Terça-feira, 7 de Março de 2006

DIA DA MULHER, AMANHÃ

O meu amigo e camarada Luís Graça lançou um desafio aos ex-combatentes que andaram na Guiné aos tiros e à morteirada, os sobrevivos daquela guerra sem sentido, a fazermos um texto alusivo ao Dia Internacional da Mulher que amanhã se comemora.

 

Como não costumo baldar-me à parada, matutei um ror de coisas, olhando o teclado a ver se, entre a formatura das letras, me surgia inspiração ou ideia pífia mas sincera que fosse.

 

Pensei na viúva de Amílcar Cabral, lembrando-me o drama do assassinato a frio e à vista do companheiro e um dos maiores líderes africanos de todos os tempos. Que nos combateu e tanto nos esforçámos por combater. Não encontrei dados que me inspirassem. Nem sei se está morta, viva ou onde pára. Desisti.

 

Passei às comandantes e guerrilheiras do PAIGC, algumas insignes e heróicas. Não encontrei dados. Foi-se o motivo.

 

Julgava safar-me a pensar nas “nossas” bajudas, nas “nossas” lavadeiras, nas guineenses que vimos curvadas sobre a lavra e a safra enquanto acartavam os filhos nas dobras dos seus lenços. Fiz as contas ao horizonte médio de vida das e dos guineenses e restou-me a tristeza funda de prever que a maioria já não terá um centímetro de vida para receber homenagem que seja. Passei à frente.

 

Restaram-me as “nossas mesmo”, as portuguesas – as noivas, as esposas, as mães e as irmãs dos mancebos camuflados que fomos, a quem “trocámos” a companhia por uma G3, essa gaja volúvel e mais puta que a puta rainha das putas. E aí defendi-me da emoção, tanta que me levava, pela certa, à lamechice pimba. E disse-me: basta, não vou por aí.

 

E festa é festa, até no Dia da Mulher. Haja baile até, se para tanto aprouver. Siga a dança então e com o riso da paródia que é o melhor dos exorcismos. Numa boa paródia, não há memória em que diabo entre que até a ele não lhe apeteça dançar. E enquanto o diabo dança, antes lhe dê para dançar que para guerrear, as diabruras esmorecem e nós descansamos. Até na memória, dando-nos calma de repouso e mesmo preguiça de sesta. E não é disso que estamos precisados? A merecida sesta dos guerreiros?

 

Com inspiração falida, cansado de esperar inspiração vinda do teclado, fui ao baú dos textos blogo-publicados e desenterro este que julgo valer, pelo menos se festejado no gozo da antinomia:

 

------------------

 

“Tropecei nas Senhoras do Movimento Nacional Feminino por duas vezes. Eram uma espécie das Tias de hoje (Lili Caneças lá não faltaria, estou convencido disso), normalmente casadas com dignatários do regime salazarista-marcelista. Ocupavam o tempo a acarinhar a rapaziada que ia para a guerra colonial ou já lá tinha batido com os costados.”

”Na primeira vez, estava eu perfilado e em sentido, comandando o meu pelotão, no Cais de Alcântara, a aguardar o embarque no Niassa que nos ia levar para a Guiné. Imaginem o estado de espírito. As famílias amontoavam-se nos varandins da Estação a acenar com lenços porque as despedidas estavam feitas. A tropa em formatura a gramar o discurso patrioteiro de um General qualquer. As lágrimas a caírem por dentro. Cada um a olhar de soslaio para os varandins, com uma tristeza infinita nos olhos ao ver a bruma dos lenços a acenarem sem se distinguirem os rostos. E uma raiva contra a sorte do destino a subir-nos até à garganta. A certo momento, avançam as senhoras do MNF, todas com aspecto de terem vindo directamente do cabeleireiro, sorrisos afivelados como os que fazem as meninas de um qualquer balcão de recepção, com saquinhos de pano a tiracolo para oferecerem a cada militar do Império um maço de cigarros de marca Aviz. Eu olhei o rosto da senhora que se postou na minha frente e senti uma navalhada da hipocrisia da situação em estar a ver aquela cara e não os rostos que eu queria ver mas não distinguia entre os lenços dos varandins. A senhora entende-me um maço Aviz e diz-me sorridente “parabéns senhor alferes, por ir defender a pátria”. Senti a raiva crescer-me. Mas tinha que estar perfilado e em sentido. E tinha uma data de homens sob o meu comando. Crispei os dedos das palmas da mão esticadas. Disse-lhe entre dentes como um sussurro, não perdendo a compostura na formatura: “meta o Aviz na cona e desapareça-me da vista!”. A senhora circulou para junto de outro militar, conservando o sorriso do protocolo. Já devia estar habituada. Tinha mesmo vocação para aquelas cerimónias.”

”A segunda e última vez que contactei o MNF, foi no primeiro Natal passado na Guiné, em que a malta do Pelundo teve direito à visita da Presidenta da coisa, D. Cilinha Supico Pinto em pessoa. Ela foi lá numa visita ultra-rápida, demorou uns minutos a distribuir discos da Amália Rodrigues a cada militar e zarpou para o helicóptero. Os militares ficaram atónitos, para que é que queriam o disco se ninguém tinha gira-discos? Quando o helicóptero se preparava para subir, a malta já se tinha recomposto da surpresa e desatou quase toda a correr para o heliporto improvisado e, ainda o heli tinha as rodas no chão, a discaria da Amália subiu aos céus do Pelundo transformados em discos voadores. Foi a escolta merecida que a D. Supico teve na sua viagem de regresso do Pelundo. A tropa ficou fascinada com aquela nuvem de discos da D. Amália que pareciam querer tapar o céu e desatou toda aos gritos “Ó Cilinha, mete-os na cona!”. Ela deve ter sorrido. Já devia estar habituada. Tinha mesmo vocação para aquelas cerimónias.”

”Com o passar dos anos, vêm-me os remorsos. Tantas ofensas a tão respeitáveis Senhoras. Sabendo todos que as suas pudicas partes anatómicas não foram feitas para armazenarem maços de tabaco ou discos, mesmo que sejam da marca Aviz ou transportem a voz da Amália. Espero bem que outras prestações gloriosas as tenham compensado dos insultos da tropa chateada. Ainda para mais, fomos, com o apoio delas e dos seus esposos, defender a pátria e o império. Felizes, fomos. Patriotas também. Como o caraças! Só que, às vezes, na tropa, as palavras resvalam para a ordinarice. Acontece. As minhas atrasadas desculpas, na parte que me toca.”

 

(O texto transcrito é uma singela Homenagem ao MNF – Movimento Nacional Feminino, organização criada sob a égide de Salazar, durante a guerra colonial, destinada a apoiar os militares e as suas famílias, para lhes levantar a moral e exacerbar o patriotismo, constituída sobretudo por “senhoras” de “boas famílias” com muitos tempos ociosos, na maioria esposas de dignatários do regime, dirigidas por Cecília Supico Pinto – esposa do Presidente da Câmara Corporativa e amigo pessoal de Salazar, Supico Pinto)

 

Publicado por João Tunes às 18:27
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2 comentários:
De legendas a 7 de Março de 2006
Primeiro, os meus parabéns! Já vai no 5º.
Depois, dizer-lhe que "adorei" (à tia, em forma de homenagem ao dito movimento, safa!) o seu texto. Ainda poderíamos falar de tanta coisa. Vou juntar mais logo,fazendo-lhe um link, uma coisa do jornal A Criada.
De João Tunes a 8 de Março de 2006
Agradeço Carlos, o seu elogio, mesmo que padeça de exagero. Tb gostei muito do seu post alusivo e do enquadramento. Correcção única: este Água Lisa é já o sexto, e já vou no oitavo blogue. Sinal de atracção fatal pela reforma, confirmo. Abraço.

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