Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Cavaco Silva tem uma notável capacidade política para debitar as banalidades mais bimbas. Como esta:
Irra, Sua Excelência chega a ser exasperante de tão decepcionante.

Poucos são os que passam, hoje, sem a Internet. Estes, no Kwait, tão pouco. Diz a notícia que acompanha esta foto que eles não estão a blogar, apenas acompanham os solavancos bolsistas mundo fora. Compreende-se.

Aicardo de Jesús Agudelo Ramírez (“El Paisa”) (na foto), um dos chefes das FARC mais sanguinários, a quem se atribui a responsabilidade por mais de 400 sequestros e 500 homicídios, entre os quais os de um antigo Governador de Antioquia e um antigo Ministro da Defesa, parece que foi abatido.
A confirmar-se a notícia, este sujeito fica não só fora da lista de entrevistas conduzidas por Miguel Urbano Rodrigues como não vai ter direito a EP para vender revistas na “Festa do Avante”.

Fica aqui lavrada a minha homenagem à memória do sacerdote católico espanhol Antonio Llidó Mengual. O pretexto é congratular-me com a (finalmente!) condenação judicial dos esbirros de Pinochet que, em 1973, o torturaram barbaramente e assassinaram no Chile caído sob as botas do fascismo, fazendo-lhe desaparecer o corpo.
Que esta homenagem alivie a minha fama de anticlerical. Embora possa não ser suficiente para tanto, atendendo a que não consta que o Padre Antonio Llidó Mengual faça parte das listas de candidatos a beatos e a santos que a Santa Sé é tão pródiga no seu recheio ao incluir todo e qualquer sacerdote ou monja que seja maltratado ou se tenha mostrado sábio a ministrar o ópio da resignação aos povos.

Fernanda Paiva Tomás (1928-1984) foi funcionária e dirigente do PCP no tempo da clandestinidade. Quando saiu da prisão, em liberdade condicional, no final de 1970, tinha 42 anos de idade e cumprira perto de dez anos como prisioneira política. Somando o tempo de acção política na clandestinidade, metade da sua vida fora, até aí, passada na “sombra”. O fascismo odiava-a, foi a mulher antifascista mais tempo presa e a PIDE aplicou-lhe torturas físicas e psicológicas que, por regra, reservava para os presos do sexo masculino (não se conhece um outro caso semelhante). O PCP esqueceu-a e esquece-a, deliberadamente, no seu gosto contumaz – que aprendeu sabe-se onde – por retocar permanentemente as "fotos políticas", na sua galeria de heróis e mártires, apesar de à causa comunista Fernanda Paiva Tomás ter dedicado o mais vivo da sua vida.
Em boa hora, Diana Andringa desfaz aqui mais uma bruma na memória filtrada.

ETA comprova que não se adapta a outra forma de intervenção política que não sejam a da bala e a do explosivo. E matam porque o gosto de matar lhes afoga qualquer ideia política. São assassinos em que o nome de baptismo é indiferente a não ser para o registo prisional. Ao contrário deles, as vítimas são pessoas. A última chamava-se Luis Conde de la Cruz, tinha 46 anos, era militar, espanhol, europeu e cidadão de um mundo que se quer civilizado. A diferença de sempre, em democracia, entre carrascos e vítimas. A grande diferença.

Cinco figuras públicas alemãs (Hans Eichel, Gerhard Schröder, Angela Merkel, Edmund Stoiber e Guido Westerwelle), esculpidos em mármore por Peter Lenk, em exposição pública na cidade de Botman-Ludwigshafen, caricaturando o arco que, na Alemanha, tem sustentado o poder político-económico da globalização, está a provocar polémica viva sobre a intercessão entre arte e política. O conservador Christoph Palmer chama-lhe “uma obra miserável, um truque de comerciante”. Peter Lenke defende-se dizendo que “a política é bem mais pornográfica que qualquer arte”. E se o conceituado “Frankfurter Allgemeine Zeitung” lhe dedicou uma página no passado domingo, certo é que a escultura de Lenke não só não passou despercebida como incomodou e não o fez pouco.
Por cá, onde os políticos praticamente só têm sido beliscados pelo humor televisivo, a que já se habituaram, estes que se preparem pois a Arte ainda dispõe de formas várias, embora adormecidas, de perturbarem a placidez da submissão indiferente aos senhores do poder, dizendo-lhes que, tal como o rei da história, vão nus, apesar das vestes diáfanas e transitórias do mando ou da ambição a tomarem-lhe o gosto.
Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

Se Deus fez César das Neves para nos alegrar as segundas-feiras, não comentemos tal obra. Nem a lamentemos. Resta-nos, então, copiar-lhe as tiradas:
Não é extraordinário que Deus tenha feito o universo e depois essa obra se ponha a comentar o que Ele fez e o que ela é? Temos mil críticas à forma como o mundo funciona. Como se houvesse alternativa e não fosse um privilégio indiscritível simplesmente existirmos. Nós somos os que conseguiram convite para participar neste momento e neste cantinho da Criação. Lamentar o mundo e a sociedade, desdenhar da obra e Autor é, senão grosseria, pelo menos tolice.

Está acessível o décimo e último texto de Rui Bebiano sobre “Outubro”, editado em véspera de o autor se confessar converso às maravilhas dos módicos e santos dotes de Nuno Álvares Pereira. E antes que este ano acabe, assim o neo-catolicismo por encomenda postal lho permita, teremos a série de posts editados em livro.

É um evidente paradoxo que no mesmo momento em que a direita neo-con, obrigada a abandonar o dogma de “menos Estado”, metia a mão do Estado e os dólares dos contribuintes a evitar o naufrágio do capital financeiro, o PS, da esquerda daqui, estivesse a votar o novo Código do Trabalho para ajustar mais desequilíbrios nas relações capital-trabalho. Fica para a história e a memória esta gaffe do PS a caminhar em contra-mão. Que não é sequer desculpável por a CGTP, ao permitir que o PCP lhe monopolize a agenda, confundindo sindicalismo e militância partidária, ter inibido a possibilidade de uma frente ampla de indignação social perante esta ofensiva anti-laboral.
Domingo, 21 de Setembro de 2008

O projecto de resolução política para o XVIII Congresso do PCP foi hoje aprovado por unanimidade no Comité Central do partido, anunciou hoje Jerónimo de Sousa que destacou "a coesão e a unidade" na direcção comunista.
"As teses foram aprovadas por unanimidade o que é também demonstrativo da unidade e coesão que existe hoje na direcção do partido", afirmou Jerónimo de Sousa, em conferência de imprensa para apresentar as conclusões da reunião do Comité Central (CC).
O Comité Central do PCP conta com cerca de 180 elementos.

A dogmatização das interdições sexuais por parte do Vaticano numa época que se privilegia a exposição (a procurada e a oferecida) e caminhando tendencialmente para a informação e o conhecimento instantâneos, é um dossier difícil de gerir, tornando os jogos de hipocrisia cada vez com maior dificuldade em se consumarem. Inevitável é que estalem constantemente as contradições entre as pregações e os decretos de moralidade com as realidades, muitas vezes Igreja dentro.
Agora temos o sururu envolvendo o Cardeal John Henry Newman (na foto), que viveu no século XIX tendo transitado do anglicanismo para o catolicismo, sujeito a processo de beatificação, em que Bento XVI está particularmente empenhado, tanto mais que se sabe quanto o legado teológico do Cardeal Newman contribuiu para a formação intelectual de Ratzinger. O que está a tornar esta beatificação tumultuosa foi a sabida ligação homossexual do Cardeal Newman com o seu companheiro Padre Ambrose St. John, junto com quem está sepultado (numa “ligação para além da vida”), e a quem terá dedicado, segundo palavras que deixou escritas, “um amor tão forte como o de um homem por uma mulher”. E, naturalmente, a Igreja Católica, com o seu índex sexual em vigor, beatificar um Cardeal que foi homossexual assumido é, reconheçamos, um imbróglio difícil em passar por coerente. Para já, a orientação do Vaticano é tentar descompor o acasalamento tumular entre John e Ambrose, separando os restos mortais do beato dos do seu companheiro, violando-lhes as vontades expressas. Depois, com a ajuda dos poderes curativos da amnésia, persistir na diabolização da homossexualidade. Sem que se perca mais um beato.

No mínimo, foi uma opção original meter um automóvel a disputar com um ministro o protagonismo de um romance que não chega a sê-lo (ficando-se pela crónica biográfica fantasiada e extasiada). E esse será o principal mérito de Filomena Marona Beja no seu “romance” sobre Duarte Pacheco (*). Com a ajuda de que nem o automóvel era um qualquer (um potente Buick em tempo de muitos poucos automóveis) e o ministro seu passageiro a distinguir-se pelo imenso poder de mando e pela frenética capacidade de realização.
Se a parte que sobrou de Lisboa castiça foi a que sobreviveu ao Terramoto amparada pelo Castelo, o resto que conta foi traçada pelo Marquês ou por Duarte Pacheco, pedindo este meças ao seu antecessor absolutista no poder de fazer e refazer. E se Pombal teve mãos livres para refazer a Baixa porque a natureza lhe ofereceu como estaleiro uma parte da cidade em ruínas e com os cofres atestados pela rapina colonial, Duarte Pacheco teve, a par do seu talento de engenheiro empreendedor, o poder ilimitado de rasgar, expropriar, deitar abaixo e construir, contando com a cobertura submissa (embora resmungona) do ditador (fora ele que o fora buscar à cátedra de Coimbra para o cadeirão do mando) e os proventos chorudos da venda do volfrâmio aos nazis para estes fabricarem os seus tanques bélicos prontos a conquistarem o mundo.
Certo é que Duarte Pacheco, discípulo devoto de Speer, imitador consistente do refazer arquitectónico e paisagista da Alemanha da pujança nazi, cujas marcas arquitectónicas perduram ao virar de qualquer esquina da Lisboa “limpa”, expandiu Lisboa à custa de engolir a sua periferia ruralizada e, ainda agora, “meia Lisboa” tem a sua marca impressiva e se recorda a longa ditadura, realça permanentemente o poder de realização implacável de Duarte Pacheco com a sua corte de arquitectos do regime.
No frenesim realizador de Duarte Pacheco (que, além de Lisboa, deixou marcas em todo o país), a mobilidade era, em tempo de vagares nos transportes e nas comunicações, uma questão vital na fúria de reconstrução (todos sabiam que o valor bélico do volfrâmio se esgotaria logo que terminada a guerra), cirandando entre estaleiros. É aqui que o Buick devorador de quilómetros de Duarte Pacheco atinge a importância que, admiravelmente, Filomena Marona Beja realça, dando-lhe papel de protagonismo. Ao ponto de, num troço de estrada mal construído, o cansado Buick se revoltar contra o seu passageiro sempre apressado, matando o dono, clímax inevitável na corrida do fazer contra o tempo, antes que as minas de volfrâmio se transformassem, como viria a acontecer, em buracos de pouco valor.
(*) – “A Cova do Lagarto”, Filomena Marona Beja, Sextante Editora
Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

Estão a ser penosas as últimas semanas presidenciais de Bush. Pior ainda: perigosas, muito perigosas.
Um império com um imperador desacreditado dentro e fora de portas, dá nisto: falta de respeito, desaforo. Se dentro, Sarah espevita sondagens, enquanto o general Petraeus sai do Iraque antes que a América de lá saia e os bancos americanos desatam a falir porque se destrairam a jogar dominó, os dentes arreganham por todo o lado perante um momento único de máxima fraqueza americana: Chavez mostra os seus recursos em oratória lumpen; os embaixadores americanos na América do Sul são despejados como inquilinos mal cheirosos; a Rússia manda barcos e aviões passearem até a Venezuela para vingarem a memória de Krutchov; Cuba pede um interregno no bloqueio para receber asfalto, tijolos e cimento para reparar caminhos e casebres. Por cá, vai-nos salvando o optimismo evangélico de Sócrates e Teixeira dos Santos, garantindo que o PIB se aguenta 0,1% acima dos que mais descem ou menos crescem, mas sabe-se que um optimista excessivo está sempre na véspera de se transformar num pessimista deprimido.
O mundo que aguente até às eleições americanas. Se for capaz.

O homem tem mau carácter. Ponto. Tem a subtileza de um elefante numa loja de porcelanas. Na diplomacia ficou-se pela canhoeira. No fair play ficou-se pela magnanimidade de um hooligan. O homem tem também pesadelos frequentes. O mais possante é o do pavor de ser apagado da história. Aqui em algoritmo sequencial. O homem é do pior que já houve na vida pública em Portugal. Retirar-lhe o microfone é uma condição de elementar salubridade. Depois da queda, esperou sempre por uma vaga de fundo. Que nunca existiu. Com excepção de alguns amigos do peito, clones e clientelas autárquicas. Ao fim ao cabo, o seu habitat natural. De resto, no PSD a memória é mais curta do que é habitual. E mais implacável. O que significa que nunca haverá graça para quem caiu em desgraça. Este homem poderia até fazer germinar alguma dignidade, reduzindo-se ao limbo da sua insignificância. Mas o low profile e a ausência de números circenses da sua sucessora exasperam-no, para além de qualquer descrição. A juntar, a inglória queda da ribalta só amplificou, desmesuradamente e sem a mediação dos spin doctors, a verdade da sua natureza. É triste. Mas verdadeiro.
Nota: Um post destes, longo e bem abonado em emolumentos pagos em géneros (no caso, soda caustica puríssima), demonstra que o defunto, sendo ruim, existe e custa a sepultar. Gerando um blogo-paradoxo que aqui se saúda.