Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007

MERO INTERESSE HISTÓRICO

00121h8c

É isso, trata-se de mero interesse histórico ler o que dizia o “Avante” no final de 1937 sobre o problema do aborto e o paradoxo de ele então ser proibido na URSS. Se algumas “operárias do Barreiro” tinham as suas dúvidas sobre a aparente contradição, elas não restavam para o PCP, como em toda a sua história, que o que havia LÁ só podia ser BOM. Mesmo que, na matéria, o poder soviético tivesse primeiro liberalizado o aborto a seguir à Revolução, depois proibi-lo (numa fase de enorme decadência demográfica devido aos milhões de mortos nas fomes forçadas para extirpar os "kulaks", na repressão e nos trabalhos forçados) para o voltar depois a permitir (e o aborto foi permitido na URSS durante a maior parte da sua existência). Em cada caso, sempre uma boa e fundamentada decisão. Ali estava a Terra do Bem. Interessante porque lido à distância, este documento que o JPP lembrou e em que coloca as hipóteses alternativas de o texto ser da autoria de Cunhal ou de Pavel (ali, o texto pode ler-se fazendo click sobre as imagens) e que se transcreve:

 

Damos imediata resposta a esta pergunta, formulada por algumas operárias do Barreiro.

 

O aborto é um acto inteiramente anormal e perigoso que tem roubado não poucas vidas e tem feito murchar não poucas juventudes. O aborto é um mal terrível. Mas, na sociedade capitalista, o aborto é um mal necessário, inevitável, bemfasejo até.

Na sociedade capitalista, um filho significa, para os trabalhadores, mais uma fonte de privações, de tristezas e de ameaças.

Quem tem filhos – diz-se – tem cadilhos…

Pode-se imaginar algo mais doloroso que uma família de operários obrigados a sustentar dos seus miseráveis salários cinco ou seis filhos? É a fome, o raquitismo, a tuberculose, a tristeza da vida, vivida em promiscuidade. E que futuro espera essas crianças? Serem uns desgraçados... como dizem as nossas mulheres.

Por isso, a mulher de país capitalista, é obrigada a sacrificar o doce sentimento da maternidade, é obrigada a recorrer, tantas vezes com o coração sangrando, ao aborto.

Por isso, a proibição do aborto, aborto na sociedade capitalista, é uma hipocrisia e uma brutalidade. Na URSS a situação é tão diferente, como é diferente a noite e o dia. 

Na URSS não há desemprego, não há miséria – há abundância de produtos. Tanto a mulher como o homem recebem salários que satisfazem as suas necessidades. A mulher grávida tem 4 meses de férias durante o período da gravidez, com os salários pagos. Há maternidades, creches, jardins de infância e escolas por toda a parte. O governo soviético dá prémios que vão até 5 mil rublos para as mães que tenham mais de 5 filhos, etc.

Ser mamã é uma das grandes aspirações das jovens soviéticas.

E onde há uma esposa que não quisesse ser mamã sabendo que o mundo floria para acolher o seu menino? Sabendo que o seu filho não seria um desgraçado mas um cidadão livre da grande República do Socialismo? A criança, na URSS, deixou de ser um motivo de preocupações, para se tornar uma fonte luminosa de alegria e de felicidade.

O aborto perdeu portanto a sua única justificação, tornou-se desnecessário. Por isso, o governo soviético decidiu propor, ao povo trabalhador, a abolição da liberdade de praticar o aborto, liberdade essa concedida, a título provisório, nos primeiros tempos da república soviética, quando esta gemia sob o peso da fome e da peste, ocasionadas pela guerra e pela contra-revolução capitalista. Depois de discutirem amplamente a lei proposta pelo governo soviético, as mulheres e todo o povo trabalhador, aprovaram essa lei que correspondia inteiramente ás condições de existência livre e feliz dos que trabalham na grande Pátria do Socialismo triunfante.

Publicado por João Tunes às 18:21
Link do post | Comentar

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO