Quinta-feira, 1 de Março de 2007

A FORÇA DO MITO ALFREDO DA SILVA (1)

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Um dos grandes paradoxos no movimento operário em Portugal é a história da atitude para com o patronato industrial. Se este soubesse dosear com habilidade o paternalismo com o autoritarismo, e normalmente fazia-o bem, o patrão teria a contrapartida do reconhecimento agradecido pelo emprego proporcionado e os pequenos e médios “ódios de classe” seriam cobrados à pirâmide das chefias sem chegar a chamuscar o culto pelo dono. O caso da CUF, do Barreiro e de Alfredo da Silva (na foto), será um excelente “case study” do mito patronal no meio operário. E oportuníssimo se tivermos em conta que este ano passam 100 anos sobre o arranque do maior parque industrial português e a maior concentração operária de todos os tempos na então vila do Barreiro, sob inspiração e direcção do maior industrial português, Alfredo da Silva.

 

A obra de Alfredo da Silva, o patrão entre todos os patrões portugueses, a maior de todas as excepções industrializantes concedidas por Salazar à sua visão de predomínio rural e agrícola, é não só glorificada como é objecto de enorme culto agradecido pela esmagadora maioria dos que trabalharam nas suas fábricas. Mais que explorador, ele foi e é recordado como um benfeitor. E, no entanto, Alfredo da Silva foi não só um homem ligado à extrema-direita (apoiou a ditadura de Sidónio e foi amigo de Salazar), como desenvolveu o seu império (industrial e financeiro) à medida do proteccionismo conferido pelo regime do Estado Novo no clássico figurino monopolista, instalou-se no Barreiro pelo seu privilegiado posicionamento na recepção de matérias-primas e exportações, foi base importante da exploração colonial, aproveitou-se das fomes alentejanas para captar mão-de-obra barata, as suas fábricas tinham dentro um posto da GNR, o Barreiro foi, até o 25 de Abril e a par da Marinha Grande, uma vila ocupada militarmente (pela GNR), muitos dos que trabalharam na CUF foram alvo apertado da vigilância da GNR e da PIDE e vários penaram anos nas cadeias políticas do fascismo, por falta de mínima preocupação ambiental, a poluição industrial (sobretudo pelos abundantes fumos ácidos) retirou anos de vida e saúde a todos os habitantes. Por outro lado, a militância comunista sempre foi alta entre os núcleos operários da CUF, ali se realizaram greves duramente reprimidas, o “Avante” clandestino era regularmente distribuído e lido e, ainda hoje, o Barreiro vota maioritariamente PCP (após um curto interregno em que a vitória foi dada ao PS). Nada disto obstando que Alfredo da Silva tenha, no Barreiro, nome em Avenida, dado nome a Escola Secundária, nome em Estádio de futebol, nome em navio da marinha mercante, museu e até Mausoléu (a lembrar os mausoléus de tipo estalinista, ficando incólume e como monumento quando arrasaram o cemitério onde estava colocado). Em todo o processo revolucionário, numa das terras de maior tradição e afirmação revolucionária, autêntica fortaleza comunista, nunca um dedo se levantou para questionar ou atrever-se a desmontar o culto por Alfredo da Silva por parte do povo vermelho do Barreiro. E, no centenário que agora passa, lá temos a Câmara Municipal, dirigida por um membro do CC do PCP, em conjunto com os herdeiros de Alfredo da Silva, a deitarem mãos à comemoração da efeméride da instalação da CUF (agora, Quimigal) no Barreiro. O que demonstra a tremenda força praticamente unanimista do mito reverencial para com Alfredo da Silva, o patrão benfeitor para os seus operários. E que ninguém se atreve beliscar. Como se de um santo padroeiro se tratasse.

 

Paradoxal e interessante como, ainda hoje, já com a maior parte das fábricas desmanteladas, para as pessoas do Barreiro, as figuras de saudade e admiração mais reverenciadas são, em idêntico nível de dedicação afectiva, Alfredo da Silva e Álvaro Cunhal, o maior monopolista e o principal lutador contra os monopólios. É também de paradoxos como este que se faz o desenho ideológico e mitómano do movimento operário.  

Publicado por João Tunes às 02:41
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8 comentários:
De ana a 1 de Março de 2007
João,

Soberbamente analisado.
Ouve-me a aplaudir?
De Manuel Correia a 1 de Março de 2007
Excelente texto. A representação que me parece ser ainda hoje dominante acerca de Alfredo da Silva (AS) é a que resulta do prolongamento da gestão de imagem do próprio AS, dos seus familiares e seguidores. Tal como em relação a outras mitificações estadonovistas, não houve arrojo, vontade política ou sequer "curiosidade" em confrontar a bambuchata promocional com aquilo que uma análise histórica sumária pode por a nu.
Não posso deixar de referir um estudo sério -- “Alfredo da Silva Biografia 1871-1942”, de Miguel Figueira de Faria, com a colaboração de Carolina Peralta Trewinnard, Paulo Jorge Fernandes, Cristina Dias e Patrícia Rodrigues, que deram à estampa (Bertrand Editora) o resultado da investigação levada a cabo no âmbito do Centro de Estudos de História Empresarial (UAL). É um dos melhores trabalhos que li sobre a matéria. A apresentação pública contou, aliás, com concurso da Câmara do Barreiro.
Porém, depois da vernissage, tratar-se-ia de montar uma série de animações em torno do tema; organizar debates; discutir.
E isso vai ao arrepio da cultura que ainda predomina no Barreiro...
«Esse homem, no fundo, preocupava-se com a vida dos operários e castigava, se necessário, os capatazes.»
Não é inédito. As vítimas curvam-se perante a memória do algoz. Os revolucionários ficam a olhar, a ver passar os comboios.
Estou de acordo contigo. É, de facto, deprimente.
De João Tunes a 1 de Março de 2007
Obrigado pelas tuas achegas, caro Manuel.
De paulo santiago a 1 de Março de 2007
João
Notável texto.
Só te faltou dizer,que além de Escola,Estádio,Museu,
Mausoleu,Avenida,também houve um navio,com o
mesmo nome,que se fartou de transportar militares,
eu incluído,para a Guerra Colonial,no inferno da
Guiné.É a minha recordação do Alfredo da Silva.
De João Tunes a 1 de Março de 2007
Tinha-me passado essa, caro Paulo. De facto, o navio de carga de que falas, o "Alfredo da Silva", era alugado à SG (Sociedade Geral) que pertencia ao Grupo CUF e era essencialmente utilizada a trazer matérias primas das colónias e a levar produtos acabados da CUF para lá. Havia ainda outro navio da mesma empresa com o nome da mulher do Alfredo da Silva (Amélia), sogra do D. Manuel de Mello e avó de Jorge de Mello e José Manuel de Mello. Empresa transportadora esta que, por sua vez, deu nome à marca de cigarros que ainda existe (SG) lançada pela Tabaqueira e então também do grupo CUF. Já remediei a falha no texto. Obrigado.
De João Tunes a 1 de Março de 2007
Já agora, Paulo, falando de CUF e da Guiné, como bem saberás, a maior casa comercial no tempo colonial (a "Casa Gouveia") e das poucas estruturas sólidas de exploração colonial ali, era da CUF. E o nome "Fula" dado ao óleo vegetal ainda hoje comercializado é uma referência à origem do amendoim usado como matéria-prima e que vinha da Guiné. Abraço.
De Rui S a 17 de Agosto de 2010
Nem li mais a descrição , quando li que havia outro N/M com nome de mulher ... Nem quero comentar , apenas relatar que fui para a Guiné NO N/M MANUEL ALFREDO , QUE ERA "IRMÃO GÉMEO DO ALFREDO DA SILVA , seria melhor estudarem a lição antes do exame...

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