Ana Gomes diz que apresentou a sua candidatura autárquica no Cacém mas ilustrou o post-notícia com uma foto do Castelo da Pena. Isto não é imaginário típico da nomenklatura?
Não tem interesse algum no sentido prático de resolver seja o que for mas se alguém se quiser interrogar porque é que a esquerda está como está, ou porque continua como está, bastará ler este texto da investigadora Maria Manuela Cruzeiro e entenderá o essencial num instante, o do tempo de leitura e remate de reflexão. Porque mais, muito mais, que a “história”, as “massas”, as “classes” e as “vanguardas”, foram Cunhal e Soares, estes dois líderes poderosíssimos da ocasião, a de uma revolução caída dos quartéis aos trambolhões, em antinomia permanente entre si e após breve tutoria de um sobre o outro (na versão adulta da primeira relação havida entre ambos no Colégio Moderno), que marcaram (e marcam, com um deles morto e o outro na pré-reforma) a esquerda portuguesa. Com um excepcional poder de síntese, MMC ao ideologizar no mínimo as figuras, sublinhando os seus encontros e desencontros de "inimigos íntimos", dá-nos o essencial deles em termos de impacto revolucionário (e contra-revolucionário, no que respeita ao “segundo Soares”) e, sobretudo, explica como a esquerda portuguesa, muita dela nascida nos dias em que os acolheu vindos do exílio, adoptou estes dois “pais políticos” para ir além do antifascismo que a revolução tinha acabado de esgotar como projecto (além das, sempre empoladas, prevenções das recaídas) e que, confirmou-se cedo, era a única plataforma capaz de unir Soares e Cunhal. Porque quanto ao socialismo do “day after”, que ambos tinham inscrito nos estatutos, no programa, na bandeira e no hino, tudo os dividia, tanto como o que havia dentro de cada um, enquanto pessoa, estilo e líder. Com a direita nas encolhas, acabada de perder um regime e carregando a culpa de nos ter adiado um país (perdendo o império que tinha atrelado a guerras que não se ganham) e, em meio século, politicamente só nos ter dado dois ditadores; enquanto o génio de Sá Carneiro cerzia o que sobrara do aparelho da União Nacional com a resistência burguesa à mudança e programando um “marcelismo póstumo”; a maioria do povo, extrovertido em súbita politização, virou da quietude para a esquerda, uns seguindo Soares e outros Cunhal. Destinado a continuar maioria mas para não se voltar a entender, enquanto esquerda. Assim estamos, agora na quietude do voto e enquanto as sombras antigas de Cunhal e Soares por aí esvoaçam sobre a “esquerda velha” (a serôdia que é um mausoléu de Cunhal e Brejnev e a centrista que até ao Soares meteu na gaveta). E não será por acaso que o fragilíssimo Bloco (enquanto organização e projecto de uma esquerda política e social), mais partido “de não” que outra coisa, cresce e engorda muito acima dos seus méritos na capacidade de resolver. No mínimo, e não é pouco, corresponde a uma esquerda liberta dos sindromas de Cunhal e Soares, os “pais tiranos”, dando a sensação que é uma esquerda “com as chaves de casa no bolso” para dar uma volta pela política e pelas urnas de voto sem hora marcada para voltar ao seio da "família partidária", obedecendo ao Comité Central ou bajulando Sócrates e os seus adjuntos feitos de cera de obedecer. Até porque (tirando a pequena tira do “grupinho Miguel Portas”, uma sub-espécie da orfandade de Cunhal) o núcleo aparelhista e ideológico-táctico do Bloco vem exactamente da esquerda que, na revolução, sempre olhou de revés Soares e Cunhal, fugindo-lhe aos redis e até tentando tresmalhar-lhe as ovelhas. No que vai dar a maturação desta adolescência tardia e retardada de esquerda que é o voto no Bloco, um voto especial pois que prescinde (ainda) de militância e compromisso, é assunto que só meterá a urgência em cima da mesa lá mais para adiante. Para já, areja os fatos dos atrasados enterros políticos de Cunhal e Soares para poderem ser oferecidos a uma qualquer instituição de beneficência dos desvalidos da esquerda agarrada ao baú da memória passadista, em resposta a peditório que há muito tardava. O Bloco consolidado como terceiro partido é (melhor, será se fôr) prémio e desafio. E que seja o eleitorado mais jovem (maioritariamente do litoral, citadino, instruído, incluíndo alguns que são cultos, emancipado quanto às amarras nos costumes, "filho" da internet e do trabalho precário) a dar-lhe gás, dá ânimo de confiança de que a esquerda não só se vai aliviando dos fardos do passado, incluindo os afectos que oprimem mais que libertam, como é suficientemente atrevida para querer escolher ter futuro.
Adenda: A Joana Lopes acrescenta por entre o muito mais que ainda havia (e há) a dizer.
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