Sexta-feira, 9 de Março de 2007

AS OBRAS ESCOLHIDAS DE CUNHAL

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Comprei e comecei a ler o primeiro tomo das “Obras Escolhidas” de Álvaro Cunhal (edições Avante), referente ao período 1935-47.

 

Tratando-se, em grande parte, de materiais dos arquivos reservados do PCP (a que os historiadores continuam a não poderem aceder), sendo próprio da época que os textos fossem escritos sob pseudónimos ou nem sequer assinados, quando o espólio do PCP for acessível a estudiosos independentes, saber-se-á se os textos “escolhidos” foram correcta e completamente transpostos e se textos paradigmáticos do pensamento de Cunhal naquela época não foram significativamente esquecidos. Porque, nestas matérias, a “escola” dos editores, e a forma como “gerem” arquivos e a propaganda, só justifica a prevenção.

 

De qualquer forma, é inegável o interesse da edição. Porque a ascensão e a afirmação de Cunhal no PCP deu-se no período referido (em 1949 seria preso, de onde só sairia por fuga da prisão em 1961 e para assumir a liderança incontestada no partido e a proeminência no movimento comunista internacional). Aliás, é no período de 1935 a 1961, depois só ligeiramente perturbado pela cisão maoísta de 1964, em que a liderança e o pensamento político se tornam monolíticos, é quando o PCP comporta não só uma viva disputa de liderança na sucessão a Bento Gonçalves (depois de 1936, confinado ao campo de Concentração do Tarrafal, onde viria a morrer) como num vasto campo de diferentes e divergentes linhas ideológicas e programáticas. Com o contexto peculiar de o PCP se encontrar na clandestinidade, fortemente perseguido e excluído do Komintern (por suspeitas de estar profundamente infiltrado pela polícia) e receber de uma forma descoordenada e nebulosa os constantes zigue-zagues do Komintern e as profundas mudanças, reviravoltas e fixações patológicas na política interna e externa de Estaline. Coincidente com a mortandade patológica das "purgas" na URSS e em  que dezenas de milhares de comunistas (soviéticos mas também de outras nacionalidades), sobretudo seus quadros, alguns do nível da máxima responsabilidade, foram sumariamente fuzilados e que somados dão a Estaline o título de campeão mundial, com record absoluto em todos os tempos, de assassino de comunistas (batendo largamente Hitler). E é, neste período, que se dá a cristalização estalinista do centralismo democrático no funcionamento do PCP, encorpada na reestruturação de 1940/41. De qualquer forma, o período deste I Tomo refere-se a um PCP onde Cunhal estava longe de ser o seu líder guia e incontestado, antes à sua fase afirmativa e ascendente, ao seu laborioso caminhar para se alcandorar até ao domínio absolutista no comando do Partido (como se referiu, esse só seria atingido em 1961). E se é verdade que Cunhal desempenhou neste período de “reorganização” um papel activo e prolixo, esta estalinização do PCP foi repartida com outros dirigentes (sobretudo os que acabavam de ser libertados do Tarrafal, com destaque maior para Fogaça que para Cunhal). A prova de que a “reorganização” e a sua consolidação se deu além de Cunhal, confirma-se pelo seu prosseguimento implacável após 1949, quando Cunhal foi preso pela última vez, juntamente com outra figura chave – Militão Ribeiro (que se suicidaria na prisão).  Após a última prisão de Cunhal, se prosseguiu a “reorganização”, ela fez-se à revelia de Cunhal (sob rigoroso isolamento prisional) e, a partir de 1956 (ano do XX Congresso do PCUS), apesar ou contra Cunhal, de tal forma que a Cunhal não só não é comunicada a realização do V Congresso do PCP em 1957 como não é ouvido sobre as teses nem referido o seu nome e nem sequer incluído no CC eleito. Ou porque o “esquecimento” de Cunhal conviesse a Fogaça (na luta pelo cargo de SG) ou porque se admitia que o fascismo nunca o libertasse e não havia programa feito com garantias de sucesso para a sua fuga. É em 1961, com a fuga de Peniche, liderando uma fracção constituída sobretudo pelos quadros seus companheiros de fuga e com o apoio incondicional do PCUS, que Cunhal derrota definitivamente Fogaça e, retirando putativas tendências de outras disputas de liderança, se afirma, até ao fim dos seus dias de actividade política, em líder supremo do PCP, contextualizado programaticamente no VI Congresso realizado em Kiev em 1964, consonante com a substituição de Krutchov por Brejnev à frente do PCUS e o início do estrelato de Suslov, de onde saiu o PCP e o Cunhal que a grande maioria dos portugueses conheceram desde a chegada da democracia até aos nossos dias.

 

O período deste livro é pois referente à fase polémica (com forte marca zdanovista no campo das artes e das letras) e de afirmação de Cunhal entre os seus pares, alguns mais velhos, mais experientes e mais conceituados. Neste aspecto, uma oportunidade para conhecer um pré-Cunhal daquele que a memória dos portugueses retêm pelo contacto com a sua intervenção no período democrático. Potencialmente interessante? Sem dúvida.

 

Finalmente, esta notícia:

 

"Nos textos do camarada Álvaro Cunhal agora publicados, todos escritos há mais de seis décadas" - o primeiro dos seis volumes, agora lançado, só abarca o período de 1935 a 1947 -,"relevam questões que continuam a ter uma actualidade incontornavel e são uma referência para os comunistas do nosso tempo", sustenta Jerónimo.

 

Dá-nos conta de um tremendo disparate. Ou então de completo desnorte de capacidades de entendimento político. Pior hipótese seria atribuir-lhe sinistras duplicidades na intervenção política de hoje, ao considerar de “actualidade incontornável” posições assumidas, no quadro da fase mais repressiva e fascizante do salazarismo, com a cristalização do PCP no estalinismo organizativo mais chão e por osmose incontornável com a fase mais patológica do estalinismo soviético. É prezar pouco a inteligência e a sagacidade política de Cunhal, prestar-lhe o tributo servil de atribuir aos escritos de Cunhal de 1935-1947 uma qualquer actualidade. Pelo contrário, honrando-se Cunhal que nunca perdeu o pé do contexto, deve dizer-se que ele deve ser lido em confluência com cada época. Será este o caso, como é evidente.

Publicado por João Tunes às 18:49
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