimbra, essa é uma forma de vos homenagear (e não há homenagem sem sinceridade). E não se ofendam, por amor de deus e de alá. Grande abraço.

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