Quarta-feira, 7 de Março de 2007

O OURO SUJO DE SALAZAR

001566d7

 

Um dos grandes emblemas propagandísticos brandidos pelos saudosistas de Salazar, são os lingotes de ouro que ele foi amontoando no Banco de Portugal como se de um Tio Patinhas se tivesse tratado, mas no caso, a amealhar um tesouro gordo deixado como herança à Nação. O que casa bem com o seu conceito do português ideal - o camponês trabalhador e poupado (ele via-se assim, queria-nos assim), com um pé-de-meia amealhado em feiras de galinhas, grelos, nabos e cebolas, vendendo o suor em saldo para gáudio dos comerciantes nababos e membros empenhados da União Nacional, para encafuar as notitas colhidas entre as palhas do colchão conjugal, a que um ou outro arremedo procriador ajudava a acamar entre as folhedo sobrado da última desfolhada do milho.

 

O problema é que o “ouro de Salazar” acumulado, apesar de brilhar tanto como qualquer, foi um ouro sujo. Feito do mesmo lixo com que ele, em artes de sábia manha de camponês seminarista e inteligente, construiu os seus feitos em cima de crimes, castrações, quartos escuros, pequenez no pensar e relegando-nos para um atraso de que ainda hoje não conseguimos recuperar. Porque a origem desse ouro acumulado teve, sobretudo, duas origens nada recomendáveis:

 

- O “ouro nazi”, aqueles lingotes cambiados na Suiça, com que Hitler pagava as importações do Portugal de Salazar (sobretudo: volfrâmio para os seus tanques de guerra e conservas para integrarem as rações de combate da Wermatch) e cuja proveniência foi, essencialmente, dos esbulhos aos judeus escorraçados e exterminados nos territórios conquistados pelo Terceiro Reich.

 

- O “ouro sul-africano” sugado através da colónia de Moçambique e que era um imposto de mão-de-obra em espécie que Salazar cobrava à pró-nazi África do Sul pelos mineiros moçambicanos utilizados nas minas dos afrikanders (aliás, este ouro, valor estabelecido por cabeça de mineiro moçambicano, nem sequer entrava nas contas daquela colónia, era directamente transferido para a “conta central” da sede do Império).

 

Triste só pode ser a gente que hoje nos quer orgulhar deste espólio, mais mafioso que virtuoso.

 

Imagem: Foto de Salazar (*) de braço dado com um dos seus grandes amigos apoiantes - Henrique Tenreiro, aqui fardado de Almirante, o homem de Salazar para o mar, as pescas e o braço naval da Legião Portuguesa.

(*) Como pormenor, repare-se no chapéu todo amachucado que Salazar transporta na mão. Deduzo que, antes, deve ter-se sentado em cima dele. Ou então foi do serviço mal acabado de um "pide" quando verificou que ninguém lhe tinha metido um petardo dentro. 

Publicado por João Tunes às 15:13
Link do post | Comentar

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO