Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2006
![Jose].jpg](http://agualisa5.blogs.sapo.pt/arquivo/Jose].jpg)
Porque será que, desde a noite das eleições, gosto menos, cada vez menos, quase nada, de ter este cidadão como Primeiro-Ministro?
[Digo eu que até votei nele
]

Fase embaraçosa, para mim, é quando revejo um velho amigo ou faço um novo e se chega, na despedida, à cerimónia inevitável de trocar os números dos telemóveis.
Normalmente, os meus amigos, os velhos e os novos, sabem todos o seu número de cor e salteado. Então, para retribuir, eu, bem me esforçando, nunca faço a mínima ideia que número é o que uso por me ter sido atribuído. Para me prevenir, já instalei o malvado número na lista da maquineta e correspondendo ao nome Eu. E assim me desenrasco, achando que não é deficiência grave esta tão minha. Mas como, por norma, me ficam a olhar com espanto mal recalcado, esfarrapo sempre a mesma e ranhosa justificação:
- Desculpem, tenho que procurar, é que não costumo telefonar para mim.Depois, fico de soslaio a olhar o velho ou novo amigo, remetendo, cá para o íntimo, esta dúvida filosofal:
- Será que o normal, sobretudo nas horas de solidão, é um tipo agarrar no telemóvel e telefonar para conversar consigo mesmo?.
Um dia destes ainda me vou tele-socializar. Se calhar, é o pouco que me falta para andar, por aí, catita e á maneira.
Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2006

Quando lhes damos colo, procurando que se sintam bem no nosso colo, fazendo o melhor para que nunca lhes falte colo, pensamos que o mundo é maior que o mundo e do tamanho de um colo que gostaríamos que não tivesse fim. Imaginamos então a vida como infinita e que o finito da velhice pertence aos tropeços privados e longínquos dos velhos que cruzamos na vida quando somos novos. Umas vezes pensando em nós e por nós, noutras afugentamos o pânico de que o nosso colo falte a quem sentámos ao colo. E assumimos, prolongando-o, agarrando-o, o colo como condição.
O meu mais novo há muito que me saltou do colo. Está quase a dispensar colo de ninho para o substituir por colo de escolha, usando as suas asas de voar a vida. É bom vê-lo assim, a enfeitar e construir penas de asas fortes, preferindo-o ver treinar voo de
águia real, mesmo com um ou outro trambolhão, que tê-lo, possessivamente, como pássaro debaixo de asa.
Hoje, ao Pedro, dei-lhe o último dos meus arremedos de colo, reduzido a um discreto aconchego de despedida para o seu voo adulto. Acompanhei-o a inscrever-se como
mancebo no recenseamento militar. Ele está na maior, inaugurando-se como homem. Eu cá estou, numa mistura de orgulho em deixar a águia - a minha águia - voar e a certeza finita que não tenho mais colo para voltar a dar.
![ipod.shuffle.chinese.cultural.revolution[1].jpg](http://agualisa5.blogs.sapo.pt/arquivo/ipod.shuffle.chinese.cultural.revolution[1].jpg)
Como evitar o doseamento das
amplas liberdades?
E se a contra-revolução, via Internet, travasse o caminho triunfal para o Capitalismo?

Claro que admito como provável, reconhecido e muito obrigado, os 2 a 3% de votos de eleitores de direita que, segundo o
Alonso, votaram em Manuel Alegre.
Quanto à exposição pretextada por este
post, a que o
Alonso deu
troco, apenas comento que brilha pelo retrato de como a direita se vê a ela própria, enaltecendo-se, enquanto olha para a esquerda no outro lado do espelho mas dando-lhe, por subestismação ou esquecimento, o ónus e a honra de pagar as despesas da solidariedade. Talvez seja esta forma de cada uma das margens da política se autoproclamar de superioridade filosófica e cívica que expliquem que direita e esquerda ainda estão para lavar e durar.
Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2006

As disparidades endógenas que nos marcam (socialmente, culturalmente) são travões importantes à afirmação de um projecto nacional, distinguem-nos do resto da Europa, marcam o nosso impasse de atraso pelo bloqueio derivado dos nossos contrastes internos.
Já éramos lanternas vermelhas em muitos indicadores comparativos na escala europeia na qualificação, no nível de vida, na produtividade, na desigualdade social. Até no optimismo relativamente ao futuro, estamos por baixo (pudera!).
Agora, o ranking da utilização da Internet em Portugal, comparativamente aos restantes países da UE, traz dados interessantíssimos (e a dar que pensar):
- Enquanto a média europeia de utilização da Internet pelos estudantes é de 85%, nós apresentamos o nível honroso de 91% (!), só ultrapassados pelos estudantes alemães, dinamarqueses e finlandeses. O que é sinal que, nas camadas jovens e escolarizadas, a massa estudantil portuguesa está muito bem ligada em rede.
- Na utilização global da Internet pelos portugueses, vêm as infra-disparidades (as maiores da Europa): 84% das pessoas com habilitações superiores ao 12º ano, usam a Internet, mas só 14% com habilitações inferiores ao 12º ano a usam.
- Entre a população reformada, os números são ainda mais dramáticos só 3% dos portugueses reformados usam a Internet, contra 23% dos reformados alemães, 34% dos reformados dinamarqueses e 54% dos reformados holandeses.
Pensando no papel da Internet como fonte instantânea de informação, de conhecimentos e de comunicação e fonte de intervenção, fácil é deduzir como a população vive, digamos culturalmente, em tremenda diferença de ritmo e velocidade. Enquanto os jovens escolarizados com sucesso acertaram, e bem, o passo no uso das novas tecnologias, as camadas mais velhas e de menor escolarização mantêm-se fixadas no mundo pré-informático.
Claro que se percebe bem de onde estes fossos provêm. Mas a somar ás desigualdades sociais crescentes (a roçar o iníquo) entre os portugueses, arrastando o país para o atraso económico e a incapacidade competitiva, temos já um desfasamento brutal etário e pela escolarização que reverte em problemas graves de comunicação, até de linguagem e suporte informativo, tornando mais incapaz a comunicação entre uma camada madura e idosa que, quando lê, lê o Record ou o 24 Horas, e uma camada jovem escolarizada cuja fonte principal (se não exclusiva) é a Internet.
Estes dados demonstram sucesso na difusão da Internet nas escolas e nos ambientes domésticos por pressão da massa jovem e estudantil. Mas comprovam o atavismo de uma população em caminho do envelhecimento e cada vez mais distante do mundo e
dos seus próprios jovens.
[Nos Centros de Dia para Idosos e Reformados, nos muitos que já existem pelo país fora e alguns bem equipados, há uma tendência para reproduzir, no usufruto do lazer, as formas mais serôdias das suas tradições conviviais e lúdicas. Por regra, organizam-se cantorias, bailaricos, fados, patuscadas e excursões. E quantos destes Centros se equipam com uma Biblioteca e um ciber-café?]
(com base em dados da Eurostat divulgados em artigo de Joaquim Fidalgo no Público de hoje)
![capt.sge.blg56.170106211107.photo00.photo.default-398x231[1].jpg](http://agualisa5.blogs.sapo.pt/arquivo/capt.sge.blg56.170106211107.photo00.photo.default-398x231[1].jpg)
Farto de ler os sinais de bílis esfarrapadas dos sócrates-soaristas mal dormidos com a infeliz escolha que fizeram (mais a banhada que levaram) e que, em vez de enfiarem a carapuça, tentam pendurá-la em outros, coloquei um
post que teve a estulta pretensão de fechar a página eleitoral com uma síntese de despedida. Também com o ainda mais estulto desígnio de mudar de assunto por pensar que há mais vida além de Belém. Enganei-me, o fecho da tenda ainda vai demorar. E se assim é, que o seja.
O
Alonso está totalmente isento do ónus da suspeição de se tratar de um esquerdista (digo assim porque sei que o
Alonso reduz a esquerda aos esquerdistas, o que é, diga-se, um reducionismo do catálogo dos estereótipos). Pelo que escreve (não o conheço além disso), trata-se de um caso atípico de conservador católico
inteligente. E é o último atributo que faz toda a diferença. Relativamente à esquerda e à direita brutas. E o
Alonso entendeu fazer uma crítica pertinente ao meu
post, observando:
Sem dúvida que foi essencialmente de esquerda a votação que o Alegre teve, o que é coerente com a própria identidade ideológica do candidato, mas parece-me redutor definir como "maioria de esquerda silenciosa" esse eleitorado. Para minha surpresa, vim a descobrir, já esta semana, muitos não esquerdistas que me disseram ter votado Alegre.. O que é argumento a considerar se se quiser entender o que representa, sócio-politicamente, o milhão e tal de votos em Manuel Alegre.
Tive, pessoalmente, vários testemunhos que confirmam o que o
Alonso disse - monárquicos, conservadores, pessoas do centro, hiper-valorizadores dos valores, reviram-se no discurso de Manuel Alegre e perfilharam-no como contraponto à degradação politiqueira dos candidatos partidários, transferindo para ele a orfandade pela falta de um candidato que fosse ortodoxo na representação de uma linha de valores que simbolizasse um retorno a um conceito patriota de globalização nacionalista. E, convenhamos, Cavaco, menos que um nacional ou cosmopolita, não passa sequer da imagem básica do provinciano fura-vidas. Digo que esta abrangência do discurso de Alegre (e ela só pode ser sincera para quem conhecer a sua obra poética), bem perceptível como contraponto ao jacobinismo cosmopolita (de raiz maçónica?) da esquerda aparelhada e ao provincianismo cavaquista, não me incomodou pois há muito penso que divisão forçada entre patriotismo (nacionalismo é outra história) e internacionalismo (a maior parte das vezes, não passando de cosmopolitismo fanatizado na frustação por um povo habituado a viajar e interagir pouco) é mais um tique que uma essência. Tudo dependendo do conceito pátrio (leiam Cunhal, está lá a receita da genial síntese bolchevique-patriota e que, por si, explica a inércia da persistência do fenómeno PCP e que é muito mais arrepiante que a deriva patriótica do discurso de Alegre).
Mas, obviamente e como o próprio
Alonso reconhece, a atracção de Alegre sobre o centro e a tradição foi um fenómeno menor, uma questão de franja eleitoral. Porque o grosso da votação em Alegre proveio do eleitorado da esquerda abrilista (desejosa de repetir o primeiro Primeiro de Maio de 1974), inconformada com a inércia viciosa dos aparelhos que dominam os três partidos da velha e da nova esquerda (com maior quota de incidência, claro, entre o eleitorado socialista, inconformado com os vícios do aparelho, a deriva tecno-liberal do socratismo e o absurdo grotesco da escolha de Soares como seu candidato). Assim pensando, adopto a precisão do
Alonso, embora a conversa fosse outra se tivesse havido segunda volta. Aí sim, iria revelar-se crucial a capacidade ou inépcia de fixação desse eleitorado tradicional atraído pelo patriotismo da mensagem de Alegre e em que medida ele iria compensar, ultrapassando, a deserção de votos à esquerda previsível pelos ressabiados sectários com o fracasso socrático-soarista, a somar ao desgaste pela incapacidade de Cavaco para responder ao esforço de uma re-prova dos seus trunfos da gestão dos silêncios. Mas esse cenário, infelizmente, não passa de cenário sem prova de dados. Inútil, portanto.
PS Na boleia desta conversa com o
Alonso, não percam a monumental tareia (bem merecida) que ele dá na trapalhada justificativa com que
Vital Moreira dá provas de desorientação soarista, até no mau perder, sobretudo pela prova da incapacidade em perder (
aqui).
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Haja quem veja entre tantos a não quererem ver. Por exemplo,
Vicente Jorge Silva.
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Tive abraços de consolo de tantas partes que ainda não entendi que coisa foi esta que nos tornou, assim, mais próximos. Alguma coisa terá acontecido neste país que só os cegos teimam em não ver ou negar. Serei um deles?
Uns por viva voz, outros pela palavra escrita, muitos foram os abraços com esperança dentro. Só por isso valeu e vale a pena não deixar morrer esta alegria. E quem a queria passageira vai ter de nos continuar a aturar.
Até tive direito a simpatias estéticas. Por exemplo,
esta.
Obrigado a todos. Cá estaremos. Do tropeço à queda, vai a distância de uma alma.
Terça-feira, 24 de Janeiro de 2006
![capt.nvjh12501200608.miss_america_pageant_nvjh125[1].jpg](http://agualisa5.blogs.sapo.pt/arquivo/capt.nvjh12501200608.miss_america_pageant_nvjh125[1].jpg)
É incontornável falar sobre o rescaldo das eleições, procurando olhar o futuro a partir da margem esquerda do rio. Até porque julgo que nos cabe a nós, os alegretes (sobretudo, os de circunstância), o ónus-beneficio de o poder e dever fazer. Porque a esquerda jerónima já desandou do pólo do eleitoralismo para o pólo do populismo, passou o testemunho à CGTP e retomou o facho anti-PS, contente de ter mais um lugar para improvisar manifes (provavelmente as próximas, com polícias, militares, professores, juízes e enfermeiros, a nata da classe operária, rumarão de frente a São Bento até ao largo fronteiriço ao Palácio de Belém). O Bloco lambe as feridas enquanto tenta perceber o que nunca vai entender - a essência da volatilidade do seu eleitorado. O respeitável e obeso aparelho socrático-soarista do PS oficial não vai perceber coisa alguma enquanto não decifrar o enigma maldito de Alegre e muito menos admitir que o soarismo já estava morto antes de ter de ser re-enterrado, tanto que se prestaram á representação obscena de passearem um mausoléu (político) para esconderem o alívio de verem Cavaco ganhar à primeira, poupando nos sobressaltos familiares.
Na banda alegrete, as coisas também não são fáceis e muito menos lineares. O conglomerado é vasto, diverso e com pulsões diversas e algumas eventualmente contraditórias. Há ajustes de contas infra-PS (pois há, e graças a eles, se deve o ter havido uma estrutura condutora da campanha, registe-se em seu abono, embora anárquica e desastrada, ingénua, romântica e amadorista). [O que só significa que o PS (militantes e eleitores) é mais, muito mais (haja deus!), que as canadianas que amparam Sócrates e o seu governo.] Mas o vasto eleitorado de Manuel Alegre, essa espécie de maioria de esquerda silenciosa, é mais que o PS (m-a) que nela se entranhou e estruturou a campanha, atamancando-lhe um aparelho mínimo. Sobretudo, inclui muitos estreantes e re-entrantes na actividade política, pessoas atraídas pelo exercício da cidadania, cansadas do controlo aparelhístico (do PS e de todas as outras esquerdas), ansiosas pela renovação arejada da esquerda, combatendo essa maldição vendida que a modernização da esquerda só pode ser feita pela via neo-liberal, anti-social, esquecendo o sonho, a cultura e o projecto. Da mesma forma, os que (há muito ou há pouco) perceberam que o revigoramento da esquerda não passa pelo retrocesso a Fidel Castro, Kim-Il-Sung e Hugo Chávez, nem o culto fatimista a um caudilho de pacotilha formado em gentilezas operárias de bailes de bombeiros ou na veneração basbaque perante um economista pró-nobel com espasmos de exorcismos evangélicos.
Manuel Alegre, pela vontade rebelde de o fazer e pelas circunstâncias particulares e partidárias que o levaram a candidatar-se, com enorme coragem e estoicismo, ao dar corpo e caminho a esta convulsão alegrista, heterogénea e enérgica (pelo menos, na afirmação da teimosia na recusa da canga), imensa se se atender ás circunstâncias e oportunidades, prestou um enorme contributo à redignificação da condição democrática, impedindo que o jogo eleitoral (fundamental no funcionamento democrático) fosse um jogo pré-marcado pelo pior que os partidos segregam como ganga de cultura e prática políticas. Ficará para a história. Dele, Alegre (um símbolo do estoicismo democrático). E nossa, seus apoiantes, os que acreditámos até ao fim e só parámos para desanimar e chorar quando vimos que morremos na praia.
O que fazer agora com este milhão e tal de votantes rebeldes que votaram por Alegre? Nada. Absolutamente nada. Sendo certo que cada militante pró-Alegre, e cada votante em Alegre, podem fazer tudo para melhorar o nosso estar democrático. Não desperdiçando esta convulsão cidadã de maior exigência política e de alimentar o direito a sonhar e a transformar. Não permitindo que calquem aos pés tantas bandeiras e tantas vontades. Ao contrário, levantando-as onde elas continuarem a fazer falta, cada qual com seu vento ou sua maré. Ocupando o espaço em que cada qual se sinta com direito a ocupar. Lembrando, aos donos dos partidos, que a política não tem donos e a cidadania muito menos.
É hora de desarmar a tenda do conglomerado imenso e nobre que levou Manuel Alegre até onde ele chegou, sabendo que se podia ir mais além. Insuflar este sobressalto em cada intervenção. No mínimo, não desperdiçar esta energia alegre de tornar cada cidadão em cidadão mais exigente, mais cidadão, menos abúlico, menos espectador, menos disponível a que sejam donos dos seus sonhos, do seu cartão de militante e
dos seus votos. Sobretudo, não desistindo de pensar que a democracia, se é plural (e só pode sê-lo) e partidária (pois claro!), nunca é obra acabada nem segmentável (em que a fatia gorda da economia e das finanças reduz a migalhas o viver cultural, social e cívico, pois é por isso, não pelo défice, que vivemos e queremos viver).
Se Manuel Alegre, com a mesma grandeza com que montou a tenda da rebeldia cidadã, souber desmontar a tenda do imenso conglomerado de cidadãos rebeldes e relapsos á canga dos aparelhos partidários, então este homem terá direito ao mérito suplementar e maior de ter permitido que, para tantos, a poesia rime com política, o canto com a luta, a esperança com o futuro. O que nos melhora como povo, retirando-nos o peso sinistro de nos vermos, uns aos outros, como agiotas concorrentes de um presente efémero.
Eu acredito em Manuel Alegre. Se ele, agora, me desiludir, o problema será dele. Não meu, porque o voto e a vontade não têm donos, como ele bem apregoou e a essa ideia deu corpo e bandeira. E os povos têm sempre um passado, um presente e um futuro, aproveitando-os ou não.
Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2006

Como aqui já disse, entre tantos anos partidários de militância, mais os outros, nunca me havia calhado pertencer a mesas eleitorais. Coube-me agora, por míngua aparelhista da candidatura que apoiei, fazer aprendizagem e exercício dessa nobre e essencial função de garantir o regular funcionamento das instituições democráticas. Fi-lo com uma juvenil crença cidadã de recomeço de luta através do básico e mais nobre e que é o que mais sustenta esta democracia de pouco mais que trinta anos.
Li afincadamente o Manual, tirei dúvidas, preparei-me como se estas fossem as primeiras eleições democráticas da minha velha vida. Porque Manuel Alegre me havia restituído esta força de cravo e rosa, uma estranha energia de renascer para a democracia da esperança. Sobretudo, procurei não fazer má figura. E eu achei que não podia fazer figura decorativa em nome de quem me acordou os sonhos de Abril.
Num concelho de maiorias absolutas e ininterruptas do PCP, esperava encontrar o afinco militante e o reencontro com a fraternidade de esquerda, tanto mais que ia pela esquerda e por Abril, ou seja, por Alegre. E eu ia com a lição (a regulamentar, a do STAPE) bem estudada. Encontrei um grupo altamente profissional e habitual, uma mesa constituída por "velhos convivas" de muitas outras gestões de pugnas eleitorais. Fui recebido com uma frieza de hostilidade que me surpreendeu. Percebi melhor como Alegre incomodava até ao patamar mais básico da cidadania aparelhada. Indicaram-me um lugar lateral para me sentar. E eu, sabendo que esse era o lugar dos delegados das candidaturas, assim me releguei. A eleição começa e reparo que a Mesa que devia ser de cinco, tinha seis elementos em harmoniosa parceria de função. Pergunto, respeitosamente, porque é que aquela Mesa é supernumerária. Dizem-me que a Mesa está certa mas que uma das senhoras não é da Mesa mas sim delegada de uma candidatura. E acrescentam-me não se incomode, ela não come votos. Eu incomodo-me e exijo respeito pela Lei e igualdade de tratamento para com todos os delegados das candidaturas. Murmura-se um parvo mal salivado, a delegada do Jerónimo (que mostrava ser, afinal, a chefe de turma) tomou um lugar contrafeito de conveniência regulamentar, embora nunca desistindo de enviar recados de mando de procedimento para as camaradas da Mesa (suponho que, no Partido, ela tenha lugar de superioridade hierárquica).
Foi um dia eleitoral de aguentar o ostracismo democrático. Mas, na contagem dos votos, as coisas já estavam à beira da normalidade. Depois, tudo ficou nos conformes, votos confirmados e reconfirmados. E deu assim: Cavaco-278, Alegre-216, Soares-89, Jerónimo-70, Louçã-29, Pereira-4, brancos-3, nulos-1. Entre um desabafo de querem lá ver que vamos ter um poeta como presidente e um voto alegre democraticamente devolvido do molho jerónimo, as coisas acabarem em bem, limpas e em cordialidade de fecho de tenda.
Com Alegre, até nesta pequenina escala, ganhei eu, em exercício de cidadania, e julgo que os outros, os da democracia instalada e burocratizada. É isso: a democracia, mais que teoria, é prática. E íamos lá. Se praticássemos mais.
![AlegreMafalda20060120Lisboa[1].jpg](http://agualisa5.blogs.sapo.pt/arquivo/AlegreMafalda20060120Lisboa[1].jpg)
Caro Manuel,
Tenho uma dívida para contigo. Não é pequena mas, toma nota, não é para pagar.
Fizeste lume de brilho renascentista neste anárquico e amador caminhar a replantar entusiasmo abrilista entre os cansados do bolor da asfixia partidocrática em que a esquerda velha se deixou atrelar e que (re)provou não querer arejar. A que prefere o culto de múmias à recriação dos símbolos da esperança.
Perdeste porque perdemos. Mas quantas esperanças novas de rebeldia plantaste e nós, amadores e ingénuos, os do sonho antes do défice, tecemos com dedos de esperança contra a força bruta dos aparelhos aparelhados? Fomos inábeis no ponto mate, o final, o do frémito que poderia ter dado os milhares que faltaram porque ficaram na areia molhada da praia, os dos descrentes na força da poesia. Pois fomos. E depois? Depois, fica a dívida que não é para pagar.
Obrigado Manuel.