Sábado, 21 de Abril de 2007

A XENOFOBIA EUROPEIA E A ENCRUZILHADA PORTUGUESA

0019seac

 

Le Pen arrecada votos ao gritar "La France aux Français", enquanto o NPD arregimenta cobardes assassinos nocturnos de imigrantes berrando "Deutschland den Deutschen". Cá, o PNR implantou um cartaz a proclamar “basta de imigração”. Se os destinos de maior concentração da emigração portuguesa são a França e a Alemanha, como entender a amizade fraternal e militante entre as três organizações (a FN e o NPD estavam convidados para o “conclave europeu” por iniciativa do PNR que esteve prevista para Lisboa e foi anulada à última da hora)? Obviamente, a explicação encontra-se na “cadeia da emigração” e na subalternização assumida pelo PNR relativamente às suas congéneres neo-fascistas europeias, numa repartição da divisão internacional da xenofobia. Se as xenofobias francesa e alemã atingem centenas de milhares de portugueses (embora os alvos principais sejam os magrebinos em França e os turcos na Alemanha), a modalidade portuguesa pretende atingir africanos, brasileiros e ucranianos e sem hipótese de ricochete sobre as ínfimas comunidades francesa e alemã que vivem e trabalham em Portugal (e os que cá estão têm estatutos profissional e social muito superiores à média portuguesa).

 

Esta ligação de comunhão e solidariedade internacionalista entre a FN, o NPD e o PNR é um aparente contrasenso, em termos do absurdo de haverem “nacionalismos internacionalistas” (valores intrinsecamente repulsivos entre si) e pelo ricochete encadeado nas várias vítimas-alvo da exclusão contra os imigrantes (*). A subalternidade cobardola e servil do PNR relativamente às suas congéneres dos maiores países europeus explica parte da contradição, mas o fenómeno justificativo é mais vasto e mais fundo, melhor, mais expressivo. Porque, ao fim e ao cabo, a “xenofobia portuguesa” (a difusa internamente em algumas camadas da população, praticamente a mesma que espalha por aí a “saudade de Salazar”, e que bolsa ódio ainda contido contra os imigrantes, mais a que contamina parte importante das nossas comunidades de emigrantes e seus descendentes, de que é exemplo o facto de a maioria significativa dos portugueses e dos franco-portugueses a viverem em França apoiarem Le Pen ou Sarkozy), com uma notável expressão de duplicidade de julgamento dos fenómenos migratórios. Cá, depreciam-se os africanos, os brasileiros e os ucranianos, como se essas pessoas, fugindo à fome e à miséria e procurando amealhar aqui os seus “pés de meia”, não imitem hoje o que largas centenas de milhares de portugueses fizerem ontem e estão, outra vez, a reaprender a fazer face às dificuldades internas actuais. Quanto aos nossos muitos emigrantes na Europa que se deixaram contaminar pelas xenofobias locais, naturalmente que contam com um benefício de “casta de escravos”e das hierarquias entre xenofobia e racismo, em que a segunda irracionalidade é mais forte e violenta que a primeira. Um português em França, que seja simpatizante da xenofobia racista francesa, julgará, não sem alguma sabedoria interpretativa, que, por ser branco, europeu e católico, está livre do aperto porque o ódio racista é especialmente dirigido contra magrebinos e negros e, se o alimentar, não só sobe na visibilidade como “integrado” como ainda alivia as costas. E, na Alemanha, idem enquanto os alvos principais forem os turcos, convindo que assim continue e se reforce.

 

Provavelmente, a duplicidade da xenofobia e racismo à portuguesa, nas suas expressões interna e emigratória, não escapou ao PNR como capital de simpatia e condescendência a explorar. E a súbita erupção da popularidade de Salazar (um fenómeno que muitos, apressadamente, desvalorizaram com um encolher de ombros), a descrença na democracia, na política e nos políticos, o alastrar da criminalidade violenta e do desemprego e a crise económica e social, mais os ressentimentos sociais que se acumulam e alastram pela política cega e mesquinha do governo na distribuição dos sacrifícios e racionalizações, sem a contrapartida de um horizonte de termo nem um projecto de mobilização social para construção de um futuro sorridente, fizeram o resto para que o neo-fascismo à portuguesa achasse que era a hora de aparecerem e multiplicarem-se (se não em militância, em cumplicidade e influência mitigada). Até pode acontecer que o PNR conte como seu potencial proveito pescarem amanhã nas águas do rasto de ressentimento hoje cultivado pela extrema-esquerda, sobretudo pelo PCP e pela CGTP, no momento em que surgirem às “massas descontentes” como uma “vingança populista” mais imediata e eficaz que os revolucionários sem hipótese de revolução à marxista-leninista (em França, muitos milhares de eleitores de Le Pen vieram do eleitorado do PCF). Talvez o PNR, por ser dirigido por activistas que aparentam serem básicos, não tenha inteligência política e estratégica para completar o caminho do populismo extremista, racista e xenófobo agora iniciado. Mas, outros, aproveitarão os restos deixados na mesa e tentarão completar a refeição.    

 

(*) Leia-se o excelente exercício de extensão até ao absurdo do “efeito de ricochete” do slogan do PNR feito pela Helena Araújo, “falando” como um xenófobo alemão a olhar a comunidade imigrante portuguesa:

 

Ou em alemão, numa praça central de Hamburgo, Estugarda, Colónia: "Deutschland den Deutschen".

Na Alemanha, justamente: mandavam os portugueses para a terra deles, criavam-se automaticamente 170.000 postos de trabalho para os alemães desempregados. E logo os portugueses, que não aprendem a língua, e têm uma cultura esquisita, sempre a comer um peixe salgado fedorento que empesta o prédio inteiro, além daquelas garrafas enormes de vinho, não fazem uma refeição que não bebam vinho. E as mulheres, que horror - fazem questão de trabalhar, em vez de tratarem dos filhos como deve ser, coitadas das crianças que crescem nas mãos de estranhos, sabe-se lá quem as educa!, e para quê?, para com o segundo salário comprarem uma casa de férias em Portugal. Como se isso fosse mais importante que dar às crianças uma infância feliz e equilibrada - que nojo de cultura! E mais: em vez de mandarem os filhos para a universidade, mandam-nos trabalhar! Como se a instrução fosse um luxo facultativo! Eles não sabem que a instrução é a condição primordial de sucesso de um país?! E até consta que batem nos filhos.
E nós a gastar os nossos euros cada vez mais escassos (oh, saudades do marco!) a tentar remendar problemas que não são nossos, ele é professores e cursos especiais para lhes ensinar a nossa língua, ele é assistentes sociais para tentarem a integração, quando há tantos alemães honrados que precisariam muito mais dessa ajuda, mas ficam sem nada, porque este Estado decidiu dar mais aos portugueses que ao seu próprio Povo.
Esta gente está a minar o sistema alemão por dentro - barricados nos seus guetos, enchem o nosso país de jovens semi-analfabetos, gente que nem fala bem alemão nem quer aprender. E é nas mãos desta ralé que o nosso país vai cair?
Para piorar, fazem boicote económico: ganham aqui o dinheiro, e vão gastá-lo na terra deles. O que é uma sangria para o nosso sistema económico, que bem precisa de mais consumidores e mais capital a circular.

Publicado por João Tunes às 01:00
Link do post | Comentar
2 comentários:
De RosaLatina a 25 de Abril de 2007
BRAVO. Excelente análise, excelente artigo.

Comentar post

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO