Sábado, 10 de Março de 2007

IRA COM ESPUMA, BEM TIRADA

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Leio o Rui Bebiano:

Nos anos sessenta, a larga maioria das pessoas que, neste país, se importava com aquilo que acontecia para lá das fronteiras marítimas e terrestres – a oposição de esquerda, mais atenta e politizada – acompanhava o conflito na Irlanda do Norte tomando, sem pestanejar, o partido dos «bons» e dos pobres, que eram necessariamente «os católicos». É, aliás, interessante verificar hoje como a maior parte da imprensa portuguesa da época, indefectivelmente católica mas avessa, acima de tudo, à guerrilha urbana do IRA, tomava o partido dos «maus». Isto é, dos ricos «protestantes». Ninguém, de um lado ou do outro, falava então do rosto simpático do Sinn Féin. Como não se falava de um comportamento civilizado dos unionistas.

De entre estes destacava-se, nas primeiras páginas, o perfil rude e colérico do reverendo Ian Paisley, hoje com 80 anos de idade e desde há décadas a voz mais conhecida dos partidários de um Ulster sob o domínio da coroa britânica. Paisley, o inflexível provocador, era, para a esquerda europeia, o arqui-vilão irlandês, a figura do demo em traje de pastor presbiterano, uma chaga na ilha de S. Patrício. Por este motivo, é ainda quase impossível, para muitas das pessoas que possuem uma «memória à esquerda» desse tempo, imaginá-lo agora como o chefe de um governo da Irlanda do Norte capaz de partilhar o poder com Gerry Adams, Martin McGuinness e os antigos «iristas» reconvertidos ao fato e à gravata. Mas parece que é isso mesmo que vai acontecer. Mudam-se os tempos e também as vontades.

E só posso parar um bom bocado a lembrar e interrogar esse velho mito da Esquerda que, entalada entra o Bom e o Mau, imaginava o Ulster como uma Sierra Maestra aqui perto, mar acima e rumo céltico marcado, com uma Guiness e muitos prados verdes, por bem chovidos, à espera. O colonialista bem identificado, o oprimido bem agasalhado com a metralha limpa do IRA. Depois, o tempo mostrou a falácia, evidenciou como o hábito e a vontade de disparar estavam para além do ideal independentista, mas ainda assobiando para o lado perante a evidência do fundo catolicista integrista que, descontada a demagogia guerrilheira, conservavam o fanatismo. A pouco e pouco, o trevo foi desfolhando e mostrando que se amparava numa cruz sotaina a arrotar a gás carbónico da cerveja em excesso.

Agora, o mostrengo Paisley ganha aos votos. Vai fazer coligação com o Sinn Féin. Se se vão as palermices utópicas, que não falte uma Guiness larga, fresquinha e bem tirada para esta mesa, a de um canto, à esquerda de quem entra.

Publicado por João Tunes às 00:21
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