Terça-feira, 3 de Março de 2009

O mais curioso desta lista é, num mundo de expressão anglo-saxónica, aparecer a cubana Yoani Sánchez (na foto) com o seu “Generación Y”, um blogue hispânico que, para mais, a autora edita sem o conseguir ler por acção da censura de controlo da Internet em Cuba. Sobre os critérios de selecção do “Generación Y”, ler aqui.

Nino Vieira foi hoje assassinado. Amanhã, provavelmente, os jornais dedicar-lhe-ão as páginas nobres e o congresso passará mansamente para o caixote dos refugos jornalísticos e noticiosos.
Portugal arruma silenciosamente as antigas colónias com desprezo e ingratidão, sobretudo se elas não dão lucro. “Eles matam-se muito uns aos outros”, parece ser o mote vergonhoso. Acho muito estranho que se tenha falado “da morte de Nino Vieira” com esta simplicidade, como se tivesse sucumbido a uma pneumonia. Dá uma ideia do estado das coisas quando tudo está entregue a gente sem memória nem história.
É assim. Um congresso que espremido só deu a confirmação do líder que já era, continua a excitar a fantasia das palavras e a vontade de dizer para se dizer qualquer coisa. Enquanto Nino era preto e morava longe. E Sócrates até ganha prémios por vestir bem.

Ler aqui sobre um crime gravíssimo de furto relatado por Manuel António Pina e para o julgamento do qual prevê um labor destinado ao insucesso ao causídico encarregado da defesa do arguido:
Não queria estar na pele do seu advogado, não há Código de Processo Penal que valha a um caso destes. É condenação mais que certa.
Segunda-feira, 2 de Março de 2009

Obrigado, Carlos. É muito útil conhecermos com antecedência os terrenos em que no próximo domingo vamos batalhar (ou malhar, como diria o outro). Vou já passar o seu post ao staff do Quique.

Se tivesse Vital Moreira como meu inimigo político, gostaria de conseguir escrever assim, triturando-o até que nem um osso, simbolicamente falando, de prof ególatra e embirrante, o piorio entre os coimbrinhas da má memória persistente, se lhe aproveitasse. E tentaria até reparar se ele, Vital, ao ser abraçado por ainda mais detestáveis figuras, tinha ou não acertado com o botão adequado à esquerda correcta, porque consequente, com que encimou o desaperto informal próprio para congressos bajuladores usando quela azarada camisa fashion às riscas.
Para alimento de défice relativo quanto a escrita ácida, o meu nojo político está à direita de Vital. Porque se há o mar do situacionismo que me separa de Vital, e que este blogue tem servido para desabafar até à beira da ravina da náusea, não perdi o norte sobre onde está plantada a direita real e onde circula a esquerda radical especialista em colocar passadeiras de vermelho vivo para a Velha Senhora passar.
Assim como assim, Vital, para mim, está no lugar do adversário em quem até se pode votar. Nada dependente da camisa ou dos abraços, assuntos de Vital que não me tiram sono. Mas cá por coisas, outras coisas, que a campanha tem obrigação de esclarecer, metendo no seu lugar. E esta, a campanha, ainda só olha o adro, sendo cedo para a liquidar através da plantação substituta de uma avenida de pelourinhos.

Nino Vieira (Kabi Nafantchamna) teve um fim trágico mas adivinhado. Desde 1970, ano em que o combati, que tinha como certo que seriam balas quem lhe encomendariam o enterro, prognóstico este que só pecou quanto ao prazo de cumprimento. Comandante guerrilheiro de excepção ("general avant la lettre" como lhe chamou o historiador guineense Leopoldo Amado), Nino sempre denotou insuficiências culturais, políticas e éticas que fizeram dele um desacerto na envergadura das responsabilidades assumidas enquanto companheiro de luta chegado de Amílcar Cabral. Aos méritos militares de Nino, que o levaram até à nuvem do mito que o fez pairar - muito exageradamente - nas mesmas alturas do génio militar do vietnamita Giap, muito deve o sucesso da luta guineense contra o domínio colonial português. Aos defeitos pessoais e políticos de Nino, a Guiné deve grande parte do caos e miséria em que descambou e que impediu que a independência da Guiné-Bissau fosse, para o seu povo (melhor, para os seus povos), uma emancipação de facto relativamente ao passado colonial. Na fase de juventude da independência da Guiné, quando tudo estava em aberto para a realização dos anseios que alimentaram a valente luta anticolonial dos guineenses (e caboverdianos que se lhes juntaram), Nino puxou tudo para o fundo – o Estado, os ideais, a generosidade de construir um pais novo, impondo antes a corrupção, o nepotismo, o gangsterismo, o golpismo, o fraticídio étnico e a cleptocracia. Nino queimou praticamente tudo o que ajudara a construir mas de que não foi, nem de perto nem de longe, o único, ou sequer o principal, obreiro. E tornou a Guiné-Bissau ingovernável. Agora, quando o assassinaram no seu reduto a que havia regressado como Presidente, Nino já era melhor que a Guiné que ele ajudou a destruir e que se enterrara entretanto na bolanha imunda do descontrole absoluto e do narcotráfico. E é nesta medida que é uma injustiça histórica que a Guiné, a quem Nino tanto deu e a quem tanto tirou, tenha devorado agora este filho da sua terra, cumprindo à distância de quarenta anos, aquele que foi o sonho falhado de tantos militares portugueses de elite e “torre e espada” ao peito (incluindo o mais famoso “cabo de guerra português” após Mouzinho): caçar o Nino.
-----
Durante vários meses (quase um ano), no serviço militar que cumpri na guerra colonial na Guiné, estive colocado no Sul e em pleno coração daquilo que se chamava então “o reino de Nino” (ele era comandante da "Frente Sul" do PAIGC, responsável pelo controlo do Cantanhez onde os militares portugueses se acantonavam em aquartelamentos que eram ilhas militares em "território libertado" e fora das quais a tropa colonial só se atrevia pela aviação e pelas operações especiais, muitas delas destinadas a tentar capturar Nino). Nunca lhe vi a cara, mas experimentei e bem (mal, muito mal) os efeitos do seu talento guerrilheiro e da sua ousadia militar. Durante esses difíceis meses que me pareceram não ter fim, aprendi a respeitar Nino Vieira enquanto chefe militar colocado no lugar certo da História. Mais, muito mais, que os generais e coronéis que me comandavam e os que para aquela guerra estúpida, essa Aljubarrota virada do avesso para imitar Alcácer Kibir, me enviaram metido no rebanho fardado da juventude da minha geração para soprar um moinho colocado no contra-vento das aspirações naturais dos povos à dignidade e autonomia. O Nino que emergiu na Guiné independente há muito que me desiludira e para com ele já só me restava o sentimento da repugnância. Nesta sua queda à bala, lembrando-me não do Presidente Nino mas do Comandante Nino, ladeando a contradição no juízo, só me sobra o respeito devido numa última homenagem, esta.
Imagem: Nino, nos tempos da guerrilha, junto a Amílcar Cabral.
---
Nota: Este post foi também editado aqui e aqui.

Não será mas parece: o PS combinou com o Bloco dar-lhe o protagonismo dos ataques no Congresso de Espinho. Como se viu pela imediata alegria de Louçã a registar a ocorrência e as também imediatas declarações enciumadas de Jerónimo como que a queixar-se da irrelevância a que foi reduzido por não terem malhado antes no PCP que tão cansado está de lutar.
Sócrates conta que não corre risco de hemorragia de votos para a direita. Descanso este que Manuela Ferreira Leite não perde oportunidade de confirmar (talvez seja para o enganar, talvez). Sócrates sabe que o desgaste do PS será pelo lado esquerdo e que os votos que aqui escorram irão sobretudo para o Bloco. Porque há hoje uma franja eleitoral importante, decisiva para maiorias e com dimensão aproximada à de votação em Alegre nas presidenciais, de votantes socialistas de esquerda que escolhe votar PS ou Bloco.
Mais que impedir a sangria de votos do PS para o Bloco, julgo que o ataque do Congresso do PS ao Bloco foi a consagração, em festa de maioridade, deste partido (a única novidade partidária de sucesso sustentado após 1975). No caso, com a representação da hostilidade. Mas sub-dizendo (o que só valoriza o Bloco): o nosso adversário é este, hoje contra nós, amanhã connosco. O que demonstra que Manuel Alegre não andou a trabalhar para aquecer. E depois de ter cumprido a sua missão porque é que tantos congressistas queriam a inutilidade da sua presença física em Espinho? Poupem-no, para que Alegre esteja em forma na festa de homenagem que o PS ainda lhe vai fazer.

Independentemente do significado político da escolha de Vital Moreira, de quem quase sempre tenho discordado, não tenho dúvida que ela sobe a qualidade política do debate (impondo-o até) como vai fazer suar a concorrência e será um contributo certo e seguro para qualificar os trabalhos do Parlamento Europeu, tornando-o mais perceptível na opinião política doméstica. Gostei de saber.

Doeu quando doeu, agora pode ser revisto em sossego e com a lucidez da parcialidade (aqui).
Domingo, 1 de Março de 2009

Antes, no processo que levou á sacralização do sistema bancário como sendo o lugar natural de residência do dinheiro, os últimos redutos de resistência persistiram nas imagens reais das velhotas aldeãs que demoraram até ao limite das suas forças em despejarem o dinheirinho para guarda dos senhores bancários. Foi uma luta de resistência do atavismo, através da fixação na segurança pela posse física de um bem escasso, que, derrotada, levou à absolutização do sequestro pela banca da esmagadora maioria do dinheiro circulante. De tal modo que a maioria do que hoje se paga e compra é feito sem se ver o cheiro e a cor do dinheiro. Ou seja, sem que as notas e moedas circulem pelas mãos, a não ser para comprar o jornal, pagar o café e outras miudezas. Assim, o dinheiro tendeu a tornar-se intangível e mesmo invisível. Recebe-se e paga-se sem dinheiro físico, com o dinheiro real ou como tal suposto a manter-se na banca, circulando na banca.
O desmoronar do sistema financeiro está a afectar a solidez da imagem das instituições bancárias. E uma nova inquietação assolou o cidadão comum, a da angústia do que está a passar-se com o dinheiro de sustento e poupança que transfugou das mãos e bolsos para os cofres bancários. Irá ele desaparecer na volatilidade gerada pela evaporação da solidez do sistema bancário? É natural que perante este pânico dos tempos que correm, haja regressões no comportamento perante o dinheiro e que a figura da velha aldeã afincada ao rolo de notas guardado (escondido) debaixo do colchão tenda a deixar de ser uma figura da nostalgia antropológica para constituir um novo paradigma do cidadão prevenido em tempo de crise. Leia-se esta notícia sobre os 160.000 euros que José Manuel Martín, autarca da localidade espanhola de Alcaucin, guardava debaixo do colchão e confirme-se como os velhos hábitos de segurança monetária são a expressão de um revivalismo próprio desta época.

A inteligência política de José Gomes André descobriu que, para o eleitorado do Bloco, os candidatos apelativos não têm idade:
não me parece que um Professor Universitário com alguma idade seja especialmente apelativo para o eleitorado do Bloco
Fica a dúvida: qual o candidato apelativo à malta do Bloco? Um portador de uma idade situada algures entre a de Fernando Rosas e a de João Semedo? E, sendo preferível ao odioso da condição de Prof, acumular a qualificação de dux veteranorum com cátedra em muitos anos chumbados com a de um fartar de experiência em aplicação de praxes académicas após um longo cansaço a lutar contra o pagamento de propinas?