Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007

A LONGA VIAGEM DE JOÃO XXIII

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Esta campanha para o referendo foi muito mais que uma campanha de partidos e dirigentes partidários. Os médicos, seguidos dos juristas, lideraram as condutas da formação da opinião. Claro que o tema, a escolha, proporcionava-o. Mas não deixa de ser interessante que elites profissionais, com forte peso tradicionalista e corporativo (*), num país que se diz cansado de política e políticos, ocupassem assim o palco político, porque foi de política que se tratou, da forma insistente e empenhada como o fizeram. E as forças motrizes que empurraram médicos e juristas para a ribalta, nos dois lados da trincheira, mais que os partidos e os políticos, foram o impulso do sentido cultural e cívico da laicidade num lado e a Igreja Católica no outro.

 

Este tomar de conta pela “sociedade civil” do debate político sobre o referendo, em que, essencialmente, a Igreja Católica mediu votos sobre a manutenção do seu domínio por obediência espiritual, tendo perdido o combate de forma claramente tangível, representa uma clara imposição de modernidade que, afinal, os partidos e os políticos, mesmo os de tradição republicana, nunca tinham tido capacidade de impor relativamente à continuidade vinda do salazarismo em que Portugal tinha sido encomendado, baptizado e comungado como “país católico”. Esta rotura significante, nomeadamente cultural, evidenciando uma opção laica de separação do político e do espiritual, já visível mas não consagrada, tem um alcance político de primeira grandeza. Tanto mais que foi o eleitorado mais jovem que a impôs e contra a deferência timorata e tacticista com que os políticos tradicionais sempre evitaram enfrentar os privilégios do altar sobre o viver republicano. E diga-se que a Igreja foi um combativo e inteligente opositor à mudança de ontem, tendo empenhado no combate político toda a sua sabedoria, manha e capacidade mimética de sofismar as mensagens. Inclusive, ao transmutar-se, pela voz dos médicos e juristas católicos e mediáticos, em campeão da sexualidade responsável, absolutamente exógena à essência da visão procriadora da mulher que é nó górdio persistente do catecismo dogmático que usa.

 

Se o Concílio Vaticano II encontrou os católicos portugueses na letargia cristalizada do casamento da sua Igreja de então com o fascismo nacional-catolicista, atenuando-lhe o impacto, esta derrota eleitoral da imposição dogmática sobre a sociedade portuguesa, poderá representar a adaptação do adiado viver católico a uma sociedade culturalmente adulta, moderna, democrática e governada por um Estado laico. Isto se a Igreja tiver capacidade de se render à evidência e não quiser curtir o desapontamento regredindo para os consolos revanchistas do Vigário Tarcísio, o que não é líquido. Ou seja, se a Igreja Católica, obviamente maioritária nas preferências religiosas dos portugueses, souber ler e aprender com a imensa maioria do seu rebanho espiritual. Que, demonstrou-se, é capaz de votar em sinal contrário ao do circuito de obediência religiosa (muitos milhares de católicos votaram SIM) ou, mantendo-se-lhe fiel nos desígnios, assumiram compromissos de modernidade relativa sobre a mulher, o sexo e a maternidade, expressos na recta final da propaganda do NÃO, que impõem alijamento das posturas mais retrógradas sobre sexualidade e maternidade, nomeadamente quanto à contracepção.

 

A sociedade portuguesa separou claramente as questões de fé e sua congregação, do plano cívico e político, dando consistência à natureza laica do seu Estado republicano. A Igreja Católica saberá, ou não, aprender com a rude lição que recebeu na cara pela sua inércia de contumácia na promiscuidade entre Cristo e César. Conquistada a primeira, a segunda é, laicamente falando, um problema doméstico dos católicos com a sua Igreja. Ou vice versa, da Igreja com os seus crentes. Em qualquer dos casos, entendam-se.  

 

 

(*) E não é irrelevante que os Bastonários da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Advogados se tenham empenhado pelo lado do NÃO.

Publicado por João Tunes às 15:08
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