Quinta-feira, 1 de Março de 2007

O TEMPO DOS CARDEAIS GORBATCHOV

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Disse um nosso Cardeal (José Policarpo):

 

“A questão da sexualidade é fundamental, das mais interessantes mas também das mais complexas. Não há sexualidade sem responsabilidade. Mas estamos numa de «faz o que te apetecer que depois resolve-se». Há perigo da sida? Tem solução... Há uma gravidez indesejada? Faz-se um aborto! Mas nunca ninguém levantou a hipótese de educar estes cidadãos para terem uma vida sexual... vá lá, normal!”

 

E disse quase bem. Porque faltou reconhecer que nada ajuda a uma “sexualidade com responsabilidade” que a Igreja Católica, a mesma que restringe o sacerdócio aos homens castos abstinentes, e só com eles continua a manter a pirâmide da sua “nomenklatura”, seja contra a contracepção, permanecendo no seu dogmatismo misógino e só por pudor não decreta mais sobre a “sexualidade … vá lá, normal”, legislando canonicamente sobre o correcto e o incorrecto, o responsável e o irresponsável, a posição santa e a penetração satânica, o orgasmo do bem e o do mal, exactamente quando os fiéis mais precisariam de deus porque se encontram abandonados entre lençóis, a gerirem, sem eucaristia, as leis dos corpos, ao mesmo tempo que têm de lidar com a força subversiva da indómita fantasia que é, afinal, a essência da alma humana.

 

O Cardeal Policarpo é um homem aberto, tolerante, culto e inteligente. Esta sua entrevista, como sempre que fala, é um convite ao prazer de o escutar com vontade de replicar (que é a melhor homenagem que se pode prestar a um orador inteligente). E faz a diferença, a maior diferença, para com a savana da mediocridade paroquiana que domina a praxis da sua Igreja. Mas, ou muito me engano, José Policarpo, com outros, está condenado a ser um “gorbatchov” do Império do Vaticano. O outro, o Gorbatchov original agora tomado como referência, esboroou um Império com a maligna ideia da “perestroika” (não se lembrando que não há bactéria pior para matar o comunismo que a transparência), este, mais uns tantos, é capaz de soçobrar por causa da vitalidade humana, a sexualidade. Um paradoxo este, o de uma Igreja feita para conduzir homens e escangalhar-se pela impossibilidade de viver com as mulheres e entre as mulheres, nunca conseguindo superar o sindroma do nojo e do medo perante a vagina. Mas se, um dia, quiserem apresentar factura pela falência, não têm nada que enganar – dirijam-se ao guichet do “culto mariano”. Estão lá pendurados os preços das sublimações rebarbativas.     

Publicado por João Tunes às 15:51
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