O oposicionista mais versátil, corrosivo e persistente contra o governo, o director do “Público”, e não lhe nego o mérito cívico de pôr um jornal a fazer aquilo em que a Oposição se mostrou incompetente, mostrou-se hoje alarmado pela “política de terra queimada” que anda a chamuscar Sua Excelência, o Inquilino de Belém. Pois, o caruncho não devia chegar ao pau de que é feito aquele santo. Bem me queria parecer que a táctica era desgastar até que de Belém saísse a luz da Solução.
Convenhamos. O dr. Loureiro interessa-me pouco, muito pouco. Como governante pareceu-me medíocre, como pessoa tem falta de graça e é tonitruante, com um vago toque de caspa no bigode e, definitivamente, veste-se como um parvenu (que, aliás, é.). Foi, porém, deputado, ministro, é Conselheiro de Estado. Provavelmente trará na lapela uma condecoração das boas, das honrosas, e tudo isso faz com ele me embarace. Que diabo sou português, vivo aqui e não gosto deste faduncho mal cantado e pior acompanhado.
O dr Loureiro pensa que o queremos cravejar de flechas. Porque é bonito, rico, alto e loiro. Ou porque é inteligente e bom conversador. Ou porque tem sorte e trabalha muito, tanto que ganhou uma fortuna. E que por isso estamos invejosos.
Está enganado. De inveja nicles, raspas de nada. E do resto, as leitoras julgarão. Conviria entretanto, parar e pensar. Olhar, parar e escutar, como se faz nas passagens de nível. Ou por outras palavras: só se deve ir à televisão se houver algo para dizer. Algo credível. Algo que se possa provar. Algo que não corra o risco de ser desmentido.
É por isso que ele tem a incómoda sensação que anda por aí alguém a querer zagunchá-lo. Não anda, é a imaginação dele a trabalhar. Que belo romance teríamos aqui se ao dr Loureiro, em vez de negócios, lhe desse para as belas letras.
Ao ler esta deliciosa narrativa de Ana Cristina Leonardo sobre a sua saga de vigilância revolucionária no “25 de Novembro” do ido 1975, lembrei-me que, há quatro anos e meio atrás, meti post sobre a minha memória desse dia. Está aqui.
A classe dos exploradores, dos latifundiários e dos capitalistas, não desapareceu nem pode desaparecer de repente sob a ditadura do proletariado. Os exploradores foram derrotados, mas não aniquilados. Continuam a ter uma base internacional, o capital internacional, de que eles são uma sucursal. Continuam a ter em parte alguns meios de produção, continuam a ter dinheiro, continuam a ter um grande número de relações sociais. A energia da sua resistência cresceu centenas e milhares de vezes, precisamente em consequência da sua derrota. A “arte” de dirigir o Estado, o exército, a economia, dá-lhes uma superioridade muito grande, de modo que a sua importância é incomparavelmente maior do que a sua parte no conjunto da população. A luta de classe dos exploradores derrubados contra a vanguarda vitoriosa dos explorados, isto é, contra o proletariado, tornou-se infinitamente mais encarniçada. E não poderia ser doutro modo se se fala de revolução, se não se substitui este conceito pelas ilusões reformistas» (Lenine, “A economia e a política na época da ditadura do proletariado” in Terceiro tomo das obras escolhidas, p.208) [itálicos nossos].
Percebo. Este e mais alguns, os que não sabem ler as fichas e os que não contam com as modificações de parâmetros anunciadas pelo Ministério até que elas saiam em portaria regulamentadora devidamente editada pela Imprensa Nacional, arriscavam, em avaliação, ficarem-se pelo “Muito Bom”. O que seria um trágico motivo para a divisão da classe.
Se assinasse isto, uma espécie de declaração de pertença ao escol moral da nação lavrada no notariado do feminismo, ia sentir-me tão idiota como Cavaco se terá sentido quando mandou emitir o comunicado a assegurar que, contas depositadas à parte, nada teve a ver com o BPN. Não me peçam tanto.
Trocando por miúdos o insólito comunicado da Presidência da República sobre o Presidente e o BPN dá isto?
Enquanto promove a beatificação e canonização a esmo de centenas de mártires do lado franquista durante a guerra civil, o Cardeal Rouco Varela, presidente da Conferência Episcopal Espanhola, defende as virtudes do esquecimento para com os crimes e as centenas de milhar de vítimas do lado republicano. Sem verter uma palavra para o direito cristão a sepultura por parte dos milhares de fuzilados às ordens de Franco e espalhados insepultos em centenas de valas comuns. Um verdadeiro hipócrita nada evangélico este Senhor Rouco.
Nota única de reflexão pessoal: estarei mesmo a mudar de assunto ou a ver, rebobinado, um filme já (re)visto?
- Conserva ou não Dias Loureiro no lugar que este detem no Conselho de Estado, uma qualidade de cargo que o imuniza de prestar todas as contas que qualquer vulgar cidadão se obriga perante a justiça?
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