Sábado, 26 de Julho de 2008

Esta notícia é um, mais um, murro no estômago. Que nos dá uma ideia impressiva das várias peças deste mundo estupidamente desigual, infamemente desigual, em que vivemos. Na Gautemala, haver 24 baixas (4 mortos confirmados e 20 desaparecidos), no aluimento de um depósito de lixo (foto em cima) onde muitas pessoas (repito: pessoas) costumam procurar a sobrevivência, é a imagem certa e certeira, inevitável, do mundo, do nosso mundo, do lixo do nosso mundo, onde há pessoas que a sociedade deposita no lixo, sem direito sequer a ser separado do restante como manda a boa ética ecológica.

(por fotos publicadas no seu blogue, Vital Moreira esteve há pouco tempo em Cabo Verde, podendo assim ter-se lembrado de melhor exemplo africano, sem sair da CPLP)


Pela minha parte, o tema pouco mais dá para esticar. Deixo uma última nota da minha parte e apenas quanto à questão de “estilo” (que, num estadista, não sendo tudo, é muito). Vi, e muitos outros terão visto, as imagens televisivas da última recepção de Cavaco Silva a Hugo Chavez no Palácio de Belém. O Presidente, que nem considero um político exímio nas relações internacionais e é bastante dado a gaffes oratórias, conhecendo quem lhe vinha ao encontro, sobretudo na forma como gosta de encenar intimidades e amizades exuberantes, teve a preocupação de, antes que Chavez o envolvesse num amplexo para televisões filmarem, esticou bem o braço para o cumprimentar e impor que o aperto de mão fosse feito com dignidade, distância e respeito pelo protocolo. O venezuelano travou os ímpetos e adaptou-se a que o cumprimento fosse o que deve ser: um acto de cortesia entre dirigentes de dois Estados soberanos com bom relacionamento, só isso. Depois, em gabinete, podem ter tratado de negócios, feito trocas de informações sobre a saúde dos filhos, falado de futebol e combinado uma ida juntos a ouvir fados, mas no momento público protocolar, foi o Chefe de um Estado a cumprimentar o Chefe de outro Estado. Os estadistas, enquanto pessoas, não são iguais? Pois não, está aí a diferença.

Agora, quem pretende aceder ao “O Jumento” encontra esta notificação do Google a filtrar o acesso a este site:
Alguns dos leitores deste blogue contactaram o Google porque acham que o conteúdo do mesmo é reprovável. Regra geral, o Google não avalia nem subscreve o conteúdo deste ou de qualquer outro blogue.
O Jumento, que é jumento mas não é burro, reagiu:
Parece ter sido opinião unânime, a censura inserida pela Blogger parece ter resultado de uma acção concertada de quem não gosta deste blogue, porque aqui respira-se demasiada liberdade para quem anda por aí armado em provedor da democracia, gente que a democracia não é mais do que o melhor sistema político para lutar pela instalação de uma ditadura.
Registo com apreço as dezenas de manifestações de solidariedade feitas por mail, na caixa de comentários e noutros blogues, são palavras que me obrigam a manter este espaço apesar de todo o cansaço que às vezes posso sentir. Devo dizer que fiquei surpreendido. Manter e melhorar para que os que odeiam a opinião livre se sintam ainda mais incomodados, para isso já estou a preparar a mudança para o domínio "jumento.org", o mais tardar depois das férias há mudanças.
E já que vamos mudar o Palheiro é hora de fazer sugestões quanto ao modelo, aos conteúdos ou relativamente ao aspecto gráfico. O Jumento há muito que deixou de ser um blogue pessoal, é um espaço de liberdade onde se discutem ideias e se apoiam causas.
Obviamente que anda por aí uma (ou várias, até simétricas) “brigada(s) de ciber-intervenção rápida” que tenta empastelar ou liquidar vozes dissonantes. Umas vezes fazem-no empastelando as “caixas de comentários” com textos iguaizinhos difundidos em “copy-paste”, outras provocando, ofendendo e caluniando como medidas de intimidação, agora e neste caso pedindo censura e nojo no acesso a um servidor. Hoje “O Jumento”, amanhã outro, depois aquele. Não descansarão até que a blogosfera seja um coro de braços no ar, ou de braços e mãos estendidas, ou de punhos erguidos, que, por palavras eventualmente diferentes, digam o mesmo, defendam o mesmo, ataquem o mesmo. Estão enganados? Acredito que sim.
Os extremófilos, não interessando para o caso se são de direita ou de esquerda ou uma “santa aliança” de ambas, não suportam “O Jumento”. Porque “O Jumento” é uma voz livre que pensa e escreve o que pensa (muitas das minhas convicções políticas, neste ou naquele momento, foram ali fortemente criticadas). A minha solidariedade e a confiança que, porventura mudando de servidor, não vão calar “O Jumento”. Nem a ele, nem a nós. Não fomos do 24 de Abril de ontem, não seremos da Cuba de hoje.
Nota Final: Sugiro que os bloggers utilizando o servidor Google, façam-lhe sentir, cordialmente, o repúdio pela manobra contra "O Jumento" em que acederam participar, com boa ou má fé.
Sexta-feira, 25 de Julho de 2008

Não tenho a certeza de ter entendido bem:
Nota: Os portugueses abandonaram este território no Século XVI.

Senti como um sopro de espanto poético ouvir, na TV, Sócrates citar Manuel Alegre a propósito da cimeira da CPLP. Já estou recomposto. E não faço raciocínios políticos, fico-me pelo consolo sobre a força da poesia.

Bush Filho foi o americano que mais fez pelo alastramento do anti-americanismo no mundo. Pela sua tacanhez, insensibilidade, mentiras e mania das grandezas imperiais balofas e agressivas, sadismo na violação dos diretos humanos, numa dimensão de grande líder pacóvio, com ele na Presidência dos EUA, é impossível estimar a América. Relativamente a isso, as tradicionais correntes anti-americanas, de direita e de esquerda, fizeram os aproveitamentos e glosas que lhes competiam. E os Estados Unidos vêm sair Bush Filho da Presidência, com o nível mais baixo do seu prestígio como grande nação que é.
Quando se iniciou a corrida ao novo mandato na Casa Branca, surpreendeu-me como a maioria da esquerda europeia (a anti-americana e a outra) alinhou de imediato com a Senhora Clinton. Nunca percebi o porquê dessa preferência precipitada. O grande e único argumento que vislumbrei foi que Obama nunca ganharia a cadeira presidencial aos Republicanos. Muito menos entendi este óbice ao afro-americano Obama. E, aqui, até se esquecia o Iraque (no Senado, Obama votou contra, a Senhora Clinton votou a favor). Mas o certo é que ao entusiasmo inicial pró Senhora Clinton, quando Obama ganhou a nomeação como candidato dos Democratas, seguiu-se um esfriamento na torcida pró-Democratas desejosa de nos livrarmos do pesadelo Bush. Agora, Obama anda pela América e pelo mundo quase em estágio presidencial. Poucas dúvidas existem já que será ele o próximo Presidente da América (pois claro, se não o matarem antes). E que o que existe de politicamente mais rançoso no consulado bushiano vai à vida. Mas Obama não só não entusiasma os anti-americanos de véspera (que diziam que não eram contra a América mas só contra Bush) como a frieza quanto às mudanças que ele pode ou vai operar, aumenta. Fenómeno estranho. Para já, provisoriamente e até melhor entendimento, concluo que os mais genuínos entre a esquerda europeia anti-americana, enquanto Obama estagia para Presidente, está a estagiar para o novo confronto pós-Bush, ou seja, independentemente de quem é Presidente, a América é e será o Império do Mal. Até que a esquerda europeia substitua, na América, a esquerda americana?

Se estivesse sempre de acordo com os amigos e estes comigo, poderíamos fazer um bom grupo de Canto Coral ou um excelente Comité Central mas nada aprenderíamos uns com os outros, a não ser a cantar ou a votar por unanimidade de braço no ar. E de certeza que por apurarmos a unicidade monolítica de pensamento, não sairíamos mais amigos que antes. Filosofado o que havia a filosofar, vamos ao miolo.
O José Albergaria, neste post, insurge-se contra alguma indignação suscitada pela forma como a diplomacia portuguesa entrou em rota de intimidade de relacionamento com pessoas pouco respeitáveis (Dos Santos, Kadafi e Chavez) num desfile de tournée diplomática. Ele riposta, argumentando com os interesses de Estado e com a urgência dos bons negócios, cada vez mais necessários para salvar a nossa economia do poço depressivo. E aqui tem toda a razão. Há interesses de Estado e relações entre Estados que não devem pautar-se por convergências políticas e ideológicas. Que a diplomacia deve ser pragmática, soft e … diplomática, nisso estamos 100% de acordo. Idem que, por educação, quando se recebe ou se visita alguém, não se lhes puxam as orelhas. Como devíamos concordar em que a diplomacia é mais que economia e, para um democrata, é sempre a política, ou os princípios democráticos, que devem estar primeiro que a economia (e a um democrata socialista, essa exigência é basilar). Sobretudo, não darmos de barato que um democrata, mesmo ou sobretudo quando faz negócios, deixe de o ser para vestir a pele do gestor concentrado nos resultados e alheio ao preço dos salamaleques de conveniência como preço do regateio e dos jogos das vantagens recíprocas.
Não li que alguém conteste que se façam bons negócios com Angola, a Líbia, a Venezuela ou outros países com regimes que o céu, o purgatório ou o inferno carreguem. Pela nossa dependência energética, não há sultão, soba, ditador, semi-democrata, caudilho ou aparentado que, tendo petróleo, não devamos saber dar-nos com eles e daí obtermos, nas melhores condições possíveis, aquilo que nos faz funcionar e mover. E se, por troca, escoarmos uns pacotes de leite, uns fardos de cimento ou uns circuitos integrados, melhor vai a festa. Mas essa é a parte que compete à diplomacia económica, sub-sector não director de uma saudável diplomacia. Porque se as ditaduras não têm outras pautas que as do poder e dos interesses, uma democracia tem princípios e deles não deve abdicar, muito menos perante quem não cumpre os seus limites mínimos, nomeadamente quanto a direitos humanos, livre escolha dos seus representantes e alternância no exercício do poder. E aí, o regime português tem mais dissemelhanças que afinidades com os regimes de Angola, Líbia e Venezuela. Se, nas relações entre Estados, o português não deve imiscuir-se nos assuntos internos de outros nem permitir que outros o façam, em cada contacto e aperto de mão, deve ficar claro para o mundo e os povos que ao se conciliarem interesses não se está a conciliar visões opostas ou divergentes sobre os direitos políticos e humanos. Com diplomacia mas com diplomacia firme (vejam-se o "mestre" Zapatero e a "mestra" Merkel, insuspeitos de desvalorizarem os seus interesses de Estado, incluindo os económicos).
Quando o José Albergaria diz “Nunca se colocaram questões ideológicas. Nas declarações conjuntas nunca, da parte portuguesa se verificou a mínima das manifestações de apoio aos "regimes" que cada uma destes senhores representa: Chavez, Eduardo dos Santos e Kadhafi.” não está a contar o filme exibido e que todo o mundo viu. Em Angola, Sócrates fez um elogio rasgado à política de Dos Santos e ao MPLA, com Chavez, permitiu que o venezuelano se permitisse intimidade viscosa de amigos políticos e autorizou que Kadafi o apertasse contra o peito numa representação de intimidade politicamente obscena. E Sócrates não disse uma palavrinha (de Luís Amado nada a esperar nesse sentido, pois nunca tivemos um chefe de diplomacia tão dogmatizado no “nim”, cada vez mais lembrando o cinzentismo burocrático do velho e ido Gromiko) a reafirmar os princípios da democracia, das liberdades e dos direitos humanos. Tudo foi, princípios democráticos incluídos, o que o governo português embrulhou na tecnocracia dos negócios. E é isto, não outra coisa, o que está mal. A merecer um saudável protesto, não para fazer uma manifestação a exigir a demissão do governo mas para que não se repita (e em nosso nome).
Disse. E espero pela “pancada” de volta. Que receberei com o abraço fraterno de sempre.

Sobre a problemática das influências recíprocas entre Salazar e Franco, relativamente ao envolvimento peninsular ao lado de Hitler durante a II Guerra Mundial (e os dois ditadores confiavam e desejavam uma vitória do nazi-fascismo), a propósito de um post do Daniel evocativo do encontro de Franco com Hitler em Hendaya em 1940, desenrolou-se uma conversa com o meu amigo blogger das Baleares.
Para os eventuais interessados no tema (também para chatear os saudosistas de Salazar que continuam a não me largarem por mail), respigo o que ali escrevi sobre as relações de “amizade e família política” entre os dois ditadores e a respectiva influência no alinhamento e não alinhamento na parceria com o esforço de guerra nazi:
É natural que Salazar se arrogasse um certo ascendente político, por vezes até paternalista, sobre Franco e tenha aproveitado isso para “moderar” o alinhamento franquista com o Eixo (sendo verdade que Franco, muito orgulhoso, várias vezes repeliu a mão paternalista que Salazar gostava de lhe pousar no ombro). Salazar era mais velho e tinha já uma longa experiência governativa (onde muito se dedicou aos assuntos diplomáticos) quando Franco tomou o poder. Salazar tinha a “escola” do Seminário onde estudara para Cura, mais uma anterior posição de prestigiado professor universitário, enquanto Franco era um militar e legionário. Salazar estava bem situado nos “dois tabuleiros” (aliança de muitos séculos com a Inglaterra, boas relações com Hitler, Mussolini e Pétain), enquanto Franco estava mais “puxado” para o lado do nazi-fascismo (Franco tinha, para com Hitler e Mussolini, uma “dívida de guerra”, coisa que não atava as mãos de Salazar). E Salazar (pelo papel fundamental que desempenhou na vitória de Franco na guerra civil) achava que Franco lhe devia mais que o contrário. Salazar dedicava uma grande atenção aos assuntos de Espanha (era o único país fronteiriço, sofrera grandes amargos e pânicos no tempo da Espanha republicana que apoiara o golpismo oposicionista contra o seu regime), Franco tinha mais para onde olhar e com que se preocupar. Salazar tinha colónias para conservar, Franco queria recuperá-las. Além do mais, em assuntos internacionais, Salazar jogava bem e tinha até prestígio nas chancelarias inglesa e alemã (era, com imagem roubada ao xadrez, um bom jogador de “simultâneas”), enquanto Franco estava mais alinhado com um dos campos, logo mais limitado em dispor de saídas múltiplas (como se viu, após o fim da guerra, com a admissão dos dois países à ONU e à NATO). E, no muito que tinham em comum (mesmo gosto clerical por irem à missa, ajoelharem e tomarem hóstias; mesmo gosto político em fazerem salada de fascismo, clericalismo e nacionalismo; o mesmo ódio à democracia, à liberdade e aos partidos; a mesma mão pesada para com a diferença e a oposição; o mesmo desprezo para com os direitos humanos e cívicos; uma parecida idiossincrasia dado que se um era beirão, o outro era galego, ambos provincianos – um de gabinete e outro de quartel – com fraquíssimo conhecimento cosmopolita do mundo pois ambos viajaram muito pouco ou quase nada; eram exímios corruptores mas pouco corrompidos), Salazar ganhava em experiência, manha e cultura.

Chavez já demonstrou, e agora confirma, que é tão rápido a romper relações, ameaçar e insultar, como a reconciliar-se. No fundo, tirando o mau feitio, é um estadista com bom coração.
Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

Ui, no que Vital Moreira se foi meter e nos tentar meter. Das duas uma: ou os visados não lhe ligam, “arrumando-o” sibilinamente na gaveta do patronato e das forças de direita e do grande capital; ou temos borrasca grossa. Mas reconheça-se: Vital Moreira ou é corajoso ou é atrevido. E ambas as modalidades têm os seus méritos.

Não se costuma dizer que, para os jornais, um cão morder numa pessoa não é notícia mas se for ao contrário já o é? Ora aqui está ela!