Quarta-feira, 3 de Maio de 2006

MORALES DA QUESTÃO

Obviamente que não tem muito que enganar o menu boliviano-populista de Morales. Bem como ao que levará o abraço repartido na cumplicidade retumbante desse trio Fidel-Chavez-Morales – um dia destes, sentarem-se à mesa do FMI e congéneres a ajustarem os cintos à medida do retrocesso pelo abuso da bebida da demagogia. O que, sabiamente, Lula soube poupar o Brasil, talvez pela inspiração da convicção no seu desígnio de grande potência latino-americana. Mas não se pode pedir a todos, sobretudo aos líderes caudilhistas feitos na pressa (para os quais, é muito mais fácil macaquear Fidel que abrir as veredas da libertação democrática e social), que tenham a manha sábia de Lula, construída na aprendizagem de umas tantas tentativas, democraticamente fracassadas, de chegar-se ao poder. Ou, sobretudo, receberem presidencialmente, como Lula, um país previamente organizado e regenerado por um político com o enorme talento, coragem e determinação de Fernando Henrique Cardoso, provavelmente o político que mais estruturou a democracia (na sua tríade política-social-económica) na América do Sul e que ainda está marcada pela paisagem do seu passado colonial.

Fidel à parte - um caso de paranóia fascistóide e caudilhista e na linha simétrica de Trujillo, Baptista, Perón, Pinochet e Videla, mais uns tantos ditadores de opereta sádica - Chavez e Morales são resultados do jogo democrático que os legitimam. Na história da América Latina, sempre navegada entre impulsos e excessos, com sinais contrários, um e outro são pólos repetidos (já vimos este filme no México, no Peru, no Chile, no Panamá, no Equador, sobretudo na Argentina) e por réplica a muitas outras mais tendências autoritárias e corruptas e a ainda mais experiências falhadas de “regeneração neo-liberal”. A Bolívia, como a Venezuela, enquanto decidam pelo voto, têm o pleníssimo direito a recusarem a imitação da sobriedade e equilíbrio de Lula, preferindo a experiência da aventura pelo excesso, pelo populismo e pela demagogia. E os neo-liberais serão os últimos com direito a atirarem pedras a Chavez e a Morales. Não pela profecia, fácil, sobre os becos onde leva o anarco-populismo venezuelo-boliviano, travestido de revolucionarismo, conveniente aos actuais senhores mandantes de Havana, seus amos vanguardistas na demonização dos opressores do norte continental. Mas, sobretudo, pela decência exigida como paga aos muitos silêncios engolidos para com as experiências autoritárias simétricas e os fracassos da receita selvagem do neo-liberalismo de terra queimada para os pobres ali aplicadas, sempre com a Espanha neo-colonial a rir-se nos entrefolhos, arrecadando as suas gordas receitas.

O meu voto, respeitando a distância imposta pela dimensão respeitável do Atlântico, é que, entre cem guinadas e cem cabeçadas, mil “Lulas” espalhem flores de bem-estar sábio a terras carentes de democracia adulta. Até lá, respeite-se o direito da América Latina aos seus excessos de adolescência política. Enquanto o voto (deles) for quem mais ordena.

Publicado por João Tunes às 15:25
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TURQUIA E EUROPA

“[Na Turquia] Uma vintena de militantes foram detidos pela polícia anti-distúrbios porque celebravam o primeiro de Maio numa zona interdita a manifestações.

Na operação que levou à detenção, a polícia turca utilizou matracas e gás lacrimogéneo contra os manifestantes.

Na Europa, milhares de pessoas celebraram hoje o Dia do Trabalhador com desfiles e manifestações, mas neste caso sem qualquer problema.”

Publicado por João Tunes às 01:29
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QUESTÃO DE SAUDAÇÃO

Caro Manuel,

Aprendiz na arte das palavras e das mensagens não só não és como nem sequer deves ter tempo de folga ou bonança para sobre isso aprenderes eficientes e convincentes práticas.  E um mestre não desaprende do pé para a mão, muito menos na aragem de um post certeiro na pontaria.

Fazes muito bem, Manuel, em não desnaturares as saudações das tuas e nossas velhas festas. Com o pleno direito de manteres a emoção de as sentires do nervo até à pele, ritualizando a vontade de manter o vómito perante o despotismo. Só mostras que manténs bom estômago. E, sobre isso, só dá gosto sabê-lo.

Julgo que saberás que não seria pelas saudações, raízes e memórias que não te daria troco na mesma moeda. Ou parecida. Mesmo que diferente. Amiga sempre. O problema nunca esteve, não está e não estará no que nos prende ao júbilo para com os escravos que marcham e espalham flores e luta, recusando-se o determinismo na condição. Tu, caro Manuel, saberás, ou ficas a saber, que, feliz por receber de ti um abraço feito palavras, te responderia ao cumprimento-punho com um amigo e singelo “Bom Feriado”. Não por causa dos escravos. Mas pelos Spartacus que a organização arma de braçadeira rubra e mete na cabeça dos desfiles e no fio da manipulação. E ser-me tarde demais para voltar a deixar de ouvir o barulho da água que eles levam aos moinhos, onde, julgo, os escravos teriam passagem rápida pelos balneários sociais e apenas o suficiente para trocarem de grilhetas, escravos ainda e a representarem igualdade como adeus à liberdade.

Uma boa semana para ti, com um abraço amigo.

Publicado por João Tunes às 00:47
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Terça-feira, 2 de Maio de 2006

DA HORA DOS AVENTUREIROS

Não poucas vezes, o desespero e a derrota anunciada levam à aventura empurrada pela audácia do tudo ou nada. Em Novembro de 1970, eu estava enfiado num quartel de uma aldeia do sul da Guiné, Catió, metido numa guerra sem vitória possível e ainda menos sentido que o de soprar contra a história. Ainda pior que essa falta de sentido, uma vontade estúpida de Portugal querer marcar com um mata e morre o posfácio da gesta colonial que lhe ficara no gosto, nos gastos e nos ganhos desde que as caravelas quinhentistas se fizeram ao mar. Não estava ali a fazer nada, excepto aguentar e poder voltar para junto de mulher e filha, procurar emprego e fazer vida. Metido em posição meramente defensiva, numa “ilha-quartel” em território controlado pelo PAIGC, levando no toutiço, dia sim e dia não, para que Nino Vieira gastasse as suas fartas munições de morteiros. Mas estava. Ali, em Catió. Perto da fronteira com a Guiné-Conacry.

22 de Novembro de 1970 e dias seguintes, foram especialmente tensos. A tempestade que carregava a rotina quarteleira era mais pesada que costume. O comando andava de sobrolho mais fechado. Tinha de haver bernarda grossa. Depois amainou. Para se voltar à rotina das morteiradas do Nino. Dia sim e dia não. E o dia 22 de Novembro de 1970 ficou-se como um dia em que até pouco se passou. Ali, em Catió. Porque não longe dali, muito se passara.

Só mais tarde vim a saber um pouco do que se tinha passado nesse 22 de Novembro de 1970 tornado um dia particularmente tenso na rotina militar de Catió. Nesse dia, o governo português tinha executado uma operação de guerra contra outro país soberano e inimigo, invadido a sua capital com o fito de mudar-lhe o Presidente (assassinando-o) e o governo, colocando no seu lugar um governo “amigo dos colonialistas”, liquidando a retaguarda do PAIGC (em que se incluía o assassinato de Amílcar Cabral e dos restantes altos dirigentes) e libertando os militares portugueses que tinham sido capturados pela guerrilha. Foi a operação “Mar Verde”, arquitectada e executada por Alpoim Calvão, aprovada por Spínola e por Marcelo Caetano, neutralizadas que haviam sido as vozes discordantes do Ministro do Ultramar, Silva e Cunha, e do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Patrício. Na noção adquirida da impossibilidade de ganhar a guerra na Guiné, era a aventura do tudo ou nada. E, como se a guerra tivesse solução numa noitada num casino, restava a aventura. Era a hora dos aventureiros. E assim, a hora de Spínola. Sobretudo de Calvão. Também de Marcelo, incapaz de governar um projecto ingovernável. Borrado com a Guiné, à rasca com Moçambique, não querendo perder Angola. Só assim se entendendo que o mais louco e ambicioso dos aventureiros centuriões entre os militares portugueses, irmanado com a PIDE,  tenha conseguido levar o governo português e as Forças Armadas à suprema aventura de querer ganhar a guerra na Guiné pela conquista de um país vizinho e independente. Como se a solução para o colonialismo português fosse transformar toda a África num continente neo-colonial, dando um pontapé na história.

Mataram que fartaram, destruíram bastante, trouxeram os prisioneiros militares portugueses de volta. Mas foram ao campo de aviação para estoirar a frota aérea guineense e os aviões não estavam lá, quiseram calar a emissora e não deram com ela, procuraram Amílcar Cabral para o assassinarem e este estava há dez dias no estrangeiro, o Presidente Sekou Touré que devia ser assassinado também não foi encontrado, um tenente e o seu pelotão (22 homens) desertou e entregou-se às autoridades guineenses e denunciou a operação, registaram-se várias baixas entre mortos e feridos. A operação terminou numa fuga a toda a pressa, em debandada organizada, com medo da retaliação da aviação. No seguimento, um enorme basqueiro internacional que ainda isolou mais o governo português. Sekou Touré reforçou o mando e o apoio ao PAIGC. E o PAIGC intensificou o apoio internacional e o poderio das operações militares. Em balanço, um fiasco. O fiasco de uma aventura. A aventura do desespero. Na hora dos aventureiros. Na pior das horas, quando o governo governa através da loucura dos aventureiros sem escrúpulos.

Com a distância do tempo, a aventura da operação “Mar Verde” vai sendo melhor conhecida. E não deixa de ter relevo conhecer-se esse pedaço de história recente em que Portugal se meteu num enorme assado, de onde saiu humilhado, quando o seu governo decidiu invadir militarmente outro país soberano e independente. Um livro recentemente editado do jornalista António Luís Marinho (*), pese embora a atracção panegírica de encantamento para com a figura de Alpoim Calvão, o maior aventureiro centurião do império, é bem elucidativo desta fase da nossa história recente, em que a loucura também fazia (mau) governo.

(*) – “Operação Mar Verde – um documento para a história”, António Luís Marinho, Editora Temas & Debates.

Publicado por João Tunes às 16:34
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E quem dita a sentença?

Serão juízes designados pela Associação Sindical dos Juízes?

Publicado por João Tunes às 12:04
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