Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

O PCP só tem uma maneira de sair desta tremenda derrota política que resulta da sua amizade e cumplicidade com o gangsterismo marxista-leninista: Convidar Ingrid para a próxima Festa do Avante e prestar ali a homenagem devida aos reféns, os libertos e os que continuam em cativeiro, do narco-bando das FARC. Se não o fizer, sinal de que não muda, então pode convidar Mugabe que ninguém vai estranhar.
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Adenda: Infelizmente (e digo-o com sinceridade pois a miséria, incluindo a política e ideológica, não pode dar satisfação), a secção portuguesa dos restos da patologia marxista-leninista conseguiu surpreender pelo lado mais degradado da hipocrisia partidária. O comunicado "forçado" do PCP e a sua intervenção na Assembleia República acerca da libertação de Ingrid, só é comparável com a de um imaginado grupo de celerados que, por exemplo e quando da fuga de Peniche de Cunhal e seus companheiros de fuga, em 1960, tivesse optado por condenar o "comando do PCP" que operacionalizou a libertação dos presos (Pires Jorge, Rui Perdigão, Rogério Paulo e outros), chamando-o de "proto-extremista", e se recusasse a subescrever uma palavra de condenação de Salazar e da PIDE que os mantinham prisioneiros, manifestando-lhes, antes, a continuação da solidariedade. Por muitas lutas sociais que influenciem e conduzam hoje, muitas delas justas e necessárias, desbaratando, por oportunismo e falta de princípios, o enorme património de martírio que guardam no museu do combate ao fascismo, esta gente continua parada no tempo ideológico e histórico em que apoiaram os crimes de Estaline, as invasões soviética da Hungria, da Checoslováquia e do Afeganistão, mais a lei marcial na Polónia e todos os desmandos das ditaduras comunistas (mesmo quando estas assassinaram muitos milhares de comunistas), numa tendência atávica para serem solidários com os crimes, todos os crimes, cometidos em nome do comunismo, demonstrando como seriam perigosos se dentro ou próximos do poder. E, pior que tudo, em patologia adiantada, a cada tijolo do "Muro" que lhes caiu e continua a cair em cima da cabeça, eles reagem com o escancarar do riso psicótico dos sado-masoquistas fanáticos. Que os eleitores nos livrem deles, por favor.
Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

Numa viagem de táxi, senhoras, todas tapadinhas, vão atrás.
(Foto actual da AFP, Kabul)

Ao contrário ao que se dá a entender neste post de Joana Lopes, acho que a vereação da cultura da Câmara Municipal de Coimbra está bem entregue. Não é qualquer um que descobre o surrealismo derramado. Tem que se ser culto, muito culto.
Lido no JN (a propósito de uma "Exposição Internacional de Surrealismo Actual/O reverso do olhar" realizada em Coimbra):
Segundo escreve no catálogo que acompanhará a mostra, Mário Nunes, vereador da Cultura da Câmara de Coimbra, o objectivo é também "divulgar ao público de Coimbra, ao nacional e internacional, um conjunto de valores surrealistas que vão demonstrar a autenticidade e grandeza deste movimento nascido em França na década de 20 do século XX, e que se derramou, gradualmente, pelo Mundo."

Manuel Ferreira Leite com aspecto de ter acabado de ler isto:

O "Notícias da Amadora", fundado em 1958, que começou como mensário, passaria para uma periodicidade mais curta e assumir-se como "semanário popular". Transformou-se, muito por obra do dinamismo redactorial do tempo em que Orlando Gonçalves foi seu director, num jornal lido por quase todos os que procuravam notícias, críticas e opiniões diferentes das do ámen ao regime. A sua submissão ao crivo implacável da Censura foi-lhe assim transmitida:
O resultado foi que, durante o período 1958-1974, este semanário acumulou 2.776 intervenções do “lápis azul” (2.108 artigos tiveram cortes parciais e para 668 artigos houve a radical indicação de "cortado"). E os articulistas censurados foram 502 (!). Ler aqui sobre o ranking dos articulistas "censurados".

Ontem foi dia de compras, repondo os stocks em baixo. Não quis perder o primeiro dia com o IVA descido. Eu tinha plena consciência de quanto esta descida implica em perda de receita para o Estado. E se o Estado passa a perder tanto eu achei que devia assumir a enorme responsabilidade de ganhar alguma coisa para que o esforço do governo valesse a pena. Não dei por nada. Mas não desisto, voltarei a tentar após recuperar do rombo na conta. Depois conto.
Terça-feira, 1 de Julho de 2008

O uso da liberdade, do bem supremo da liberdade, não pode rebaixar a blogosfera ao nível da loiça sanitária nem transformá-la num abrigo de gente cobarde entrincheirada. E os tribunais existem para isso, para julgar crimes. Só aceitando dois tipos de intrusão na actividade blogosférica: a da auto-regulação (as regras que vão sendo, voluntária, informal, ética e socialmente estabelecidas entre os bloggers) e da acção dos tribunais para crimes puníveis na lei (idêntica à usada para com abusos na comunicação social tradicional).

Neste post publicado há menos de um mês, referia o progressivo amolecimento dos laços entre Cuba e o regime venezuelano e a transferência dos laços económicos para o Brasil. Esta viragem suave é perceptível desde que Chavez perdeu o referendo sobre as alterações constitucionais (e afirmou aceitar os resultados), falhou a unificação partidária com inclusão do Partido Comunista da Venezuela e sobretudo desde que Raul Castro substituiu o seu irmão no comando do regime (note-se que, desde a transferência de poderes, Chavez visita Cuba não só menos vezes como quando o faz é para se entrevistar pessoalmente com o enfermo Fidel). Entretanto, na sua afirmação como potência regional, o governo brasileiro tem investido fortemente em adquirir posições influentes na economia cubana.
No quadro do oportunismo do relacionamento internacional do PCP e da sua avidez por se abrigar junto de forças políticas no poder (antes na órbita soviética, agora com quem tenha poder e dinheiro – sejam Cuba, China ou Angola), o anterior companheirismo com a petrolífera Venezuela deu lugar a uma amizade súbita para com o Brasil e em linha com o ajustamento das alianças cubanas. Nem o anterior nojo político-ideológico pelo PT e por Lula (antes identificados com a heresia trotsquista) nem a vetusta amizade de décadas com o PCB (o do cantado e mítico "Cavaleiro da Esperança"), constituem obstáculos para a gestão pragmática e interesseira do “internacionalismo proletário” do PCP sob esta direcção. O silenciamento súbito do “Avante” nas loas a Chavez, eram já um sinal do mimetismo relativamente às preferências cubanas. E para chegar junto do “governo amigo” de Lula, nada como trocar os anteriores laços preferenciais de relacionamento com os comunistas brasileiros do PCB (que está na oposição política a Lula), transferindo-os para um partido que resultou de uma cisão, o PCdoB, fracção esta que participa na coligação governamental que governa o Brasil (e onde o PCdoB senta um ministro).
Compreende-se assim que quando, no mês passado, mandaram Jerónimo de Sousa viajar para a América Latina, lhe entregaram bilhete de avião não com Caracas como destino mas com desembarque em São Paulo.
Numa entrevista dada ao último “Avante”, Jerónimo de Sousa faz a crónica da sua viagem brasileira e, com a sinceridade possível dos oportunistas descarados, explica onde está o busílis político desta ida até aos braços do PCdoB (e do PT):
É bom ter presente, por exemplo, que o Brasil é hoje o primeiro parceiro de Cuba, não numa vertente assistencialista mas através do envio de tecnologia muito avançada, da disponibilização de instrumentos virados para o desenvolvimento de Cuba, a par de uma exigência de não interferência dos EUA em relação à soberania brasileira.
Nota sobre as siglas dos partidos brasileiros: PCB = Partido Comunista Brasileiro; PCdoB = Partido Comunista do Brasil; PT = Partido dos Trabalhadores.

Por exemplo, os comunistas do PCdoB e outros democratas que estão no movimento sindical romperam com a CUT e formaram uma nova central sindical de classe, que está a crescer e tem já um peso significativo, demonstrando assim que não se ficam pelas «inevitabilidades», antes dando com esta decisão importantíssima uma prova da sua autonomia e do seu objectivo de transformação social.
Caso para dizer: longe vão os tempos da “unicidade sindical” na Lei.

A blogger cubana Yoani Sánchez (autora do mundialmente famoso “Generación Y”, aqui várias vezes referido) é, além do mais, uma mulher pertinaz e imaginativa. As autoridades cubanas bloquearam todos os acessos ao servidor onde se aloja o blogue de Yoani nos locais de ligação pública à Internet (cibercafés e hotéis, com acessos pagos e caríssimos), ou seja, onde a maioria dos internautas cubanos pode aceder à rede (a ligação à Internet só é permitida em Cuba a pessoas e entidades de topo e autorizadas). Mas a teimosa Yoani, que não pode ligar um computador e ver ou alimentar o seu blogue, continua, com assiduidade regular, a colocar os seus posts e alimentar, na caixa de comentários, um fórum muitíssimo participado sobre as questões que levanta. Mais, os seus textos podem ser consultados não só na versão original em castelhano como em versões traduzidas para inglês, alemão, francês, italiano e polaco (pela colaboração de cibernautas que voluntariamente prestam esta colaboração). O que é surpreendente e revela como a ligação em rede tem um potencial que consegue ladear as mais persistentes e maníacas limitações da ditadura mais casmurra.
Yoani, num post recente, explica candidamente como consegue dar a volta às autoridades mantendo um blogue que não pode ser visto por ela e por muitos outros dos seus compatriotas. O estratagema baseia-se nessa nova forma de solidariedade que é a solidariedade em rede. Ela envia os seus posts por correio electrónico para amigos com acesso ao servidor, estes publicam-nos e devolvem-lhe por correio electrónico os comentários que são afixados. Entretanto, os posts com os comentários são gravados em CD que são reproduzidos e distribuídos gratuitamente em Cuba para poderem ser lidos por aqueles que se defrontam com o “apagão” do servidor onde está alojado o “Generación Y” (na imagem, cópia de um exemplar).
Justifica-se Yoani sobre os motivos que a levam a persistir neste jogo de gato e rato na rede censurada: “no hay nada que me resulte más atractivo que aquello que se me impide hacer” (verdade elementar do comportamento humano que nenhum dos fascismos e dos comunismos foi jamais capaz de entender). Quem tenha um byte que seja de dignidade como pode não entender Yoani?



Passou há poucos dias o centenário do nascimento de Salvador Allende, o Presidente mártir, caído em combate e às mãos de uma pérfida coligação fascista-americana, coisa vulgar na década de 70 do século XX.
Sobre Allende, quase tudo se disse e sobre ele quase tudo se sabe. Assim, se acrescentasse o quer que fosse sobre ele, cairia numa mera redundância. Mas associo sempre à memória de respeito e afecto que guardo de Salvador Allende, um paradoxo circunstancial que vivi e esteve associado ao seu assassinato e à liquidação da democracia chilena. No dia dos trágicos acontecimentos em Santiago, nesse Setembro de 1973, estava eu a embarcar na Portela para uma férias em Londres e tratava-se da minha primeira visita turística a um país democrático. Li os jornais antes de passar o controlo dos passaportes que era feito pela PIDE e lá estava escarrapachada, terrível, a notícia. Chegado a Londres, feito o check-in no hotel, enfiada a mala no quarto, foi a abalada apressada para o centro de Londres para participar numa gigantesca manifestação contra o golpe de Pinochet. E foi assim que, depois de me ter manifestado dezenas de vezes sempre por curtíssimos períodos e com chanfalhada a cair-me no lombo ou dela fugir em passo de corrida esbaforida, num paradoxo de trágica coincidência, por terem assassinado Allende, lhe devo a minha estreia numa manifestação não reprimida, onde se podia gritar o que ia na alma, até protegido por polícias desarmados.
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Imagens: Os três Allendes que passaram à história: Allende, o Presidente eleito; Allende resistindo à ofensiva das bestas; Allende assassinado, o único que permitiram que sobrevivesse.