Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007

O DESVENDAR DE UM NOBEL SILENCIADO E CONTROVERSO

0012hp490012gs80

 

Egas Moniz será o caso simultaneamente mais profícuo, sucedido, misterioso e controverso, na Inteligência portuguesa de todos os tempos. Tanto que constitui um dos grandes mitos portugueses conservados no silêncio com as preciosas ajudas da perplexidade e do mistério.

 

No final da primeira metade do século XX, em pleno salazarismo, numa sociedade com reduzido empenho e prestígio da actividade e investigação científica, um português arrecadou um Nobel (da Medicina ou Fisiologia). Que seria o único atribuído a um português até que Saramago, passado meio século, obtivesse a réplica do galardão, agora num ramo “mais naturalmente luso” (o da literatura). Mas sendo este escritor o “nosso” segundo “nobelizado”, quantos dos nossos patrícios vêm emblematizado, lá fora, o sumo do talento português com Egas Moniz ao lado de Saramago? E mesmo, entre nós, quantos não o associamos, pronunciado o nome, primeiro ao Aio de D. Afonso Henriques e só depois, com algum esforço e talvez com a ajuda menemónica do Hospital que lhe usa o nome, chegamos à sua relação com o médico e investigador, detentor do galardão mais célebre e notório no mundo? Que, diga-se, e para acentuar que não foi um Prémio “fácil de alcançar”, só conseguiu impor a excelência notável dos seus méritos junto do Karolinska Institutet de Estocolmo (a cuja comunidade científica compete fazer a escolha do Nobel da Medicina), em 1949 (quando o médico cientista já contava 75 anos de idade), após quatro nomeações que não culminaram no sucesso (em 1928, 1933, 1937 e 1944), o que perfaz uma trajectória de “candidatura” que durou vinte e um anos de esforçada imposição de prestígio na comunidade científica internacional.   

 

Entretanto, o tempo decorrido, desde o Nobel até à actualidade, não atenuou os paradoxos associados a Egas Moniz. De há uns anos a esta parte, uma forte e activa corrente de opinião, utilizando sobretudo a Internet para se expandir e pressionar, reivindica ao Comité Nobel que o Prémio seja retirado a Egas Moniz (como forma simbólica de “reparação” pelos padecimentos irreversíveis das “vítimas” da sua mais conhecida descoberta), o que é caso único de um movimento se manifestar nesse sentido e relativamente a qualquer das personalidades premiadas em qualquer dos ramos.

 

Por todos os grandes insólitos associados ao Professor Egas Moniz – um médico português conquistar o Nobel da Medicina e ser o primeiro português “nobelizado”, o limbo de esquecimento celebrante que se seguiu à façanha e que Salazar lhe aplicou e outros com ela pactuaram (por, na altura, Egas Moniz ser um oposicionista ao regime mas, não sendo comunista nem seu próximo, não constar da galeria das glórias antifascistas), a actual e espalhafatosa campanha para o “desnobelizar” -  seria expectável que a figura, as suas controversas experiências e descobertas,  fosse tema que apaixonasse, ou pelos menos cativasse, os portugueses. Quiçá, despertasse uma qualquer vaga “nacionalista” de defesa dos nossos méritos científicos e da figura emérita que uma campanha desconchavada, no mínimo por descontextualizar os métodos e as experiências de Egas Moniz, pretende ver traduzida em "justiça desnobelizante”. Nada disso se passa, como sabemos. Antes, o insólito "caso Egas Moniz" promete estar para durar. Com a ajuda da persistência do silêncio dos seus compatriotas e passados que são cinquenta anos sobre o seu falecimento. 

 

Desvendar o “mistério Egas Moniz” foi um desafio que estimulou a curiosidade e o talento de Manuel Correia (*) que nisso se empenhou a fundo. E agora, na rampa final da sua tese de doutoramento, a Universidade de Coimbra deu-lhe à estampa um livro (**) onde condensa (e nos espevita o apetite), através de um notável poder de síntese e uma apaixonante criatividade narrativa, as suas aturadas investigações seguindo o rasto da odisseia de Egas Moniz para chegar ao Nobel e o contexto da controvérsia que lhe está associada. Com o bónus extra de ilustrar brilhantemente que tão controversa como as descobertas de Egas Moniz e os seus impactos é a própria figura, personalidade e trajectórias científica e política do laureado. Em resumo, um livro fascinante (que pode ser adquirido directamente por esta via).

 

(*) Manuel Correia é licenciado em Sociologia pelo ISCTE, Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação (ISCTE), doutorando a preparar tese na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra com o projecto “Egas Moniz: representação, saber e poder”. É também um interventivo, lúcido e acutilante blogger, com tribuna de ciber-escrita no “Puxa Palavra”.

 

(**) – “Egas Moniz e o Prémio Nobel”, Manuel Correia, Edição da Imprensa da Universidade de Coimbra.

 

Imagens: Egas Moniz e Manuel Correia (na apresentação do seu livro na “Cooperativa Cultural e Popular Barreirense”, no Barreiro, no passado dia 10 de Fevereiro) [a foto do escritor-doutorando foi roubada ao Raimundo Narciso]

Publicado por João Tunes às 01:10
Link do post
Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO