Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

O NUCLEAR É QUE DÁ GUITO

 

No meio de várias e usuais caracterizações do nosso patronato, raríssimas vezes abonatórias, faltava esta: Portugal tem um patronato atómico!

 

Publicado por João Tunes às 16:30
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JÁ PODE IR

 

Berlusconi conseguiu o seu principal objectivo eleitoral: fazer aprovar por uma, sua e dos neo-fascistas, maioria parlamentar, a imunidade (impunidade) para não responder perante a Justiça por falcatruas a aguardar julgamento. Cumprida a obra, a Itália devia voltar à normalidade (em Itália, o normal político é sempre contraditório, instável e imprevisível, mas, enfim, cada país tem a normalidade que a História lhe consente) e Berlusconi ir-se. Ou ele quer mais? Se sim, o que será? Mamma Mia!

 

Publicado por João Tunes às 16:14
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AS CLAQUES E OS NINHOS DOS EXTREMÓFILOS

 

 

Não me canso de repetir (enquanto elas existirem): detesto as claques de futebol (a começar pelas que parasitam o meu clube). São ninhos das extremofilias (sobretudo a de extrema-direita), educando jovens de pais ausentes ou mais ocupados em outros assuntos que a educação dos filhos, nos cultos pelo fanatismo que exclui “os outros”, na violência, na ordinarice mais boçal e na delinquência própria dos cobardes quando se juntam em bando. Aninham-se nos clubes de futebol, explorando - nos estádios ao rubro onde a paixão pelo clube e a ansiedade por ganhar baixa o nível de exigência civilizacional - a condescendência da multidão de adeptos que os aprecia e segue porque, ali, naquele jogo,  estão “do mesmo lado”. E prevejo e desejo que esta minha repulsa pelas claques dure tanto quanto o meu enorme gosto pelo futebol e a paixão pelo meu clube (que não desce à categoria do hooligan, nem sequer a do hooling intelectual, negando ou subvalorizando o direito a paixões diferentes e adversárias) que dura enquanto duram os 90 minutos de cada jogo, recolhendo "aos balneários" após o apito final.
 
A foto mostra uma claque do Partizan de Belgrado, num jogo recente e amigável com o Olympic de Lyon, exibindo uma bandeira com a cara mal parecida de Karadzic (a de antes de evoluir para o disfarce de “médico - pai natal”). Sabe-se como a extrema-direita nacionalista sérvia (a da “Grande Sérvia”, entenda-se) reagiu à prisão daquele criminoso de guerra e à perspectiva de vir a prestar contas no TPI em Haia. Natural que os adeptos extremófilos amantes de Karadzic escolhessem uma claque de futebol como ninho protector para exibirem a sua solidariedade para com um dos seus. Tão natural como a sua consonância com outra banda de extremofilia e que assim escreve sobre o TPI:         
 
"É um instrumento supranacional da justiça de classe dos poderosos. Seria excessivo, talvez, esperar que afrontasse as causas estruturais da exploração e miséria humanas no planeta, apontando o dedo à iníqua ordem vigente. Tão-pouco os crimes de guerra de Bush & Cia: não esperarão pelo TPI os milhões de vítimas das guerras de ocupação, do Iraque à Palestina. Os carrascos da bárbara agressão à Jugoslávia podem continuar a interceder por novas guerras de rapina. Guantánamo e os voos da CIA permanecerão uma miragem. "
"Novas Carlas del Ponte não deixarão de espreitar, com o seu manejo inquisitorial e vexante parcialidade, à espera de uma oportunidade para nos fazer crer na preocupação do capital pelos direitos do homem."
Publicado por João Tunes às 15:23
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HENDAYA, 1940

 

 

Muito interessante de ler, também no blogue do Daniel, a evocação do célebre encontro de Franco com Hitler, em 23 de Outubro de 1940, em Hendaya. Do post, respigo esta reveladora carta de Franco para Hitler, enviada antes do encontro:
 
"No necesito asegurarle lo grande que es mi deseo de no permanecer al margen de sus cuitas y lo grande que es mi satisfacción al prestarle en toda ocasión servicios que usted estima como valiosos."
 
O Daniel baseou-se em variada bibliografia editada em Espanha sobre as relações entre os dois ditadores fascistas. Julgo que a sua apreciação ficaria mais contextualizada se tivesse tido acesso a alguma bibliografia historiográfica portuguesa sobre as relações entre Franco e Salazar, no mesmo período.  Ambos desejavam, obvia e ideologicamente, uma vitória do nazi-fascismo na guerra e, nesse sentido, perspectivaram as diplomacias e a propaganda, mas Salazar tinha uma posição mais ambivalente e manhosa, permitindo-lhe equilibrar-se nos “dois tabuleiros”, enquanto Franco era mais directo e incondicional no apoio a Hitler. Aliás, formalmente perante o conflito, enquanto o fascismo português se definiu como “neutral”, o regime homólogo espanhol ficou-se pela “não beligerância”, um passo acima da posição de Salazar. No fundo, duas posições de hipocrisia diplomática, pois nem Salazar foi neutro nem Franco foi “não beligerante” (neste último caso, o envio da “Divisão Azul” para a frente leste nazi, atesta-o). Mas Salazar não desejava a presença militar nazi aquém Pirinéus e muito menos ocupando Gibraltar, em conflito militar próximo com a Inglaterra (com quem Salazar não queria romper, tendo em conta a sobrevivência do seu império colonial, o qual era cobiçado pelos alemães e necessitava da protecção inglesa). Tendo em conta os interesses específicos da sua ditadura, Salazar foi um moderador importante e até decisivo dos ímpetos de Franco para passar ao estatuto de beligerante ao lado de Hitler, aconselhando-o ao jogo da manha e da ambivalência e o beirão e o galego acabaram por se entenderem no jogo da duplicidade mal disfarçada. A “travagem” de Franco por parte de Salazar (e talvez o comportamento arrogante de Franco que irritou Hitler no encontro de Hendaya, tenha sido inspirado por Lisboa) acabou por se revelar decisiva no final da guerra e após ela, na sobrevivência das duas ditaduras ibéricas. A duplicidade influenciada e dirigida por Salazar permitiu o alinhamento a tempo, no volte-face da guerra a seguir a 1943, com ingleses e americanos, “limpando” os passados pró-nazis, e a “guerra fria”, que começou logo a seguir, enquadrou as duas ditaduras anti-comunistas ibéricas no “bloco ocidental”, permitindo-lhes que sobrevivessem uma até 1974 e a outra até 1975, ou seja, trinta anos (!) após final da II Guerra Mundial.
 

Imagem: Primeira página do jornal “Arriba”, órgão da Falange, noticiando o encontro entre Hitler e Franco.

Publicado por João Tunes às 13:13
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HUMOR E RESPEITINHO PELA CASA REAL

 

 

Pois, caro Daniel, raramente fica a ganhar quem se mete com humoristas. No caso, concordo contigo: o segundo cartoon é bem mais conseguido que o primeiro (embora o segundo seja eficiente na corrosão conhecendo-se o anterior). O que significa que a apreensão do ano passado da revista “Jueves” só acicatou o talento dos cartoonistas. Assim, tirando a Casa Real, todos ganharam – a revista (que ganhou notoriedade e vendas), os artistas (que sofisticaram as artes) e os leitores (divertindo-se).

 

Publicado por João Tunes às 10:48
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Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

$ 7,600,000 USD É MUITA MASSA!

 

Não sei que faça com este mail que acabei de receber:
 
INTERNATIONAL MONETARY FUND UNIT,
736/740 Romford Road Manor Park,
London E12 6BT, UK.
Tel: +44-871-794-0525
Fax: +44-700-609-0445

Attention Beneficiary,

In conjunction with the Federal Government of Nigeria and the homeland security United State of America, we wish to inform you about the due process of your outstanding part payment of $7,600,000 USD (Seven Million, six Hundred Thousand Dollars only), which was suspended by the Formal Head of States of the Federal Republic of Nigeria, Chief Olusegun Obasanjo.

We received a letter from PRESIDENT UMARU MUSA YARADUA (GCFR) AND COMMANDER IN CHEIF OF ARM FORCES OF FEDERAL REPUBLIC OF NIGERIA in respect to the transfer of your fund, that is why we are contacting you to direct you on how you can receive your fund.

As a matter of urgency, you are required to contact us with the informations, as instructed for immediate effect of your fund to your designated bank account through the Federal Government of Nigeria paying bank, Oceanic Bank International.

You are advice to contact us for clarification your fund and contact of the paying bank.

Do forward these requirements to us as requested:

Name:.............................................   Surname First)
Sex: ..............................................
Marital Status: .................................
Age:................................................
Occupation:.....................................
Direct Phone No:..............................

As for your own interest, you are personally advised to stop all contacts with all offshore centres in Europe, America and all local bank offices and individuals in Nigeria, because the International Monetary Fund Unit has retrieved all powers from this centres due to their inability to perfect their duties.

Please expedite action immediately to enable you have your fund released to you or have your payment placed in the national suspense account.

Thank you for your understanding.

JOHNSON MARTINS

Head, FinCEN DEPT
 
Agradecem-se sugestões de consultores [trabalhando à borla (o dinheiro é muito mas não é para gastar por dá cá aquela palha)].
Publicado por João Tunes às 22:59
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CIAO, BAMBINO D’ORO

 

E é tudo. O naipe da memória não dá para mais.
Publicado por João Tunes às 22:23
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PEDRADAS COM 33 ANOS DE IDADE

 

Às vezes penso que o António Teixeira em vez de ser herdeiro de Aécio é antes um misto de arqueólogo e Sherlock Homes da História nacional e da universal também. Ele tem sempre uma cadeia de pormenores não sabidos ou já esquecidos, uma curiosidade disfarçando um paradigma, uma evidência que por conveniência foi metida debaixo do tapete, uma lembrança cómoda ou incómoda que demonstra como este ou aquele facto foram cobertos ou não encadeados pela fantasia da lenda ou da conveniência. Assim, com ele a desfiar História, esta despe-se e o lúdico toma o lugar do enfadonho. Como sempre devia ser, em História e no resto.
 
Não me lembrava do cartaz acima reproduzido de um comício do MDP/CDE (para os que não sabem ou já não se lembram, ali se agrupavam, após o 25 de Abril, os “unitários”, os que não eram comunistas, esses enquadrados no PCP, mas os “outros democratas”), suponho que realizado em 17 de Março de 1975, na embalagem do “11 de Março” desse ano. Lembrado à distância, não deixa de ser curiosa (e, lá está, lúdica) a forma primitiva (ou directa) como então os “unitários” figuravam a luta de classes, representando o acosso da reacção (os do fascismo) à pedrada. Certo, então não havia Internet.
Publicado por João Tunes às 22:08
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ENTENDAM-SE QUE COM MARINHO NÃO ME METO

   

 

Para que não se diga que neste blogue não se dá atenção ao Dr. Marinho e Pinto, sendo surdo ao seu banzé, e não se medita sobre as suas denúncias e outras lançadas, não sendo eu jurista e muito menos advogado, socorro-me de uma boleia do estimado Marcelo Ribeiro. Este sim, está inscrito na Ordem, embora com actividade provisória ou definitivamente (só deus sabe do futuro de cada um) desviada para as leis da literatura e para proveito nosso pois, como os chapéus, advogados há muitos, enquanto os literatos afincados e produtivos minguam. Deixo pois o Dr. Marcelo replicar ao meu amigo Zé Albergaria, sem ter sido essa a sua intenção quando se meteu à escrita, até porque adoro uma boa discussão entre meus bons amigos:    
 
Só assim se explica que hoje, logo hoje, venha falar (com pinças!) no dr. Marinho e Pinto, bastonário da Ordem dos advogados. Da minha ordem, infelizmente. E digo infelizmente porque não me parece que, apesar de todos os nossos pecados (reparem que apesar de não exercer há já muitos anos não tiro o cavalo da chuva) não merecíamos uma criatura tão vociferante, tão tonitruante, tão esbracejante.
O dr
Marinho de facto parece um moinho de orações tibetano. Está em todas, sempre a abrir, não deixa pedra sobre pedra. Arreia forte e feio em tudo o que mexe, seja juiz (e deus sabe que há alguns que precisam de quem lhes cante missa e sermão) procurador, advogado, estagiário ou de um grande escritório e, eventualmente, os funcionários judiciais.
O dr
Marinho ou sofre de dispepsia ou está zangado. Zangado? Zangadíssimo! Ou, então é a dispepsia, doença maligna que tem vítimas ilustres mesmo entre licenciados em Direito, Eça, por exemplo. O distinto escritor que sofria de algo infelizmente bem pior, queixava-se constantemente da dispepsia. Mas no fundo não acreditava nela. Por isso, quando criticava – e que certeiro era – não procedia como o dr E Pinto. A opinião pública apoiava-lhe as filípicas e as vítimas mortificavam-se amarfanhadas pela ironia do autor d “Os Maias”.
Os alvos do dr
Marinho não só não se impressionam com a desfocada verve do bastonário mas até já terão fundado um club aristocrático onde só entra quem mostrar patte blanche: um ataque do dr Marinho. Sem isso, nada feito. Eu, que estou retirado das lides tenho de recorrer a este texto numa tentativa de atrair o dr Marinho para me criticar a barriga, o humor melancólico, a competência profissional, ou o meu imoderado gosto por Rossini (ou tudo junto) a fim de com uma zagunchada do dr E Pinto poder bater à porta do club a pedir a inscrição sem receio de bolas pretas.
Todavia não sei bem como agir: é que eu nada tenho contra o dr
E Pinto. Nada! Não o conheço, nunca o vi sem ser em baças fotografias de jornais (que provavelmente não lhe fazem justiça...) e dele só sei o que vejo escrito por ele. E isso, essas catilinárias de faca e alguidar, essa permanente novela avinagrada, pouco me diz. Ou diz-me apenas que o dr Marinho parecendo ter uma alta opinião de si próprio, deve de facto ter uma baixíssima auto-estima. Ele agita-se porque não lhe ligam, porque não lhe reconhecem qualidade (ou a qualidade que ele tem ou julga ter), porque o acham uma mera figura na paisagem, uma espécie de telonero (telonero é em Espanha o artista local que está encarregado de fazer um par de facécias enquanto o artista propriamente dito não chega), um verbo de encher.
Há quem diga, já mo juraram, que o dr
Marinho não existe. Assim, sem mais nem menos. É apenas uma invenção malvada dum par de ex-bastonários que zangados com a classe, resolveram inventar uma criatura feita de retalhos de uma larga cópia de personalidades para aterrorizar os adversários e voltar ao poder como salvadores da classe e da profissão.
A coisa tem alguma lógica mas, apesar disso, eu creio que o dr
E Pinto existe. A teoria frankensteiniana é uma invenção doentia da pobre da Mary Shelley (que, além de filha de uma feminista, era vegetariana e sofria com as leviandades do marido poeta e mulherengo) e apesar da fortuna que o mito tem tido, não merece grande crédito. O dr Marinho é, pelo contrario, muito concreto, visceral, genuíno como as iscas de fígado ou a jeropiga. Numa palavra gasta depois de Miguel Torga: é telúrico. Existe para nos lembrar de que neste recanto de terra sáfara entre um mar agressivo e uma montanha inclemente e rude a vida é rude. Como o pilriteiro dá pilritos, o dr Marinho dá sentenças. É o azorrague dos infiéis e dos maldosos. Veio para salvar se não o mundo pelo menos a classe dos advogados em vias de extinção. Ou pelo menos, será isso que ele pensa.
Durante algum tempo, pensei que ele apenas queria sair na fotografia. É humano. Um advogado de província tem poucas hipóteses de aparecer na Caras ou na Lux, para já não falar no Diário de Notícias ou no Expresso. A menos que seja um desses leões da Metro, um “barrista” famoso, um desses milagreiros do direito penal, que arrancam criminosos empedernidos das garras da vindicta policial. Não duvidando das incomparáveis capacidades profissionais do dr
E Pinto tenho por mim que ele não teve nesse campo a merecida atenção dos media. E portanto, o meio (notaram esta? Media e meio, hem?... é para que saibam!) azado para o reconhecimento público terá sido esta cruzada que, apoiada na dignidade de bastonário dos advogados, promete levar à casa da justiça o ferro e o fogo salvíficos que expulsará uma vez por todas os vendilhões do templo.
Eu deveria estar a ouvir um debate televisivo em que o dr Marinho provavelmente esmagará os contraditores. Mas, vocês conhecem-me: no Mezzo passa ao mesmo tempo um concerto de violoncelo de
Bach a que se seguirá um outro de Brahms pela Filarmónica de Berlin, dirigida por sir Simon Rattle. Que E Pinto me desculpe mas Bach é Bach e eu tenho um facataz pela malta de Berlin e pelo Rattle. Não me hão-de faltar oportunidades para me penitenciar, assim Marinho continue.

 

Publicado por João Tunes às 18:41
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OS TRABALHOS COMPLICADOS PARA PARIR UMA SENTENÇA

 

As vias sinuosamente complicadas da Justiça à portuguesa.

 

Publicado por João Tunes às 13:14
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A TÉCNICA LITERÁRIA SEGUNDO VARGAS LLOSA

 

 

A importância da técnica em literatura” foi o tema tratado numa palestra do escritor peruano Mario Vargas Llosa, realizada um mês atrás, na “II Cita internacional de la Literatura en español”, em Santillana del Mar.
 

Os interessados, incluindo os crentes na hegemonia da inspiração e da recriação realista na criação literária, em verem e ouvirem a palestra, podem ver o vídeo aqui.

Publicado por João Tunes às 12:00
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TUDO RICA GENTE

 

O périplo de relacionamento internacional com rica gente (ou gente rica) não pára: Dos Santos, Kadafi, Chavez, …

 

Publicado por João Tunes às 11:47
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PARA A MEMÓRIA DO RADICALISMO DE EXTREMA-ESQUERDA (2)

 

As expectativas positivas relativamente ao livro de José Pacheco Pereira sobre o cisma sino-soviético e o surgimento e a proliferação (apadrinhadas por Pequim e Tirana) de fracções, grupos e grupinhos pró-chineses que evoluíram para o maoísmo (*) e que aqui partilhei, não saíram nada defraudadas após a leitura.
 
“O Um dividiu-se em Dois”, aforismo dialéctico de um “provérbio marxista” chinês, é a primeira parte (período 1960-65) da abordagem de JPP sobre a problemática maoísta, esse enorme drama que estilhaçou (muito para além das brechas antes abertas, quase todas calafetadas pela autoridade autoritária do Kremlin) a unidade do movimento comunista internacional, cindindo-o em dois blocos cujos ódios recíprocos só são imagináveis entre dois irmãos que, a dado momento, olham um para o outro como sendo o seu inimigo principal. E são boas as razões indicadas por JPP para esta divisão da sua obra em duas partes – o período da explosão do cisma e pré-“revolução cultural”; a fase pró-chinesa que comporta o cataclismo paranóico da “revolução cultural”, a “aliança” da China com os EUA e que culmina na fase “um regime, dois sistemas”, ou seja, a capitalização selvagem do comunismo chinês e que degenerou nesse monstro híbrido dos nossos dias. A separação de fases (que podia ser feita num mesmo livro, mas outra foi a opção do Autor e da sua Editora) é não só oportuna no que respeita à China (e ao sub-cisma chinês-albanês), como, por razões acrescidas, relativamente aos seus seguidores estrangeiros. O maoísta (designemos assim por facilidade, embora JPP afirme que o “maoísmo” propriamente dito só surge com a “revolução cultural” de meados dos anos 60) do primeiro período é, tipicamente, um quadro comunista tradicional, com militância e currículo político num partido ortodoxo que reage, e se agrupa com outros descontentes, à denúncia de Estaline feita por Krutchev no XX Congresso do PCUS e às teses de “coexistência pacífica”, percebendo em pânico e raiva (muitas vezes, empoladamente) que o centro revolucionário de sempre (Moscovo, antes visto como a Meca do comunismo) se tinha deixado contaminar pela traição, pelo reformismo, pelo revisionismo do marxismo-leninismo, enfim, por um inaceitável “desvio de direita”, estados de ânimo e disposição para a cisão ou reconstrução, que Pequim e Tirana acarinham, alimentam e financiam. O maoísta do segundo período, fascinado com o radicalismo da “revolução cultural” é, tipicamente, recrutado entre camadas juvenis (sobretudo estudantes) e é essencialmente atraído pela disputa “pela esquerda”, “pela via violenta”, afinal pela radicalidade revolucionária “pura e dura”, em alternativa e confronto, muitas vezes provocatório, com os partidos comunistas tradicionais alinhados com Moscovo e que, na sua lógica de somatório de radicalidades, tem tendências grupusculares em permanentes e sucessivos processos de cisões internas, com cada novo grupúsculo a considerar-se mais “puro” que os outros, além das fragmentações provocadas pela separação entre a China e a Albânia que se tornaram dois pólos aglutinadores rivais.             
 
O livro de JPP, conciso, bem sistematizado e rigoroso, muito claro na escrita, perfeitamente acessível para os não entendidos neste período do comunismo internacional, bem despido de preconceitos (o que é notável num “antigo maoísta”), apresenta uma conseguida síntese das origens do cisma e o estabelecimento das redes iniciais de estruturação e cumplicidades do movimento comunista sob controlo, um pouco caótico, dos “centros revolucionários” emergentes (Pequim e Tirana), incluindo sobre o grupo do “primeiro maoísmo português” (o da FAP/CMLP, liderado por Francisco Martins Rodrigues). Também claríssimo é o tratamento sobre a posição evolutiva do PCP face ao cisma e o serpentear de Cunhal até conseguir conciliar a sua posição sobre a luta em Portugal (passível de associação com a crítica chinesa ao “desvio de direita” de Krutchev), assente numa radicalidade que tinha nascido de um combate e uma correcção ao “desvio de direita” liderado por Fogaça (consagrado no V Congresso do PCP, realizado em 1957, com Cunhal na prisão e ostracizado pela direcção do seu partido, um ano depois do XX Congresso do PCUS e sob sua influência), com um alinhamento incondicional com Moscovo e contra Pequim e Tirana [e o seguidismo exacerbado de Cunhal (um político culto, arguto e experimentado, com um património de heroísmo pessoal pela sua prisão e fuga) e do PCP para com Moscovo só se entende por esta necessidade compensatória]. Esta trajectória de afiliação sem falhas ao PCUS, contraditória e sinuosa, só é plenamente resolvida com a substituição de Krutchev por Brejnev, através de um golpe palaciano em 1964 (o PCP realizará o seu VI Congresso, em Kiev/URSS, um ano depois da queda de Krutchev, culminando as correcções aos anteriores desvios "de direita" e "de esquerda" e consolidando definitivamente o poder supremo de Cunhal e que este conservou até ao fim da sua vida política activa), com o regresso em força ao centro do poder do Kremlin do grupo de burocratas estalinistas soviéticos que tinham engolido contrariados o "anti-estalinismo" de Krutchev, com Suslov (que ascendera ao Secretariado do PCUS com Estaline e foi sempre o padrinho político moscovita de Cunhal) à cabeça.    
 
Julgo que o “O Um dividiu-se em Dois” é um livro de leitura inevitável para os interessados nas questões do comunismo internacional e do comunismo português (os ortodoxos e os heterodoxos, várias vezes trocando de papéis). Por mim, não só apreciei como fico à espera da segunda parte na abordagem de um dos grandes dramas e terramotos da luta política do século XX.
 

(*) “O Um dividiu-se em Dois”, José Pacheco Pereira, Aletheia Editores.

 

Publicado por João Tunes às 00:40
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Terça-feira, 22 de Julho de 2008

BARBA E CABELO

 

Concordo que o figurão serial-killer Karadzic, com ainda mais adornos capilares após se disfarçar de médico clandestino (na foto), vai dar uma trabalheira dos diabos a tosquiar para se apresentar decentemente em Haia, no banco dos réus do TPI. Mas o que estou para saber é se o nosso estimado artista Barbeiro Senhor Luís se presta ao desbaste que a decência impõe, devolvendo-lhe a aparência com que comandava genocídios, ou se, matreiro e expedito na gestão do seu esplendoroso staff, despacha para a função uma das suas sexy-colaboradoras. Se a última hipótese for a escolhida, então que mande uma bósnia para lhe tratar dos enfeites pois, para tal, não lhe deve faltar vontade. Mas daquelas que não se deixam endrominar por um psiquiatra paranóico.

 

Publicado por João Tunes às 13:46
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AS FARC RESPONDEM COM UM “TIRO DE PAPEL”

 

 

As FARC (em comunicado assinado por dois dos seus chefes, Rodrigo Granda e Jesús Santrich, difundido pela ABP – Agencia Bolivariana de Prensa, da Venezuela), responderam quer ao apelo de Chavez para que as FARC libertem os sequestrados e deponham as armas, como ao povo colombiano que, no passado domingo, com milhões de pessoas a manifestarem-se nas ruas, exigiram o fim da luta armada e dos sequestros:
 
“En nombre del fusil de Fabricio Ojeda, en nombre de Albizu Campos y los macheteros de Filiberto Ojeda, en nombre de Camilo Torres, cura y guerrillero; en nombre de los héroes del Moncada y de Alegría de Pío, en nombre de los sufrientes del Cuartel San Carlos, en nombre de los mártires de la embajada japonesa en el Perú, en nombre del comandante Cerpa Cartolini y de cada guerrillero y revolucionario que ha entregado su vida por el sueño de la emancipación…, en  nombre de los sueños y de cada gota de sangre de los combatientes caídos en Nuestra América por evitar el yugo de los opresores es que juramos que no seremos nosotros quienes arriemos sus espadas, sus lanzas, sus machetes, sus fusiles y sus banderas. No seremos nosotros, NO y mil veces no quienes bajemos las armas de Marulanda, las armas del pueblo, que se han levantado por la emancipación.”
 
“Hay ciertas concesiones inadmisibles entre revolucionarios, pues definidos estamos no sólo como marxistas-leninistas sino como bolivarianos, y en tal compromiso no estamos dispuestos sólo a lograr lo que se nos manifieste asequible sino lo que nos imponga la conciencia por deber. Como en la gesta del Libertador, “es imperturbable nuestra determinación de independencia o nada” y así, en el mejor sentido bolivariano reiteraremos como constante que, cuando la opresión no deja más alternativa, la insurrección, la guerra de liberación, constituye el legítimo recurso de los pueblos para lograr la libertad.”
 
(…)
 
“Falta mucho trecho de lucha aún por los desposeídos en el mundo; son más los escenarios del orbe donde se mantiene y crece la explotación con más saña y avaricia que nunca, que aquellos donde se profundiza la emancipación; de tal manera que no hay más que decir con Lenin que “Sólo cuando hayamos derribado, cuando hayamos vencido y expropiado definitivamente a la burguesía en todo el mundo, y no sólo en un país, serán imposibles las guerras. Y desde un punto de vista científico sería completamente erróneo y antirrevolucionario pasar por alto o disimular lo que tiene precisamente más importancia: el aplastamiento de la resistencia de la burguesía, que es lo más difícil, lo que más lucha exige durante el paso al socialismo. Los popes "sociales" y los oportunistas están siempre dispuestos a soñar con un futuro socialismo pacífico, pero se distinguen de los socialdemócratas revolucionarios precisamente en que no quieren pensar ni reflexionar en la encarnizada lucha de clases y en las guerras de clases para alcanzar ese bello porvenir”.”
 
O texto integral da carta dos comandantes das FARC pode ser lido aqui. Como se verifica, o discurso é próprio dos fanáticos e sectários, absolutamente irredentista e paranóico. E a inspiração no marxismo-leninismo e nos escritos de Lenine funciona como uma espécie de legitimidade ideológica e de cumprimento de uma missão universal (“sólo cuando hayamos derribado, cuando hayamos vencido y expropiado definitivamente a la burguesía en todo el mundo, y no sólo en un país, serán imposibles las guerras” subscrevem eles, copiando a cartilha leninista). Mas por trás deste fraseado, sabe-se qual é a prática das FARC (os assaltos e assassínios em massa de camponeses que resistam ao apoio aos bandoleiros, o narcotráfico, o tráfico de armas, os sequestros em massa). Resta saber como estão as coisas dentro das FARC, como a unidade de comando e doutrinação resiste às clamorosas derrotas sofridas nos últimos meses e ao isolamento cada vez mais acentuado na opinião pública colombiana e internacional.
 
 
Imagens: Uma das manifestações do passado domingo com o povo colombiano nas ruas repudiando as FARC e uma guerrilheira desta força militar marxista-leninista.

 

Publicado por João Tunes às 11:57
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