Sexta-feira, 24 de Março de 2006

BAGDAD, CIDADE ETERNA

Quando se escaqueira feito fanicos sítios onde estivemos e em que deixámos fios do nosso gosto, há alguma coisa de nós que vai para o caneco. Se o sítio nos fica longe do estar sedentário de hoje, as notícias, boas ou péssimas, batem-nos dentro da cabeça e estremecemos. Não há volta a dar. Porque somos feitos de tijolos acumulados e camadas de idade e de viver. E são esses muros, feitos de dor e de gozo, que nos fazem crescer na dimensão de cidadãos do mundo, isso que somos cada um, até aquele que nunca apanhou a âncora deitada na sua aldeia perdida. Porque o mundo, todo o mundo, não pede licença para se sentar dentro da alma de todos e de cada um.

 

O meu amor por Bagdad vem de 1978, a primeira vez que lhe descobri avenidas, gentes, bazares e mesquitas. Tanto gostei de Bagdad que a meti no meu relicário de cidades preferidas, com Praga no cimo e com Rio de Janeiro em companhia na plataforma do pódium. Voltei a Bagdad, já não tão bonita, com as gentes mais tristes, mais escura pela sombra da pata de Sadam e encardida da ditadura sempre mais cruel e degenerada pela guerra Irão-Iraque. Num desses regressos eu já sabia que os comunistas iraquianos e qualquer progressista que se afirmasse eram caçados pela polícia de Sadam até ao último homem, e antes de lhe confirmarem o gosto político e lhe darem um tiro nos miolos, o primeiro acto ritual na entrada na esquadra da polícia era aplicar-lhes a pena preventiva de serem sodomizados, logo ali, como acto primeiro de mensagem de Sadam para com a diferença e de humilhação perante o diktak do Partido Baas. Mas, apesar da repulsa pelo monstro Sadam, só comparável a Estaline (Hitler, perante um e outro, foi aprendiz e mestre mas, felizmente, não teve tanto tempo quanto eles para exercer), Bagdad não me perdeu o fascínio e o sortilégio de cidade feita para brilhar, na sua geometria circular, na forma como se deitava nas margens dos seus rios, como mostrava e exibia as suas fascinantes e belíssimas mesquitas, sublinhadas pelos cheiros das especiarias.  

 

Há vinte anos que não volto a Bagdad. Provavelmente, não lhe voltarei a pisar os passeios, cheirá-la, olhar os rostos das gentes, demorar-me nos seus bazares, espreitar-lhe as mesquitas, olhar-lhe as margens. A isso estou resignado. Mas cada vez que uma mesquita de Bagdad estoira com uma bomba de ódio, estilhaçando corpos de gente que estava na hora errada no local errado, não sendo eu nem muçulmano nem sequer crente de qualquer adoração acima do humano, sinto que um bocado de mim, da minha boa memória, se faz em fanicos, desaparece. E fico mais vazio, mais pobre, menos homem. Não porque Bagdad não seja, como merece ser, uma cidade eterna. Eu é que, garantidamente, não o sou.  

 

Publicado por João Tunes às 22:48
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