Quarta-feira, 27 de Junho de 2007

CAMPANHA E ALIANÇAS

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Esta só mesmo no Jumento, explorando uma transfiguração possível de António Feio. Que ilustra bem que quem não sofre do defeito político terrível de ser independente caça votos com eles.

Publicado por João Tunes às 11:09
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Terça-feira, 26 de Junho de 2007

ÁFRICA E UM SALTO NAS EFEMÉRIDES

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Entalado por me ter esquecido ontem de celebrar os 32 anos da independência de Moçambique, mais uma vez me penduro no Marcelo Ribeiro, usando-lhe um naco de prosa corrida para me desenrascar do aperto da amnésia. Vai além de Moçambique, mas assim ainda melhor. É sobre África, europeus, África. Só lendo.

 

Salto para um programa onde vejo o Mia Couto. O programa agora é sobre África. Sobre os estereótipos sobre África. De vez em quando encontro pessoas que foram até lá. Para a praia! Não se lhes peça opinião, muito menos descrição. Foram tomar banho. Os pretos são todos iguais. Iguais e pretos. Descobri, sem surpresa, devo dizer, que ninguém vem com qualquer ideia sobre a realidade vista, visitada. Encerrados num resort, num grande hotel, aquilo que os deveria surpreender não surpreende, tanto lhes fazia África ou a Dominicana, desde que haja praia e um moleque para trazer o daiquiri ou whisky, preto ou mulato é igual, um criado é um criado, pode até ser branco mas isso é mais difícil nos trópicos ou adjacências similares.
O Mia, coitado, bem que se esforça mas o peso de uma África tecnicolor, muito Rainha Africana, torna surda toda a gente. E, todavia, ao que parece, viemos todos de lá, em levas sucessivas, ao azar dos caminhos, perdendo a cor e a melanina ao mesmo tempo. Em trinta, quarenta, cinquenta mil anos, a longa marcha do sapiens sapiens deu isto. E lembro a Ana, na nossa única bicada (a dois) africana, Senegal, ela ia em trabalho, estarrecida: ao fim de meia dúzia de dias, dizia-me: mas eles são tão diferentes fisicamente! Deliciada! E obrigou-me a comer umas coisas à mão em casa de um Abdul simpatiquíssimo, cinco filhos que às tantas estavam todos ao colo da holandesa loira e grande e lhe diziam coisas em uolof disse-me, Vou aprender uolof, há-de ser menos difícil que o português e o Abdul ria como um perdido e jurava que não, português é canja ao pé do uolof, mas a Ana insistia, vou aprender, ai isso é como ginjas, enfim ela não disse como ginjas era o que faltava, mesmo sabendo uns rudimentos de português, português de cama, dizíamos, tontos e felizes, não dá para estas idiomáticas. A Ana nem a morrer aprendeu, aquilo foi tiro e queda, coisa de semanas, puta que pariu isto tudo, um gajo apaixona-se, pensa que afinal a vida pode começar aos trinta e muitos e vem a porra da maligna e zás!, a andar violeta!

Publicado por João Tunes às 22:48
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ASSIM NÃO VAIS LÁ (mesmo comendo bifes que ajudam ao galope)

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Convenhamos que o candidato Negrão não tem culpa alguma nas trapalhadas em que o meteram. Ele que é candidato em Lisboa como podia ser em Ponta Delgada ou em Mirandela, não é bonito que tenham desatado a plantar siglas para baralhar o homem. E no fundo, Ippar, Igespar, Epul e Epal, não soa tudo ao mesmo? Ora. Que vai ser um fraco vereador está mais que visto. Mas, como dizem os brasileiros, o estoque estava em baixo

 

Imagem: Fernando Negrão no Mercado de Benfica (site da sua campanha)

Publicado por João Tunes às 15:01
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AI QUERIDA EUROPA

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Do galanteio de um cavalheiro português até à dupla de gémeos polacos prontos para a mamada, Merkel é o actual sexual-símbolo (quem diria que a tanto chegaria a gorducha teutónica) da Europa rica e decidida que manda. Junte-se o enérgico Sarkozy e o tesoureiro Brown e teremos, de novo, a Europa a andar mas segundo a marcha dos mais fortes.

 

O primeiro grande sintoma deste regresso à hierarquização entre grandes, médios e pequenos, antigos membros e novos membros, foi mostrado com o frisson escandalizado perante a rebeldia polaca de querer estragar acordos pré-preparados. Cuja consequência primeira é que, dentro das suas fronteiras (e com elas ainda vivemos), um cidadão é mais ou menos europeu consoante o peso do seu torrão em Bruxelas. No fundo, está-se a revigorar uma Europa de países e a perder-se de vista uma Europa de europeus. Se tal serve para haver paz, podia ser bem pior. Mas digamos adeus à utopia europeia na hora do pragmatismo dos fortes. E talvez venha daí a encantada, perversa e interesseira euro-turcofilia. É que, no mínimo, a Turquia enfiada na Europa servia para tirar as peneiras aos candidatos a europeus dos pequenos e médios países que apanhavam logo reguadas se arrebitassem para aprenderem bons exemplos com a bitola dos “alunos turcos”.

 

(imagens copiadas daqui e daqui)

Publicado por João Tunes às 12:22
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RAIZ SOVIÉTICA NO ANTISEMITISMO DE ESQUERDA (3) - ECOS PORTUGUESES

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Se a explicação do poder totalitário de Estaline se tem de encontrar na sua própria figura, em que a paranóia criminosa pessoal teve um papel instrumental e estratégico central, ele necessariamente, além de ter bebido na herança deixada por Lenine, correspondeu aos anseios de uma ampla base de apoio procurando a satisfação (por via perversa) de expectativas (desde o grande projecto de ambição de alcançar o cume da pirâmide da “nomenklatura” até ao interesse mais mesquinho de sobrevivência ou uma pequena, ou média, ascensão/afirmação social) de muitos actores secundários, terciários, etc, na URSS e espalhados pelo mundo. A ser assim, o “culto de Estaline” e o servilismo pró-soviético difundido tem de ser entendido no quadro histórico de uma ampla alienação política, ideológica e social com génese na utopia comunista e no marxismo-leninismo (a idealização reificada da praxis do primeiro poder proletário com sucesso sustentado, o saído da Revolução de Outubro, concebido e manipulado em forma de cartilha – com o “centralismo-democrático” como pedra de toque - pelo georgiano que, tendo começado como vulgar seminarista, acabou a dominar um império de meio mundo e a levar a URSS à categoria de superpotência). Alienação esta que, hoje, na Europa do nosso tempo, tem as suas maiores raízes sobreviventes num dos países europeus mais atrasados económica, social, laboral e culturalmente, vivendo um ciclo de orfandade nacional quanto a identidade e projecto (Portugal, PCP com 8% de votos em eleições livres, o que, após mais de 50 anos passados sobre a morte de Estaline e a denúncia dos seus crimes pelo XX Congresso do PCUS, em 1956, representa uma das fixações políticas em Estaline mais tardo-persistentes entre o quadro partidário europeu). Que, passado meio século sobre o desaparecimento e desmascaramento de Estaline, procede, com eco de condescendência social e política desde a esquerda até à direita, a uma rentável reprodução do “culto da personalidade” antes prestada ao “Pai dos Povos”, decalcando-a na veneração póstuma e necrófila de Álvaro Cunhal que esbate a evidência da mediocridade do seu actual e nominal dirigente máximo (um pigmeu político comparado com todos os anteriores líderes do PCP, incluindo no cotejo com o cinzento líder da transição pós-Cunhal, Carlos Carvalhas).

 

Um partido comunista periférico de um país europeu periférico, como foi o PCP, para mais banido durante décadas do movimento comunista internacional (por suspeita de infiltração policial), com sucessivas crises convulsivas de liderança e sujeito a uma feroz perseguição, desenvolveu duas vertentes, catalizadas pelo isolamento e atraso salazaristas: um forte espírito de seita com raízes populares profundas onde as explorações capitalista e feudo-agrária eram mais brutais; uma subsidariedade complexada, com essência de servilismo, perante o farol político da URSS e sem massa crítica para “contestar o pai”, lendo antes a ideologia nos sinais das suas pegadas. A partir da década de 60, Álvaro Cunhal, um visceral e heróico estalinista, um intelectual político de alto gabarito, corajoso e devotado, dotado de uma inteligência superior e com cultura multifacetada, autêntico príncipe maquiavélico, fugido da prisão e líder absoluto e incontestado do PCP, moldou o PCP na cristalização das suas duas componentes identitárias vindas do passado: autonomia para a estratégia nacional de consumo interno e serviço acrítico aos supremos interesses de uma potência estrangeira guia e tutora (URSS).

 

O PCP adorou Lenine enquanto este foi o líder supremo da Rússia bolchevique. O PCP adorou Estaline enquanto Estaline viveu, comandou e assassinou em massa (incluindo centenas de milhar de comunistas), chorando copiosamente a sua morte. O PCP inflectiu “à direita” no seu V Congresso, em 1957 (com Cunhal na prisão), um ano após o XX Congresso do PCUS que adoptou a “coexistência pacífica” e entronizou Kroutchov. Cunhal, finalmente mandatado como secretário-geral e exilado no Leste socialista, acompanhou, entusiasmado, o golpe vitorioso de Brejnev contra Kroutchov, cortejando a clique brejneviana até ao seu fim.  Cunhal, depois, apoiou Andropov, Tchernenko e Gorbatchov na sua ascensão (supunha-o portador de uma panaceia leninista para os males da URSS). Só rompeu com Gorbatchov quando percebeu que a “perestroika” e a “gladnost” encaminhavam o império comunista para a implosão eminente. Na Checoslováquia, apoiou o estalinismo mitigado de Novotny, foi um entusiasta da “primavera de Praga” e amigo declarado de Dubcheck, foi um dos primeiros líderes comunistas a apoiar o esmagamento da experiência checoslovaca pelos tanques do Pacto de Varsóvia, sentindo-se em casa durante a “normalização” de Husak que implicou, além do mais, a expulsão do Partido Comunista da Checoslováquia de meio milhão de militantes comunistas checos e eslovacos. Na Polónia, foi apoiante fidelíssimo de Jaruzelski na imposição da lei marcial contra o sindicalismo polaco. Apoiou, sem vacilações, a invasão do Afeganistão pelo Exército Vermelho. E por aí fora, segundo o princípio de que da URSS só vinham raios solares que iluminavam o mundo. Foi, provavelmente, o português mais soviético (ou, se preferirem, o soviético que melhor conheceu Portugal e os portugueses, e o que aqui deixou marcas mais profundas). Com as suas hostes partidárias rendidas a obedecer-lhe cegamente. Deixou uma herança política e partidária de difícil gestão, desguarnecida da sua excepcional personalidade e da bússula soviética. Hoje, lendo-se o “Avante”, o velho internacionalismo proletário deu lugar a uma salada de aventureirismo cúmplice que mete ETA, bombistas islâmicos, tallibans, Chavez e Fidel. E o regresso esplendoroso, sem tibiezas, ao culto a Estaline, o velho pai recuperado, por via do mito, do túmulo da memória.

 

A comunidade judaica em Portugal, desde a sua expulsão pela Inquisição, há muito que não passa do patamar da insignificância. Mas o preconceito anti-judaico tem raízes fortes na cultura tradicional alimentado pela prolongada prédica católica do tempo do fascismo, só sendo um epifenómeno por falta de visibilidade dos “outros”. Na mitologia popular, “judiaria” é sinónimo de maldade especialmente perversa, “judas” é o traidor, “semítico” é sinónimo de avareza e agiotagem. Israel não é especialmente estimada. A inteligência de esquerda zurze, sem dó e com fraco contraditório, no sionismo, tomando contra Israel posições sistemáticas de repúdio e denúncia quando se verificam conflitos israelo-árabes, se necessário inclinando-se, em cumplicidade, para o apoio moderado mas selectivo pelos fanáticos islâmicos, seja o Irão, o Hezbollah ou o Hamas.

 

Quando Estaline meteu em marcha a sua campanha antisemita e de purga comunista (ver dois posts anteriores), na “conjura das batas brancas” na URSS com réplicas nos restantes países de regime comunista, o PCP apoiou, como sempre foi seu timbre no culto a Estaline e à URSS, mesmo quando das suas maiores monstruosidades criminosas. Veja-se, como exemplo, a posição oficial do PCP tomada no início de 1953, dois meses antes da morte de Estaline:

 

“O recente julgamento, em Praga, de 10 espiões e traidores ao serviço dos imperialistas norte-americanos constitui uma grande contribuição para a defesa da Paz e do Socialismo.”

“Nos seus planos bélicos, os imperialistas não contam somente com o rearmamento, a construção de bases e a preparação de grandes exércitos com vista a atacarem a União Soviética, as Democracias Populares e as forças democráticas de todo o Mundo. Nesses planos têm destacado lugar a espionagem e a provocação contra as forças da Paz e em especial os Partidos Comunistas e Operários, forças de vanguarda da luta dos povos pela Paz, a Democracia e o Socialismo.”

“Em relação aos países da Democracia Popular, em que os Partidos Comunistas e Operários estão no poder, ainda se torna mais encarniçada a acção contra eles e a História mostra-nos muitos exemplos dos infames meios a que os imperialistas têm lançado mão.”

“A própria história da grande União Soviética dá-nos importantes lições a esse respeito. Na sua política de domínio mundial, os imperialistas recorreram á sabotagem, á espionagem e ao assassinato dentro da União Soviética. Os seus agentes, acobertados no próprio Partido Comunista, foram descobertos, julgados e condenados em 1937 e 1938. Estes históricos julgamentos vibraram um golpe profundo nos planos imperialistas, contribuíram poderosamente para a defesa da União Soviética, cujo povo, unido e dirigido pelo heróico Partido Bolchevique, infligiu ao fascismo a grande derrota de 1945. Recentemente foram descobertos os crimes de 11 médicos judeus que, instigados pelos serventuários do imperialismo americano e do Estado de Israel, se dedicavam na União Soviética a crimes de assassinato contra os mais destacados dirigentes do Partido Comunista e do Estado, particularmente dos dirigentes das forças armadas, tendo assassinado Jdanov e o general Shderbokov. Estes infames crimes mostram bem os intentos criminosos dos imperialistas americanos e dos seus lacaios israelitas. “

(…)

“Os imperialistas têm procurado também arrancar a Checoslováquia do campo da Paz e do Socialismo. Em Fevereiro de 1948, o povo checoslovaco, dirigido pelo Partido Comunista, derrotou o golpe de Estado organizado pelas forças da reacção com apoio americano. Desde então o povo checoslovaco tomou conta definitiva dos seus destinos.”

“A descoberta há dois anos, do grupo de espiões encabeçado por Sling, Svermova e Clementis, e passado um ano, a descoberta do chefe de toda esta manobra de traição, Rudolf Slanski [nota: o então Secretário-geral do Partido Comunista da Checoslováquia], vibrou um pesado golpe ma reacção checoslovaca e nos seus patrões, os imperialistas americanos, que contavam com esses traidores e espiões para corroer a Checoslováquia arrancando-a ao campo da Paz.”

“O julgamento e a condenação de Rudolf Slanski [nota: foi enforcado, juntamente com os seus camaradas condenados, numa execução pública numa praça de Praga] e de mais nove espiões imperialistas, eliminando esse grupo de inimigos do povo checoslovaco e desmascarando, mais uma vez, os manejos dos imperialistas, fortalece a unidade e defesa da Checoslováquia, arma o seu povo com novas lições para a luta pela construção do socialismo, rouba aos imperialistas um trunfo importante nos seus planos bélicos – constitui, por isso, uma grande contribuição para a defesa da Paz e do Socialismo.”

(in “Avante”, nº 174, Janeiro de 1953)

 

Imagem: Cartoon checoslovaco sobre a “oferta” da “cabeça” de Slanski, numa bandeja, ao todo-poderoso Estaline.

Publicado por João Tunes às 00:52
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Segunda-feira, 25 de Junho de 2007

RAIZ SOVIÉTICA NO ANTISEMITISMO DE ESQUERDA (2) - A "CONSPIRAÇÃO DAS BATAS BRANCAS"

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Com o “perigo sionista” (aliado do imperialismo norte-americano) na ordem do dia, faltava “descobrir”, inventando-a e tecendo-a, uma conjura dos judeus soviéticos para derrubarem Estaline e o governo soviético, liquidando os seus dirigentes. Naturalmente que, na conjura a inventar, se ela implicava a perseguição e liquidação de grande parte da comunidade judaica soviética, pois o ódio aos judeus era a chama que alimentaria a fogueira da carnificina programada, os judeus funcionariam como bode expiatório mas não eram os alvos mais importantes a abater. Estes estavam no Kremlin sentados ao lado de Estaline ou cumprindo-lhe directamente as ordens. Eram os membros da Comissão Política do PCUS (Jdanov, o “número dois” do regime, Molotov, Mikoian, Malenkov, Kouznetsov e Voznessenski) e a cúpula do aparelho policial (então designado como MGB, antes chamado de NKVD e mais tarde como KGB), incluindo o ministro da Segurança (Abakoumov), um antisemita notório que antes tinha dirigido a liquidação dos judeus do “Comité Judaico Antifascista”. A ponte “contaminadora” entre judeus e dirigentes comunistas de topo seria estabelecida pela “infiltração” de ambos os sectores pelos serviços secretos ocidentais.

 

Jdanov morreu por doença ainda em 1948, a mulher de Molotov foi presa e enviada para o Gulag, Kouznetsov e Voznessenski foram presos e fuzilados, prendendo e torturando Abakoumov, a razia estalinista contra a cúpula comunista iniciou a sua marcha, prenunciando o retorno ao período 1937-39 [em que, só em 1937, foram presos um milhão de comunistas soviéticos (membros ou candidatos a membros do PCUS), dos quais 353.074 foram fuzilados e os restantes enviados para o Gulag], a que, provavelmente, não escapariam, pelo menos, os destacados dirigentes estalinistas Molotov, Mikoian, Malenkov e, numa segunda vaga, o próprio Beria. Assim, em cima dos esqueletos dos seus parceiros proeminentes do supremo poder comunista soviético, Estaline podia reconstruir toda a pirâmide do poder soviético a partir de novos e promovidos quadros tolhidos pela fidelidade do terror e, com ele, iniciar o “grande confronto” com o Inimigo Ocidental, Estados Unidos e Israel à cabeça. Para a operação, Estaline não só enfiou na prisão Abakoumov, o chefe dos carrascos com as mãos encharcadas de sangue, passando repentinamente de policia-mor a espião-mor, como o substituiu por um assassino em ascensão (Rioumine) [ambos escapariam com vida ao estalinismo pelo falecimento do ditador, vindo os dois a serem fuzilados já com Kroutchev no poder, assim como Beria].

 

Mas se o fio condutor era a “conspiração sionista” havia que encontrar os “judeus assassinos”. O flash que iluminou a teia “conspirativa” foi encontrada nos médicos do Kremlin (os que assistiam, com cuidados médicos especiais, os dirigentes soviéticos e do movimento comunista internacional de primeira grandeza, que eram recrutados nas sumidades científicas e nas várias especialidades da medicina soviética). Entre estes, contavam-se alguns judeus (embora fossem uma minoria) e bastava encontrar um traço de contumácia de práticas criminosas dos “médicos soviéticos” contra dirigentes e altas personalidades soviéticas para estabelecer o panorama da conjura que, pelo seu traço peculiar, ficou conhecida como a “conspiração das batas brancas”. Uma médica que fizera electrocardiogramas a Jdanov, em 1948, Drª Timachouk, era agente do MGB e fizera uma denúncia de negligência médica contra os médicos que assistiam Jdanov na sua doença cardíaca. A denúncia ficou adormecida durante três anos (apesar de ter ido ao conhecimento de Estaline que lhe meteu despacho de envio “para arquivo”) até que se verificou a sua “utilidade”. Utilidade esta que funcionava nos dois sentidos pretendidos: 1) o aparelho do MGB, incluindo os oficiais e agentes judeus, estava “contaminado” porque não tinha dado seguimento à denúncia da Drª Timachouk, omitindo-se que o MGB não o fez porque Estaline mandou “arquivar” a delação; 2) os médicos judeus estavam apostados em assassinar os dirigentes soviéticos, a soldo dos mesmos serviços secretos que se infiltrara no MGB. A passagem da limpeza no MGB para a liquidação dos membros mais destacados da Comissão Política do PCUS (Molotov, Malenkov, Mikoian) seria feita numa associação posterior. Para já, Jdanov, aquele que tinha um prestígio mais aproximado ao de Estaline, tinha morrido (poupando vir a ser um alvo da purga, servindo agora de vítima da conjura), Kouznetsov e Voznessenski, protegidos de Jdanov, mais novos e ambiciosos, com grande prestígio e influência em Leninegrado, foram rapidamente presos e fuzilados. Dos que restavam com algum peso, além do medíocre burocrata Kaganovitch (o judeu sobrevivente), restavam Beria e Kroutchov no Olimpo do Kremlin. Logo que surgisse a hora de se desembaraçar de Beria, Kaganovitch não fazia qualquer sombra e Kroutchov, sempre servil e cúmplice com Estaline, faria bem o papel de putativo delfim (como, por ironia da história, semi-desmascarando Estaline, fuzilando Beria, acabaria por se consagrar no XX Congresso do PCUS como o sucessor no poder supremo do Kremlin). 

 

Mas a encenação mais importante na “conjura” dizia respeito à sua componente judaica, para se ir ter a Israel e, depois, aos Estados Unidos. Se Abakoumov não era judeu, era-o um dos seus adjuntos, Schwartzman, logo, na hierarquia da “conjura”, o adjunto mandava no chefe. E por aí abaixo, passando pelos vários generais e coronéis judeus que trabalhavam no MGB. Quanto aos médicos, aos terríveis “assassinos de bata branca”, os que velavam pela boa saúde dos dirigentes soviéticos, uma das eminências da medicina soviética, Dr. Etinguer, era judeu e foi promovido a cérebro da “conjura”. E na equipa que havia assistido Jdanov, uma médica que executara electrocardiogramas antes da Drª Timachouk, a Drª Karpai, também era judia. Dois judeus chegavam para provar que a sede do crime estava no judaísmo e na sua componente moderna, o sionismo. Quanto aos médicos não judeus da equipa do Kremlin (Dr. Iegorov, Dr. Volkogronov, Dr. Rijikov e Dr. Vinagradov, este o médico pessoal de Estaline), bastava “demonstrar” que estavam a soldo do Dr. Etinguer. Todos foram presos e torturados (o Dr. Etinguer morreu durante as sessões de tortura na prisão de Lefortovo). Enquanto a apagada Drª Timachouk, a agente denunciante, foi glorificada como heroína soviética (o “Pravda” chamava-lhe a Joana D’Arc soviética) e condecorada com três (!) Ordens de Lenine. Mas se a “negligência médica” com Jdanov era curta para tamanha conspiração, foi pesquisado que outros dirigentes e personalidades soviéticas haviam sido tratados pelos “médicos assassinos” e tinham morrido de crise cardíaca. E foram encontradas outros. O escritor Máximo Gorki, o dirigente Chtcherbakov, falecido em 1945 e Dimitrov (dirigente comunista búlgaro que havia dirigido o Komintern), falecido em 1949, juntaram-se a Jdanov no rol das vítimas das “batas brancas” que, segundo se depreendia, culminaria no assassinato de Estaline e na entrega da URSS aos judeus e aos Estados Unidos. Para que a "conjura" assumisse uma dimensão extra-soviética, havia que fabricar "sucursais" nos restantes países sob regime comunista com tutela soviética. Assim se encenaram réplicas da "caça aos judeus", de que o exemplo mais terrível foi a decapitação da liderança do Partido Comunista da Checoslováquia, incluindo o enforcamento público, em Praga, em 3/12/1952, juntamente com outros camaradas dirigentes comunistas, do próprio Secretário Geral do PCC, o judeu checo Slansky, um estalinista com provas dadas.   

 

A morte de Estaline, em Março de 1953, interrompeu a tecelagem da “conjura” e, com ela, a orgia de sangue, de prisões e de torturas que ameaçava a liberdade e a vida de centenas de milhar de cidadãos soviéticos, sobretudo de judeus (ameaçados de extermínio) e de comunistas aclamantes de Estaline. Com Krutchov, demonstrada a falsidade de todas as “provas”, os presos foram libertados e reabilitados (excepto Abakoumov que foi mandado fuzilar por Kroutchov por outros crimes anteriores); Molotov (e a mulher), Mikoian e Malenkov salvaram a pele; o carrasco (Rioumine) que dirigiu a “investigação” sobre a “conjura das batas brancas” foi fuzilado por ordem de Kroutchev. Como as vítimas libertadas fizeram, entre si (por sugestão de quem? por pressão de quem?), um “pacto de silêncio” sobre as suas odisseias, o caso das “batas brancas” foi assumido pelo poder soviético sucedâneo de Estaline como “uma nuvem negra que passou”, a dos “últimos crimes de Estaline”. Até porque Israel se mantinha como “inimigo dos soviéticos” e a soldo dos Estados Unidos e o antisemitismo/antisionismo continuaria, como continua hoje, a ser uma peça importante na propaganda da esquerda “contra o imperialismo norte-americano e os seus lacaios em Israel”. Sem Estaline, sem Kroutchov, sem URSS, o “perigo judaico” é filão inesgotável para qualquer propaganda da esquerda anti-imperialista. O antisemitismo entranhado na esquerda garante o sucesso na alimentação de um velho e persistente ódio político em que Israel apanha por tabela, mas apanha. O que Hitler fez com as câmaras de gás e Estaline com as torturas e os fuzilamentos, a esquerda anti-sionista continua a imitar pela via da propaganda herdada da "guerra fria", repetindo subentendidamente o que Estaline disse, preto no branco, em 1952: “Cada judeu é um inimigo potencial a soldo dos Estados Unidos”.  

 

[Sobre a “conjura das batas brancas”, ler: “Le dernier crime de Staline”, Jonathan Brent e Vladimir Naumov, Ed. Calmann-Lévy, obra baseada em documentos secretos do poder soviético, recentemente acessíveis]

Publicado por João Tunes às 18:36
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RAIZ SOVIÉTICA NO ANTISEMITISMO DE ESQUERDA (1) - ESTALINE E OS JUDEUS

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“Nós destruiremos todos os nossos inimigos, mesmo se eles se encontrarem entre os velhos bolcheviques. Nós destruiremos todos, incluindo as suas famílias. Nós combateremos sem piedade qualquer ameaça, por acção ou por pensamento – sim, por pensamento! -, à unidade do Estado Socialista. Pela destruição total dos nossos inimigos e dos seus cúmplices!”

Estaline, discurso de 7/11/1937 (a que a assistência reagiu com grandes aclamações e aos gritos de “Viva o Grande Estaline!”)

 

“Cada judeu é um inimigo potencial a soldo dos Estados Unidos”

Estaline, discurso de 1/12/1952

 

 

Por via das simplificações adquiridas, alimentadas segundo conveniências, o antisemitismo é identificado com a extrema-direita, na sua componente racial mais radical. O Holocausto funciona como poderoso marco de memória para fazer a ponte associativa entre o nazismo e o antisemitismo. E a propaganda tem-se esforçado, com sucesso, por fixar esta associação de um modo exclusivista.

 

Entre a esquerda, sacode-se a mínima ideia de suspeita de contaminação pelo antisemitismo. Segundo a esquerda, combate-se Israel continuada e permanentemente não por se ser antisemita mas pela agressividade bélica e expansionista de Israel contra os palestinianos e os árabes em geral e pela sua aliança com os Estados Unidos. Assim, o anti-israelismo (da esquerda) seria distinto do antisemitismo (da extrema-direita). Enquanto o primeiro, o anti-israelismo da esquerda, se deve a uma análise objectiva de comportamentos e alianças (presumindo-se que podia transformar-se em apoio a Israel, se este se desmilitarizasse, abraçasse a causa da paz no Médio Oriente, fosse amigo dos seus vizinhos, cortasse o cordão umbilical com o imperialismo americano), o segundo, o antisemitismo da extrema-direita, nasce nos preconceitos raciais.

 

E, no entanto, não podem ser apagadas da tradição histórica da esquerda revolucionária (na sua construção mais efectiva e duradoira, a URSS) as gigantescas manchas de antisemitismo violento. E, na sua parte mais trágica, implicando com a existência do Estado de Israel. Um antisemitismo violento que, numa primeira análise, é um paradoxo se se tiver em conta que, antes da criação do Estado de Israel, muitos foram os judeus que militaram empenhadamente no socialismo revolucionário por todo o mundo, fornecendo diversas figuras de proa ao comunismo mundial, incluindo ao estado maior de Lenine.

 

Estaline sempre foi antisemita. Como muitos dos que ocuparam os lugares na nomenklatura soviética após a liquidação da velha guarda bolchevique. Na linha da tradição, aliás, da judiofobia dos povos eslavos e bálticos, em que a prática sistemática e periódica dos progroms estava entranhada nas práticas de exclusão étnica (particularmente violentos na Rússia, na Ucrânia e na Polónia). Enquanto muitos judeus tiveram papel de relevo no movimento socialista e operário, particularmente nas direcções dos partidos comunistas, o antisemitismo soviético manteve-se no estado larvar. O afastamento e liquidação dos líderes judeus bolcheviques que tinham sido companheiros de Lenine (Trotski, Kamenev e Zinoviev), embora sob acusações de traições que não incluíam explicitamente a da origem judaica, permitiu uma grã-russificação - no sentido de identificação hegemónica-imperial (que abrangia ucranianos, arménios, azeris e georgianos) -  quase completa da elite do Kremlin, onde só destoava Kaganovitch (judeu e da Comissão Política, um burocrata medíocre que não fazia sombra a Estaline) e Molotov que, embora sendo russo “puro”, era casado com uma judia de renome.

 

A partir do momento em que Hitler rompeu a sua aliança com Estaline e invadiu a URSS, em 1941, os sentimentos judaicos de sobrevivência e de resistência ao nazismo fundiram-se com a campanha militar do Exército Vermelho na resistência e contra-ataque perante a máquina militar da Alemanha hitleriana. E os muitos milhares de judeus exterminados nos territórios soviéticos ocupados pelos nazis, visando a liquidação total destes, particularmente violenta na Ucrânia, na Bielorússia e nos países bálticos, mobilizou os judeus soviéticos no apoio a Estaline e ao Exército Vermelho. Como por todo o mundo onde existiam comunidades judaicas (incluindo nos Estados Unidos, em que os judeus americanos foram um importante meio de pressão para o contra-ataque antinazi pela abertura da “segunda frente” a partir do ocidente europeu). E na mobilização da comunidade judaica internacional em apoio das façanhas do Exército Vermelho, teve papel de destaque a criação, por judeus com notoriedade na sociedade soviética (escritores, cientistas, artistas, professores) do “Comité Judaico Antifascista”, o qual tinha o apoio oficial do regime e desenvolveu uma considerável acção propagandista interna e na denúncia internacional dos crimes nazis e na exaltação do apoio ao Exército Vermelho, influenciando e mobilizando a diáspora judaica na ideia, simples e verdadeira, que a alternativa à derrota do nazismo era a eficácia absoluta do Holocausto. A libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho e a revelação ao mundo das atrocidades repugnantes da “solução final” perpetrada pelos nazis contra os judeus, incrementou o efeito comunicacional de que “sem os soviéticos, todos os judeus seriam exterminados”, elevando Estaline ao patamar do supremo salvador dos judeus sobreviventes.

 

O namoro de Estaline com os judeus foi breve, durou enquanto interessou ao ditador, e foi brutalmente interrompido. Os laços dos judeus soviéticos com os judeus americanos, a ideia de construção de uma pátria para o povo judaico, despertou o antisemitismo de Estaline e afigurou-se-lhe como um excelente pretexto para mais uma razia sanguinária na sociedade soviética, com relevo para os quadros comunistas, incluindo os da Comissão Política, a serem decapitados em nova purga. Que melhor capa de encenação para o novo banho de sangue “purificador” (no sentido de expelir todas as sombras ao seu poder absoluto) que acusar os judeus soviéticos de traição e má paga ao salvador dos judeus, o Pai Estaline? A primeira vaga deste vampirismo estalinista virou-se contra o prestigiado “Comité Judaico Antifascista”, depois chegando à “organização da juventude judaica soviética”, não sob a acusação de ser formado por judeus mas estar contaminado por “cosmopolitismo” e infiltrada pelos serviços secretos americanos e britânicos. Foram presos e assassinados. A ideia da construção de uma pátria judaica algures, partilhada por alguns judeus soviéticos, foi o pretexto seguinte para a acusação de “nacionalismo judaico”. Provocatoriamente, Estaline ainda propôs que os judeus se acantonassem numa futura “República Autónoma Judaica do Birobidjan” (integrada na URSS) a situar numa zona inóspita entre a Mongólia e a Sibéria. Com a ideia da criação de Israel no Médio Oriente, Estaline hesitou na sua posição, primeiro acreditando que Israel seria um Estado pró-soviético (o que valeu que a URSS fosse um dos primeiros países a reconhecerem Israel), depois, pela súbita e inesperada aliança israelo-americana, ainda em 1948, Israel passou rapidamente a inimigo de estimação e alvo a abater. O sionismo passou a ser considerada uma peste política da pior espécie. E o antisemitismo visceral de Estaline e dos dirigentes do cume soviético (revolvendo o antijudaísmo ancestral que se mantinha adormecido nas populações dos territórios soviéticos) adquiriu uma nova formulação de disfarce: o antisionismo (palavra chave que não mais saiu, até à actualidade, do léxico dos grandes ódios políticos da esquerda mundial).

Publicado por João Tunes às 18:34
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“LA PATRIA ES DE TODOS”

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O célebre documento “La Patria es de Todos” (pode ler-se aqui), proposta de plataforma para a transição democrática, subscrito por quatro dos mais conhecidos líderes da oposição cubana, foi enviado às entidades governamentais de Cuba fez agora dez anos. Então, a resposta da ditadura cubana foi enfiar na prisão os seus subscritores e por lá os manter em períodos variáveis sem direito a julgamento.

 

No passado dia 17, em Havana, os subscritores de “La Patria es de Todos” (na foto, da esquerda para a direita, René Gómez Manzano, Félix Bonne Carcassés, Marta Beatriz Roque Cabello e Vladimiro Roca Antúnez), numa conferência de imprensa realizada em Havana, reafirmaram a actualidade do histórico documento apelando a uma transição pacífica em Cuba da ditadura para a democracia, uma oportunidade adiada mas que não pode ser perdida.

Publicado por João Tunes às 12:37
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ZÉZINHA, SALGADO & COSTA

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Está-se mesmo a ver... que a drª Maria José Nogueira Pinto vai ser nomeada a "toda-poderosa" comissária da Baixa-Chiado. Troca de posição com Manuel Salgado, mas quem continuará a dar o risco será a mesma pessoa.
Aliás Maria José Nogueira Pinto retribui agora um apoio que recebeu, de forma entusiasta, nas anteriores autárquicas. Como se sabe o arquitecto, depois da trapalhada com Carrilho, não foi para casa carpir as mágoas. Optou por escolher outro candidato a quem providenciou o seu apoio, tudo em prol de Lisboa. Bom, a ex-vereadora já lhe tinha retribuído em parte quando nomeou Salgado para comissário da Baixa-Chiado.
Existiu uma altura em que era aceitável, para alguma esquerda, dizer que reconhecia a Maria José Nogueira Pinto uma grande qualidade e dinamismo mas que não concordava com as suas ideias. Agora que as ideias são tão escassas todas as barreiras estão ultrapassadas. A frase mais polémica da ex-vereadora do PP, "Isto [a cidade] não é uma fruteira" podia talvez ser adoptada como lema da candidatura socialista.

Publicado por João Tunes às 12:02
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O MAL ESPALHADO POR SIFILÍTICOS

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Ó mui cara Cristina, mas eram todos sifilíticos os muitos milhões que seguiram até ao fanatismo total e à crueldade sem limites o Adolfo e a outra malandragem suspeita de ter sido contaminada? E essa espécie de fisio-determinismo não será uma forma de desculpar tanta malandrice junta [tinham sifílis, coitados!]?

Publicado por João Tunes às 11:43
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A NOITE SOCIAL SEM LUTA

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Eu sabia, nós sabemos, mas o Tiago Barbosa Ribeiro não esqueceu lembrar que no Porto, na noite de São João, a luta de classes é interrompida para dar lugar à festa anual da harmonia social perfeita, há muitos anos dominada pelo signo do plástico. Talvez daí o uso de martelinhos (há quem opte pelos martelões) e sem lugar para foices plásticas, grandes ou pequenas. Para evitar inapropriados encontros a estragarem a celebração da paz entre as classes com "definição democrática".

Publicado por João Tunes às 11:27
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POLÓNIA NA EUROPA

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Vindos dos púlpitos dos euro-cócoras, ouviram-se coisas repugnantes, por tresandar a xenofobia eslavófoba anti-polaca, sobre a forma dura como os orgãos de soberania polaca negociaram os últimos acordos europeus, fazendo valer o peso da sua dimensão de média potência europeia e que terminou num acordo político suado com os viciados no hábito de determinarem, por si sós, em passadas de rinoceronte, as decisões da União Europeia.

 

Como era previsível, entre os países conversos do Leste integrados na UE, o “caso polaco” acabaria por desencadear, mais tarde ou mais cedo, fortes repulsas fóbicas. Pela sua dimensão e história, porque na Polónia se concentram “culpas europeias” graúdas, porque os rearranjos das suas fronteiras foram cozinhadas sem e contra os polacos, porque, por muito que se massacre a Polónia, o “orgulho polaco” encontra sempre formas de renascer. A direita não gosta da Polónia porque ela lembra que foi lá que o Holocausto se fez indústria da morte. A esquerda não gosta da Polónia porque ela lembra que foi lá, em 1921, que o Exército Vermelho, cavalgando a mando de Lenine para alastrar a revolução mundial, levou no coco e debandou para penates e nos anos 80 espetou a espinha do “Solidariedade” na garganta de Brejnev e sucessores. A direita e a esquerda não gostam da Polónia porque ela lembra como, em 1939, mercê do miserável pacto Hitler-Estaline (conhecido como Molotov-Ribbentrop), a Alemanha e a URSS dividiram o país entre si, incorporando-a nos seus impérios. Os eslavos ortodoxos não gostam da Polónia porque ela é um bastião do catolicismo. Os fundamentalistas islâmicos não esquecem que foi da Polónia que veio o penúltimo Papa. Os velhos democratas europeus não admitem à Polónia que ela não se comporte como um membro subalterno, venerando e obrigado, na União Europeia. Muitos europeus ricos e remediados detestam os imigrantes polacos que enxameiam a procura de trabalho na Europa rica e remediada. Os herdeiros espirituais do KGB não perdoam que na Polónia, caso único entre os países ex-comunistas, se levem a sério os ficheiros dos agentes e informadores da polícia polaca que serviu a repressão comunista. Os russófilos pós-soviéticos não perdoam ao governo polaco que, como país membro da NATO, integre o sistema anti-misseis. Os anormais da laracha fácil não evitam o riso perante o exotismo de, na chefia do governo e na Presidência da República da Polónia, estarem dois irmãos gémeos. Estas e muitas outras são razões amontoadas para que muitos europeus, e proto-europeus, tenham fortes preconceitos sobre a Polónia e os polacos. A maioria destes, os da xenofobia anti-polaca, são os mesmo que se mostram impacientes pela entrada da Turquia na UE, esses sim - os turcos - verdadeiros europeus e dos sete costados.

 

E, no entanto, por muito que se queira humilhar a Polónia, a Polónia não verga, negoceia duro, não agacha, depois assina quando o acordo é feito em regime de tratamento entre iguais, abrindo-se então, só então, ao consenso. Consenso este que só pode ser entendido como afirmação da soberania polaca no quadro da cidadania europeia. Se os euro-cócoras não gostam, paciência. Eu, europeu, não esqueço que também sou polaco.

Publicado por João Tunes às 00:56
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Domingo, 24 de Junho de 2007

MAIS UM EX-SOCIALISTA PARA A CATEQUESE

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Espera-se a todo o momento a concretização da anunciada conversão de Tony Blair ao catolicismo. Depois de ter convertido o trabalhismo britânico ao capitalismo, machadando o socialismo, não lhe restavam muitas escolhas. Pior seria se abraçasse o Islão para purgar as asneiras iraquianas.

Publicado por João Tunes às 23:19
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O CARTAZ DO TRESPASSE

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Só um não candidato permitiria a emissão de um cartaz como este. Ou então, o PSD/Negrão resolveu declarar que desiste da corrida eleitoral e enveredou pelo trespasse entregando a CML a António Costa, como se este fosse o Marquês de Pombal ou o Duarte Pacheco, os seja, os que mexeram com Lisboa com os chanfalhos das tiranias. Por mim, que não sou eleitor alfacinha, acho que Lisboa merece, além de Costa (o próximo Presidente inevitável da CML), mais, muito mais.

 

Imagem captada aqui.

Publicado por João Tunes às 23:01
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Sábado, 23 de Junho de 2007

FALSO LICENCIADO EM SACERDÓCIO

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“Fazia-se passar por pároco há anos. Chegou a celebrar casamento na Sé.”

 

Dúvida: E diria que tinha andado no Seminário Independente?

Publicado por João Tunes às 01:51
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