Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

De Pedro Vieira. No infelizmente melhor post possível sobre este dia.
Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Em princípio, é apenas mais um concurso. Não muito desparecido com o dos “grandes portugueses”. Só que este, com eco na RTP, tem apoios de várias entidades: Presidência da República, dois Ministérios e vários Institutos dependentes do governo, CPLP, Universidade de Coimbra. Além de contar com os habituais patrocínios comerciais. E trata de se elegerem, por voto pela Internet, as “Sete Maravilhas de origem portuguesa no Mundo”. A iniciativa aparenta-se a uma modalidade de incentivo de patriotismo artístico que padece, desde logo, da ambição desmedida de divulgar e ter um retorno imediato de escolha de bafejados por lugares em podium. Mas o pior, suficiente para desqualificar a iniciativa, é o silenciamento, que só pode ter sido programado, de um aspecto intrínseco a alguns dos monumentos levados a votos – eles terem sido criados como pontos de apoio ou mesmo entrepostos do comércio esclavagista (denúncia aqui). O que indicia uma manipulação histórica inadmissível enquanto contaminante de uma iniciativa pretensamente com intuitos pedagógicos e incentivadores da auto-estima nacional, patrocinada e apoiada por uma Universidade, pela Presidência da República (onde mora um titular que insiste em qualificar o 10 de Junho como “dia da raça”), por ministérios governamentais e institutos seus dependentes e (pasme-se!) pela CPLP.
Mesmo retirando este grande senão, nunca votaria neste concurso. Pela simples razão de que não entendo como se pode escolher entre monumentos sem os visitar, apreciar, estudar, recorrendo apenas a um catálogo de imagens e textos apologéticos. E não perceber também qual o interesse e que espécie de juízos subjacentes permitem a alguém dizer que “gosta mais” deste do que daquele. Muito menos considero minimamente pedagógico levantar afectividades de preferências que serão suscitados por tudo e mais alguma coisa mas decerto pouco ou nada tendo a ver com a síntese histórico-estética que impregna cada monumento.
De todos os monumentos levados “a concurso”, apenas conheço a fortaleza da Cidade Velha da Ilha de Santiago (Cabo Verde) que, curiosamente, é muito mais espanhola-filipina que portuguesa (o que torna duvidosa a sua integração no lote das “maravilhas de origem portuguesa”). Trata-se de facto de uma enorme e bela fortaleza, bem localizada (com uma vista magnífica) e relativamente bem conservada. Mas a sua construção e localização teve um fito principal e outro derivado: apoiar um entreposto esclavagista (na rota dos escravos capturados e comprados em África e que funcionava de filtro de selecção e comércio dos escravos enviados para a América) e defender a preciosa mercadoria esclavagista dos assaltos dos piratas. E foram as debilidades defensivas da Cidade Velha perante os assédios dos piratas em busca do roubo de escravos que levou a que a capital de Cabo Verde se deslocasse depois mais para norte, para a Cidade da Praia. O povoamento de Cabo Verde deu-se com o (e pelo) comércio de escravos e o seu núcleo inicial estruturado foi a Cidade Velha. E, ainda hoje, uma parte importante da população caboverdiana ou é descendente de escravos, ou de esclavagistas, ou da mistura sexual de ambos. Desassociar a Cidade Velha do esclavagismo, como estupidamente faz este “concurso”, é negar a própria Cidade Velha e “apagar” a maioria da sua população, projectando Cabo Verde para um conjunto de ilhas desabitadas em pleno Atlântico. Porque sem esclavagismo, não só a Cidade Velha não teria existido como possivelmente as ilhas de Cabo Verde nunca viriam a ser povoadas (mesmo a economia pós-esclavagismo assentou num aproveitamento de espaços inóspitos só rentabilizáveis pela disponibilidade de abundante e esfomeada de mão-de-obra constituída por antigos escravos, uns fugidos, outros libertos).
Não tem que haver qualquer complexo histórico com o passado esclavagista que teve um papel de destaque em grande parte da história portuguesa (sem ele e o racismo que lhe está associado, não teriam ocorrido as epopeias dos descobrimentos e da colonização, ou seja, seríamos um povo sem nada a ver com o povo que somos). É uma mancha no humanismo português, como foram a Inquisição, uma prolongada ditadura fascista, a guerra colonial? É, mas venha o primeiro povo que só contabilize um passado impoluto de grandezas e bondades. Para mais, nenhum povo escolhe o seu passado. O que os povos escolhem é terem ou não memória. E serão os complexados com o passado os mais interessados na sua amnésia. Estranho é que se dediquem a organizar “concursos” com métodos de enquadramento histórico inspirados no Mestre Estaline, o grande inspirador dos apagões e emendas nos registos da memória.
Terça-feira, 2 de Junho de 2009

O historiador Javier Rodrigo referiu que o regime franquista contruíu 188 centros de detenção de prisioneiros políticos, incluindo 104 campos de concentração, nos quais penaram 500.000 espanhóis (muitos tendo morrido neles) suspeitos de terem defendido a legalidade democrática e republicana contra o golpe dirigido em 1936 por militares golpistas ao serviço do fascismo espanhol.
Os defensores da memoria histórica em Espanha e famílias das vítimas têm procurado preservar alguns desses lugares de prisão e extermínio, embora a maoria deles tenha sido urbanizada ou adaptada a actividades que inviabilizam a sua reconstituição como referência memorialista. Como disse, com “ironia negra”, Cecilio Gordillo, “hoje é muito difícil encontrar restos dos campos de concentração, pois há só um espaço de memória protegido e bem conservado, o Vale dos Caídos”. Entre as escassas hipóteses que restam, há o caso do antigo campo de concentração franquista de Castuera (Badajoz), na foto, por onde passaram 15.000 presos em 1939/40 e agora classificado como “Património de Interesse Cultural”, o que inibe o seu aproveitamento empresarial. No entanto, o terreno do antigo campo é propriedade privada e, naturalmente, o dono tem outros projectos de valorização desse património. O direito á memória exige que se encontre uma solução, de forma a que Castuela não perca o seu valor testemunhal. Passo a palavra.

Enquanto eleitor nunca me senti tão alvo de tentativa de infantilização pelos políticos como nesta campanha eleitoral. E não é por ter visto Vital Moreira levantar o braço a gritar “Vivam as Crianças!” numa acção qualquer junto de um jardim infantil. Nesse candidato, o trato vulgar é tratar-nos, com auréola de pose prof, como se todo o cidadão fosse um aluno cábula relapso ao entendimento da alta política. O que, somado, dá pior do mesmo. Mas a verdade é que os outros não lhe ficam atrás no apoucamento dos eleitores enquanto pessoas adultas e inteligentes. Miguel Portas, insuportável no seu ar de komsomol terminal, esfalfa-se por parecer um controleiro de pioneiros a ensinar materialismo histórico e levando a hipnose do igualitarismo até à disciplina da Coca Cola. A autoritária Soror Ilda parece uma Madre Superior de um colégio de freiras para noviças em estado de virgindade política e tão embrenhadas numa religião universal que não lhe topam a duplicidade da doutrina. Quanto aos restantes, entre os elegíveis, são eles mesmos a representação de putos retardados. Rangel, com a sua oratória metralhada e aflautada de gorducho marrão da primeira fila na sala de aula com licença vitalícia para ser o primeiro a responder à sôtora. Nuno, o Nuninho, a alardear o seu ar displicente de estudante betinho, blasée nas aulas porque o pensamento está desviado para o carrinho último modelo estacionado à porta da escola. Ainda acabam todos a distribuir chupetas com os emblemas dos partidos.

Vinte anos depois, o crime do comunismo em Tiananmen continua sem direito a lápide na memória dos chineses e do mundo. Com a Praça limpa, o sangue das vítimas diluído e escorrido a jacto para valetas antes que secasse e se agarrasse ao chão e incomodasse os turistas, os ossos dos trucidados varridos para um aterro sanitário conforme o Plano para os resíduos sólidos urbanos de Pequim, a ordem comunista restabelecida para prosperidade do capitalismo mais selvagem que só a perversão marxista-leninista consegue, a cúpula do comunismo chinês ordenou e fez cumprir a ordem do silêncio sobre as vítimas de Tiananmen. Depois do massacre, instalou-se o tabu.
Para os mandarins engalanados com dourados de estrelas e foices e martelos, foram apenas 241 os contra-revolucionários que tombaram por resistirem à eternidade da felicidade comunista. Pese embora a Amnistia Internacional falar em 1.300 manifestantes assassinados e outras organizações multiplicarem este número. E menos se sabe ainda sobre o número de detidos e quantos destes provaram depois, nas entranhas, o sabor do chumbo das balas dos fuzilamentos.
Entre mortos, feridos e aprisionados, o que mais interessa hoje decifrar é quantos combatentes da liberdade de Tiananmen, nossos irmãos na causa universal da democracia - causa sem pátria, sem cor e acima dos partidos -, continuam nas prisões do comunismo chinês por gritarem Liberdade! naquele dia de 1989 e naquela Praça. E, com a nossa indignação, arrancá-los de lá. O Human Rights Watch calcula que sejam 100 os que penam na prisão há vinte anos de entre os que escaparam à trituração das lagartas em aço dos tanques pintados com as cores da fraternidade comunista. Seja esse o número, menos uns tantos ou um bocado mais, é preciso saber deles, quem são, devolver-lhes os rostos e os nomes, permitir-lhes que voltem a pisar o chão de Tiananmen, mesmo que a Praça continue a ter a liberdade adiada. Porque essa, a liberdade, acabará por ali, como a todos os lugares, chegar.

Há advogados que são políticos como há políticos que são advogados. Há até uma espécie de passagem automática entre a advocacia e a política que só alguns evitam transpor. Vendo o Prós e Contras de ontem, dedicado aos advogados enquanto advogados, percebe-se melhor porque é que a política está como está. Ver Marinho e Pinto esgrimir com os seus pares parece entrar-se numa reunião de Lourdes Rodrigues com os professores com uma série de baronetes distritais da classe a imitarem o bilioso Mário Nogueira. Ou é a política que degrada os advogados ou são eles que espatifam a política. Seja como for, ou proíbem os advogados de fazer política ou acabam com a Ordem. Usarem dois palcos para a mesma função é que suponho como um excesso.
Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Está a decorrer em todo o mundo uma jornada de cibernautas de apoio ao direito dos cubanos a viverem numa Cuba Livre e desfrutando dos seus direitos. As exigências dos cibernautas que não se contentam com a sua liberdade e a querem ver distribuída por todo o mundo, resumem-se em três reivindicações:
- Libertação dos presos políticos cubanos.
- Acesso livre dos habitantes de Cuba à Internet.
- Eliminação das restrição aos cidadãos cubanos para saírem e entrarem em Cuba.
Aqui, diz-se presente. Honrando a memória da alegria que sentimos com o 25 de Abril.