Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

Se o exemplo pega, atrás das emoções de repulsa por impulso, teremos Ferreira Leite com o casamento só para procriação. Ou Passos Coelho a privatizar a Caixa Geral de Depósitos para enfrentar a crise. Ou seja, a imaginação no poder.

Esta crise, como todas elas – para quem as veja com a objectividade marxista-leninista – encerra lições. E uma delas, apesar de algumas teses que persistem à «esquerda» professando confiança numa mudança desta Europa num espaço democrático, é a de que, de facto, esta Europa não é reformável.
Pergunta inocente: Será que vão deixar de concorrer ao Parlamento Europeu?
Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Durante a minha adolescência e muitos anos seguintes, alimentei o sonho de ir à Islândia. Sei que foi efeito perdurável de um livro que me fascinou, lido na fase inicial da adolescência e de que esqueci nome e autor, sem que a fixação de atracção islandesa me largasse. Nunca calhou ir à Islândia, por isto ou por aquilo. Mas o projecto não esmoreceu. Sei agora que a Islândia entrou em bancarrota. E, automaticamente, brutalmente, um país em bancarrota esfuma a vontade da visita em descoberta. Para já, a bancarrota de um sonho de viagem que me vem da adolescência, é a primeira marca de fogo que recebo da crise. Triste, preparado portanto, declaro-me em espera pelo resto, pelas réplicas.
Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008
Jerónimo de Sousa, sempre moderno e criativo no enriquecimento do marxismo-leninismo, defendeu ontem, no Porto, a nacionalização da banca e das empresas de energia. A seguir, decerto vai querer de volta o controlo operário, a reforma agrária, a Cintura Industrial de Lisboa, o MFA e a União Soviética pré-Gorbatchov. E se não lhe param o ímpeto modernista, ainda acaba a "avançar", nas ideias e projectos, para antes do Congresso fundador do PCP em 1921 e propor que nos inspiremos no anarco-sindicalismo que enformou as origens do comunismo português.
Pela foto da imagem: A semelhança mais visível entre o PCP liderado por Cunhal e o PCP com Jerónimo, é a figura do sempre atento "camarada guarda-costas" que manteve a sua tarefa partidária na sucessão dos Secretários-Gerais.
Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

A grande maioria da população considera a homossexualidade uma depravação, um acto intrinsecamente desordenado e contrário à natureza. Não se trata de um preconceito, mas de uma opinião válida e legítima a ponderar.


Um dia, quando um casal de militantes do PCP contar as suas trajectórias pessoais-partidárias (diferentes mas tão iguais) com a mesma sinceridade aberta destes outros, então as “paredes” tornam-se mesmo “de vidro”. E, pelo peso da emoção partilhada, é provável que ninguém se lembre de, a propósito, falar em renegados e em anti-comunismo.

Cavaco Silva em 5/10:
«muitas famílias têm dificuldades em pagar os seus empréstimos que contraíram para comprar as suas casas; há idosos para quem a reforma mal chega para as despesas essenciais; há jovens que buscam ansiosamente o seu primeiro emprego; há homens e mulheres que perderam os seus postos de trabalho»
Cavaco Silva, dois dias antes:
«Fiquei surpreendidíssimo por ver como as vacas avançavam uma atrás das outras, se encostavam ao robot e se sentiam deliciadas enquanto ele, durante cerca de seis, sete minutos, realizava a ordenha.»

Perante este texto, curvo-me em vénia de delícia. E subscrevia-o se a minha pessoalíssima dose de arrogância permitisse tanto atrevimento. Mas se assim fosse, remendaria apenas que, em caso meu, entraria porta dentro do Centro de Saúde em passo de ganso e gritaria para meter o pessoal em respeito: “Toca a entoar: Heil Führer!”. Só para que a paga do anacronismo mais se notasse.
Domingo, 5 de Outubro de 2008

O centenário da instalação das fábricas da CUF no Barreiro tem sido pretexto para memorialismos pautados por várias modalidades de homenagens, saudades e nostalgias: - a grande produção industrial perdida; o fim das grandes concentrações proletárias; a perda do patronato paternalista. Pela importância grandiosa da CUF, em si mesma uma dissonância controlada com o ruralismo salazarista, é impossível analisar-se a indústria portuguesa, o nosso patronato e o nosso operariado, sem se estudar a história do fabrilismo barreirense.
Não tem sido parca a produção editorial recentemente dedicada à CUF e aos “cavalheiros da indústria” que a comandaram através de uma dinastia familiar (Alfredo da Silva, Manuel de Mello, Jorge de Mello) (*), a norma tem sido o predomínio do fascínio sobre a “obra social” e a grandeza do império industrial relativamente a uma apreciação multifacetada. Nomeadamente, tem sido demasiado tímida a apresentação do reverso do leque de “regalias sociais” concedidas aos trabalhadores da CUF, nomeadamente as várias facetas da repressão patronal que se casavam com o aparelho repressivo do fascismo. Neste sentido, o excelente documentário de Paulo Silva Costa (“Saudades da Fábrica”) passado na RTP 1, ontem à noite, devia servir de orientador metodológico de uma abordagem que revelasse os vários ângulos do que foi a realidade CUF. Um gigante industrial (foi, nos seus tempos áureos, o mais conglomerado da Península e um dos maiores da Europa) como as fábricas da CUF no Barreiro, merecia estudos de especialistas relapsos à iconografia. Que enquadrassem o significado de uma prática patronal social-paternalista como garantia de “paz social” e facilidade de recrutamento selectivo, mas também a própria natureza da CUF como superestrutura económica da ditadura, beneficiando da protecção do regime (coberta pelo “condicionamento industrial”) e com um formidável aparelho de controlo e repressão internos (a enorme rede de legionários, bufos e pides que vigiavam “on job” os trabalhadores; a existência intra-muros de um dispositivo militar aparatoso da GNR); os ritmos de trabalho impiedosos; a facilidade com que se despedia; a profunda e duradoira poluição que envenenou várias gerações de barreirenses.
(*) – Referimos os seguintes títulos que são exemplos da muita bibliografia recentemente publicada sobre a CUF e os seus patrões:
- “Alfredo da Silva”, Miguel Figueira de Faria, Edições Bertrand
- “Manuel de Mello”, Vários, com coordenação de Miguel Figueira Faria, Edições Inapa
- “Jorge de Mello”, Jorge Fernandes Alves, Edições Inapa
- “A Fábrica – 100 anos da CUF no Barreiro”, vários, Edições Bizâncio
- “Rua do Ácido Sulfúrico”, Jorge Morais, Edições Bizâncio
- "Alfredo da Silva, a CUF e o Barreiro", Vários, Edições bnomics
NOTA: Para os curiosos em saberem como foi possível que, coisa rara, durante um dia (no ano de 1954), os Mellos foram desfeiteados, não conseguindo poluir o Barreiro, leiam aqui.
Sábado, 4 de Outubro de 2008

O skin condenado em Tribunal por “bagatelas penais” (segundo o seu advogado) devia ter a pena agravada depois de dizer aos jornalistas que os “nacionalistas” do seu bando lutam por um futuro melhor para as nossas crianças. Por crime de estupidez descarada.
Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

Bento XVI vem-nos lembrar que o Papa não é infalível. Sobretudo quando dogmatiza experiências de vida que não viveu e não permite que os seus ministros vivam. Sentenças como esta demonstram que a Igreja, em vez de rever os postulados desajustados da dinâmica cultural e social, prefere a hipocrisia da artificial e rígida permanência doutrinária.
Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

O Ministério da Educação, no seu site oficial, inscreveu um erro de informação sobre o pagamento de manuais escolares obrigatórios. Errar é humano, embora no caso se detecte facilmente um sinal de pecado de gula de propagandear feitos de generosidade na distribuição de benefícios. A correcção do erro devia ser acompanhada pelo pedido de desculpas aos pais pelas expectativas criadas e goradas. Com a humildade a que se obriga quem erra. Mas o que fez o Secretário Pedreira? Encontrou a formulação irritantemente arrogante de atribuir o lapso a “uma comodidade de expressão”! Esta frase, mais infeliz que o erro em si mesmo, diz bem do tipo de relacionamento que vigora entre governantes e governados. Mais que uma incomodidade, este Secretário Pedreira é um lapso enfatuado.
Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Ouvi na rádio uma reportagem sobre a praxe a que foram submetidos os caloiros da Faculdade de Medicina de Lisboa. E na marcha que me parecia de difícil retorno da evolução degradante do fenómeno praxista para a boçalidade e a violência, eis que apanho com uma surpreendente nota de inteligência útil. Os praxados foram destacados para o contacto com o público visando a angariação de dadores de sangue e medula óssea. Donde confirmo que a estupidez não dura sempre em toda a parte.