Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

Ver e ouvir Sócrates na sua mensagem de Natal fez-me mal ao fígado. Eu não consegui desprender os olhos daquele movimento mecânico das mãos, em ritmo de baloiço robotizado, enquanto, acima delas, saía o discurso xaroposo e eleitoralista sobre a mudança de ano na crise, em que o PS e o governo eram os anjos Gabriel da nossa salvação possível. Acho que Sócrates tentou ter a abrangência demagógica de um presépio político, vendo-nos a todos com a inocência receptora de meninos jesus. E falou com a carga indigesta do açúcar frito. Depois dos abusos natalícios, é demais. Vou já tomar a pastilha para achaques do fígado, a que me relativiza tudo ao imaginar, em pesadelo, estar ali, em alternativa, a Avó Manuela a falar-nos.
Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008

Sou um apaixonado pela escrita e pelo raciocínio verbalizado de Rosa Montero. Imagina e escreve admiravelmente e quando conversa com entrevistadores com capacidade para conversarem em vez de interrogarem e apesar de ter uma aparência desengraçada à primeira vista, dá apetites de ser seu amigo de conversas soltas entre copas e tapas. E Rosa Montero tem pendurado numa orelha, julgo que só para mim, um brinco de cerejas de oposição: quanto à fiesta, estou mais de acordo com o pai dela que com ela mesmo que é senhora filha de toureiro. Mas, mesmo aí, defendendo a sua causa com um misto de sensibilidade literária e equilíbrio, eu entendo-a e imagino que ela, quiçá com ajuda edipiana, me entende.
Rosa Montero resolveu, em boa decisão, passar este dia de Natal comigo. Ela não me conhece, até porque não parece ser mulher virada para perder tempo com insignificâncias. E ninguém teve a brilhante ideia de me oferecer (emprestar já seria bom) um livro de Rosa Montero neste Natal (a maioria dos que me conhecem optou pelas rotinas chocolatadas dos sms e dos e-mails). Eu é que tinha guardado o seu último romance (*) para ler hoje, compensando-me da rotina de um dos dias mais estereotipados e chatos do ano, razão suficiente para alimentar o meu desprezo profundo pelo ritual em que mais evidentemente se exprimem as hipocrisias da ideologia da fraternidade cristã, dualizando-se na caridade pontual da época e no enconchamento da célula familiar como horizonte do universo do estar e partilhar.
Não procuro ser egoísta nos gostos, muito menos em dia de Natal. Deixo-vos, pois, um cheirinho de Rosa Montero: “De todos os excessos que um homem pode cometer, o mais repetido por Matias era o do silêncio.”
(*) – “Instruções para salvar o mundo”, romance, Rosa Montero, Porto Editora
Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008
Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

Pouco tempo passado após Bento XVI conquistar súbitas simpatias ao anunciar a sua empatia com Galileu, eis que lhe está a cair o carmo e a trindade em cima por considerar que
Ora se o Papa perdesse a boa ordem da arrumação dos sexos segundo a ordem genética imposta na gestação como é que ele ia conservar o monopólio masculino da carreira sacerdotal? Ia baralhar os regulamentos de admissão aos Seminários e até se sujeitava a consagrar como padre um transsexual devoto e casto com vocação para usar paramentos. Já basta endossarem-nos a factura da peste da pedofilia que ataca tanto padre sexualmente castrado pela Santa Madre Igreja.

O mundo constrói-se, pula e avança, através do diálogo. E é caso raro ter-se uma fidelíssima neta de um Inspector da PIDE na nossa caixa de comentários, demonstrando que José Casanova não é solitário na embirração com a historiadora Irene Pimentel. Quando acontece, há que aproveitar para dialogar. E a época ajuda.

"Esta mão que segura o apito vale dois pontos".
(Sinalética segundo o Tenente-Coronel Pedro Henriques)
Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

Está a dar que falar a polémica que estalou entre uma blogger cubana (Yoani Sanchez) e Sua Excelência Mariela Castro (sexóloga e filha de Don Raul Castro). Na retórica desenvolvida por ambas, as diferenças são um retrato de toda uma hierarquia sócio-cultural própria das sociedades totalitárias, com a arrogância dos estereótipos do insulto e da desqualificação usada pela nomenklatura e a irreverência mordaz dos inconformistas que ousam interpelar os poderosos. E o duelo é assim, enquanto o poder entende só reprimir pelas palavras e pelos éditos. Porque quando a paciência se lhes esgota, mandam os esbirros nivelarem os discursos, metendo silêncio onde a crítica teima em aflorar no chão do pensamento único.
Adenda (23/12/2008, 0h27): Um comentador chamou a atenção de que tinham silenciado o blogue de Yoani Sanchez (em Cuba ele está há muito interdito de ser visto por acção das autoridades que controlam o uso interno da internet). Confirmei que assim é, neste momento o servidor internacional não permite aceder ao "Generacion Y". Vamos esperar para ver o que se passa, se é uma anomalia temporária ou mais uma conivência com a mão repressiva da decrépita ditadura cubana. Seja como for, fica aqui um abraço solidário à blogo-companheira Yoani com a certeza que contará com a solidariedade de todos os cibernautas honrados e livres e que não querem que o uso da internet seja uma expressão de gozo pessoal de que outros sejam privados por ousarem pensar e dizer diferente da propaganda de regimes de partido único, particularmente os que se recusam a recordar egoisticamente os bens supremos da democracia e da liberdade que, aqui, o 25 de Abril nos trouxe, não entendendo que o povo cubano merece menos.
Adenda (23/12/2008, 15h50): O “Generación Y” voltou a estar acessível. E reaparece com este post de Yoani.

Para quem gosta de humor insólito, aqui está uma excelente ideia através de um livro editado de fresco (*). O prefácio é da autoria de João Cravinho, um intrépido combatente contra a corrupção. E teve honras de apresentação concedidas por Pinto Balsemão (um dos famosos depositantes do BPP) no vetusto templo de formação de economistas (ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão).
(*) – “João Rendeiro, Testemunho de um Banqueiro, A história de quem venceu nos mercados”, Myriam Gaspar, Bnomics
PS - Agradeço a dica a Jorge Ferreira.

Não fosse a crise e alguém imaginava um antigo presidente de câmara de uma capital de distrito a andar pelos supermercados a comparar os tamanhos e os preços de um saquinho de pinhões? Ainda por cima sujeito a trapalhadas com o saco que se mete no bolso e faz tocar alarmes.
Mas crise é crise. E até um ex autarca impoluto, com uma longa e limpíssima folha de serviços desinteressadamente dedicada ao bem comum, não se livra das tormentas dos efeitos perversos do dinheiro escasso.
Domingo, 21 de Dezembro de 2008

Espevita o patriotismo ler na imprensa estrangeira que uma senhora portuguesa foi uma mestra antecessora de Bernard L. Madoff. Como sucede a tantos e tantas dos nossos e das nossas, uma pioneira das aldrabices financeiras que teceram a actual crise, esse génio português tão esquecido na pátria caseira, é lembrada pela descoberta e consequências dos talentos dos seus aprendizes de alto coturno. Que as fraudes simplórias nos valham em termos de notoriedade:
Principios de los 80 del siglo pasado. Doña Branca causaba furor en Portugal. Periódicos de todo el mundo acudían a su austera pero confortable residencia para intentar desvelar el truco de su negocio. A sus 70 años era la cabeza de la única banca privada de Portugal. Su aspecto es humilde y alardea de una inquebrantable moral católica. Si doña Baldomero fue apodada como la madre de los pobres, Doña Branca era su banquera.
Los clientes de la banquera de los pobre s recibían un interés mensual del 10%. Muchos de ellos decidieron reinvertir las cantidades, creyendo que su dinero iba acumulando las ganancias. En medio de la crisis que asolaba al país las personas que llamaban a su puerta para que obrase el milagro se contaban por millares. Doña Branca se amparaba en su astucia para saber invertir y en la liquidez que tenía, lo que le abría la posibilidad de invertir en negocios sustanciosos. Y un lema: "Yo ayudo a los ricos a ser más ricos y a los pobres a ser menos pobres, y sin meterse en negocios que la moral cristiana reprueba".
Doña Branca estafó con una estructural piramidal unos 150 millones de dólares de la época a más de 600 personas. A los 74 años terminó en una cárcel lusa tejiendo alfombras con otras reclusas.
Sábado, 20 de Dezembro de 2008

1 - Nos últimos três anos e meio, aumentaram os valores do abono de família, dos passes escolares, a abrangência da acção social escolar, as deduções fiscais para os créditos à habitação e desceu o Imposto Municipal sobre Imóveis.
2 - Foi o objectivo do Governo “pôr as contas públicas em ordem” que permite agora a adopção de mais políticas sociais e de combate à crise, através de medidas de protecção das empresas e dos empregos.
3 – O Governo procedeu “ao maior aumento de sempre do salário mínimo, que continuará a subir em 2009” e que “180 mil idosos saíram da pobreza em consequência da aplicação do complemento solidário para idosos”.
4 - “O Estado social é para ajudar quem precisa. Num momento em que está a ser preciso, o Estado social disse presente”.
5 – O Executivo “honra a história do PS”.
6 – “Os portugueses sabem bem quem nós somos. Somos o grande partido popular da esquerda democrática e da esquerda moderada em Portugal".
Como é que subitamente um Poeta incoerente, ambíguo, lunático, ultrapassado, retórico, sem dizer coisa com coisa, ele e só ele, fazendo o jogo da direita ao afirmar-se pela esquerda, consegue ser a ameaça ao sucesso eleitoral do PS?

Foram depositados no “Centro de la Memoria Histórica de Salamanca” 4.222 caixas e 293 livros procedentes dos arquivos dos órgãos políticos e repressivos do Franquismo. Ou seja, muita matéria-prima para que os historiadores ajudem a recuperar do "apagão" pactuado sobre a memória da ditadura.
Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008

Enquanto o debate político estiola, permanece em fundo o ruído do discurso hiper ideológico, recheado de estereótipos e do jogo viciado de que é bom para “nós” o que avilta os “outros”, sendo apenas necessário que sirva a agenda. Este expediente de visão utilitarista partidária manifesta-se à esquerda e à direita. Jorge Ferreira, um comentador de direita que muito anima a truculência na discussão política blogosférica, quase sempre fazendo-o de forma inspirada e frontal, através de um extenso post (transcrição de um artigo publicado aqui) em que dá a volta ao mundo político-partidário, centrada como sempre na óptica da relação de ódio Monteiro/Portas, fornece um esclarecedor exemplo de como um mesmo tipo de iniciativa política é péssima e até cheira a mofo se for realizada pelos “outros” mas seria excelente e muito útil se fosse feita “com os nossos”.
Ora veja-se este maniqueísmo capaz de irritar (intelectualmente) um santo:
Para cúmulo, é Manuel Alegre que está a surgir como a esperança de tirar a maioria absoluta ao seu ainda partido, através de um novo partido, onde meterá no bolso meio eleitorado do Bloco, outro meio do PCP e mais uns quantos românticos de esquerda que resistem no PS, mas saudosos das cantilenas do padre Fanhais e do Vá-Vá ali à Av. de Roma, versão pré-fast-food.
O que é grave é que, se isto continuar assim, o debate político e eleitoral vai ser novamente amputado de correntes de pensamento e alternativa essenciais para o país. Irá centrar-se entre o estatismo, o despesismo, a falta de reformas a sério que o PS representa e as mais anacrónicas, ultrapassadas e derrotadas ideias da história sobre a melhor forma de organizar as sociedades, que serão representadas pelo NPS (Novo Partido Socialista).
Tudo o que se ouve nos Fóruns da velhinha e revolucionária Faculdade de Letras de Lisboa, nas tertúlias, nos blogues dessas esquerdas festivaleiras, cheira a mofo, mas surge como se fossem enormes descobertas que nos vão salvar do mercado, o novo diabo, como se o problema da crise financeira não fosse um caso policial e criminal, mas sim um caso de mau funcionamento do mercado.
(…)
Razão teve Manuel Monteiro nas declarações públicas que fez esta semana. Inconformado com a ausência de uma alternativa credível à direita, Manuel Monteiro fez um apelo público à convergência, desafiando Luís Guedes, mas também personalidades como José Ribeiro e Castro, João Luís Mota Campos, José Luís Nogueira de Brito, Jaime Nogueira Pinto, Pedro Ferraz da Costa, entre outros, para, "num clima de liberdade", organizarem um Fórum das Direitas.
"Se as esquerdas são capazes de o fazer, seria grave que a direita não o conseguisse. Paulo Portas e o seu partido é um bunker fechado sobre si próprio, de ar viciado, que não permite que alguém respire", disse Manuel Monteiro.
Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

Há quem por estar de mal com a História, detesta os historiadores:
Adendas (20/12/2008):
1) Felizmente houve alguém do ofício atingido que reagiu ao disparate mal intencionado do artigo do "Avante", metendo os pontos nos ii. A ler aqui.
2) É o segundo ataque com que, num curto espaço de tempo, o "Avante" procura atingir profissional e academicamente a historiadora Irene Pimentel, desta vez sem sequer a nomear (pertence a ela, até ao momento, o único livro editado com a biografia de um inspector da PIDE). Embora este artigo do orgão comunista não esteja assinado, presume-se que a sua autoria seja uma retoma do artigo anterior em que o PCP iniciava a marcação a Irene Pimentel. Ou seja, escrito por José Casanova. Porque foi Casanova que iniciou a "caça a Irene Pimentel", Casanova é o director do "Avante" e Casanova é o responsável do PCP pelas questões da Cultura, Artes e Letras/Intelectuais (conforme se lê no organigrama oficial das tarefas orgânicas dos dirigentes do PCP dado a conhecer no mesmo número do "Avante"), portanto o controleiro da História e dos historiadores .